«Cumpriu-se o tempo»
22.I.2012
22.I.2012
Salvador Dalí, A persistência da memória, 1931, MoMA New York
Uma história conta que, certa vez, uma criança perguntou a Pasteur, já idoso, «e tu quantos anos tens?». E ele responde: «mais ou menos dez». A criança, surpreendida, disse-lhe: «não pode ser, já és muito velhinho!». E ele respondeu… «ah… pois, quantos anos fiz? Perto de setenta, mas os que ainda tenho não serão mais do que dez…».
As três leituras de hoje (Jn 3,1-5.10; 1 Cor 7,29-31; Mc 1,14-20) contêm preciosas indicações temporais. Ora na Bíblia uma referência temporal não é, geralmente, apenas uma precisão cronológica mas antes um aviso kairológico (ou seja, uma advertência ou chamada de atenção para a importância/relevância/oportunidade do momento referido). Jonas anunciou que «daqui a quarenta dias, Nínive será destruída». Certamente que a intenção de Deus ao anunciar o «prazo» prescrito para a «destruição» não era convidar aquela gente à imigração mas à conversão. E funcionou: «os habitantes de Nínive acreditaram […]; quando Deus viu como se convertiam do seu mau caminho, desistiu do castigo». Por sua vez, Paulo proclama como grande novidade: «o que tenho a dizer-vos, irmãos, é que o tempo é breve […] o cenário deste mundo é passageiro». Ora o tempo é sempre breve, e era-o ainda mais naquela época em que a esperança de vida rondava os 40 anos (segundo dados da ONU para 2005-2010, perto de dez países africanos ainda têm uma média inferior aos 50 anos, para vergonha de toda a humanidade). Finalmente - e esta é a indicação mais preciosa - no Evangelho Jesus diz: «cumpriu-se o tempo e aproximou-se o Reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».
É, pois, tempo e mais do que tempo e também diz o povo: «não deixes para amanhã o que podes fazer hoje». Este é um tempo de conversão, ou seja, de mudança de vida, de mentalidade e de hábitos para uma vida mais con-forme (com a forma) de Jesus. A palavra crise provém do grego krinein que significa separar, distinguir e escolher… Ocorre pois fazer a crítica/crise da própria vida em ordem a assemelhar-se mais a Jesus.
Acreditar no Evangelho não significa apenas uma adesão intelectual a um conjunto de dogmas e preceitos (quantos acreditam formalmente mas isso em nada interfere nas suas vidas…?) mas um seguir atrás de Jesus (discípulo é que aquele que caminha atrás de). Como fizeram Simão e André, Tiago e João que deixaram, uns as redes e o barco (o trabalho, o dinheiro, o conforto e a segurança), os outros o pai e os empregados (a família, o lar, a rede de relações afectivas). Mas não há maneira de converter-se e acreditar, de trocar a pesca de atuns e sardinhas por pesca de homens e mulheres sem deixar para trás…
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