segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Tudo, menos tempo “comum”

Festa do Baptismo do Senhor
10 de Janeiro de 2021
Is 55, 1-11; Sal Is 12; 1 Jo 5, 1-9; Mc 1, 7-11

 

            Com a celebração do Baptismo do Senhor, termina o tempo litúrgico do Natal e começa o tempo chamado “comum”. Nas outras línguas latinas europeias, e mesmo no inglês, o termo usado é tempo “ordinário”. Porém, em português, “ordinário” significa rude ou grosseiro. Por isso, àquilo que em latim é dito “tempus per annum”, isto é, “ao correr do ano” por contraste aos tempos fortes (Natal e Páscoa), convencionou-se chamar entre nós tempo “comum”. Ora o problema é que este ano começamos um tempo que é tudo menos “comum”. Estamos a padecer uma pandemia e prestes a iniciar um novo confinamento radical; a economia padece e as pessoas sofrem em termos materiais, psicológicas e espirituais. Ninguém consegue prever o que será o futuro a curto, médio e longo prazo. De facto, quando a aprovação das vacinas parecia assinalar uma nova fase..., surgiram as mutações do vírus e os contágios desmesurados por ocasião das férias natalícias. Não voltamos sequer “à estaca zero”; estamos numa fase ainda pior do que na primeira, como o número de mortes e infeções bem demonstra. Definitivamente, este não é um tempo “comum”.

            Em boa verdade, nenhuma época viveu um tempo comum. Os sobressaltos na história e as crises espaçadas no tempo a nível individual (na psicologia do desenvolvimento de E. Erikson) ou colectivo (tensão dialéctica na filosofia de F. Hegel) são constituintes da dinâmica humana e religiosa. A última grande guerra terminou em 1945, já passaram felizmente 75 anos (o intervalo entre a primeira e a segunda foi de apenas 21 anos...). Houve conflitos permanentes e guerras internacionais e surgiu o fenómeno do terrorismo global. E, quando o Papa Francisco falava de uma “terceira guerra mundial aos pedaços”, surgiu um “inimigo” comum à toda a humanidade que concentrou as atenções e fez parar, literalmente, tudo e todos. Esta é, certamente, a pandemia mais ampla e contagiosa que a humanidade recorda. E esta é, certamente, a primeira pandemia em que os poderes globais da ciência e da política se uniram para lutar juntos e não entre si. Vivemos a pior pandemia da história e vivemos a melhor fase da história para sofrer uma pandemia.

            Neste deserto que estamos a atravessar, a Palavra de Deus e a Comunhão do Corpo e Sangue de Jesus são um bálsamo para as nossas feridas. O povo de Deus na Antiga Aliança sofreu várias epidemias devastadoras. Uma delas terá sido agravada por culpa dos governantes, mormente do rei David, como conta 2 Samuel 24. Sofreu ainda o exílio e o extermínio duma parte significativa da população. Ora precisamente nesse contexto de exílio, o profeta Ezequiel (Ex 10,18-19; 11,22-23) viu “a glória do Senhor” sair do Templo e partir como os exilados, para estar com eles, e voltar apenas quando o povo regressou à sua terra (43,1-2). Este é o nosso Deus, exilado como nós; “infectado” com os nossos vírus, “tomou sobre si as nossas enfermidades; pelas suas chagas fomos curados” (Is 53,4-5).

               Não estamos sós nem ficámos órfãos. As palavras que a voz do Céu proclamou durante o Baptismo de Jesus, ecoam hoje para nós: “Tu és o meu Filho muito amado, em Ti pus toda a minha complacência” (Mc 1,11; cfr. Is 42,1). São João afirma “vede que grande amor o Pai nos consagrou: somos chamados filhos de Deus, e somo-lo, de facto!” (1 Jo 3,1). Não sabemos, deveras, o nosso amanhã, nem sequer o nosso presente. Mas sabemos de quem somos filhos. 

 

P. Pablo Lima

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Um coração inteligente

XVII Domingo Comum - A
26 de Julho de 2020
Reis 3, 5. 7-12; Sal 118 (119); Rom 8, 28-30; Mt 13, 44-52

Um coração inteligente

            Em 1998, o psicólogo e jornalista Daniel Goleman publicou o seu best-seller “Inteligência emocional”. A sua tese é que o QI do ser humano não pode ser apenas medido em termos cognitivos, mas em termos emocionais. Reconhecer e lidar com os próprios sentimentos e saber relacionar-se com as pessoas ao nosso redor é a chave do sucesso existencial e laboral, afirma Goleman. Desde então as suas ideias tornaram-se património comum e uma grande parte das consultoras empresariais incluíram questões de inteligência emocional nos testes de aptidão. Por conseguinte, não basta a uma pessoa ter grandes capacidades mentais, ter dinheiro e saúde e um bom contexto familiar para que a vida lhe corra bem e seja feliz. É preciso saber viver.
    
            Há três mil anos atrás, um jovem príncipe de um pequeno e insignificante reino chamado Israel, na hora de subir ao trono, pediu a Deus “um coração inteligente” (1 Re 3,9). Salomão estava preocupado com a necessidade de “distinguir o bem do mal” (v.9), porque disso dependeria o êxito da sua missão e o bem-estar daqueles que lhe eram confiados. A Deus agradou a oração do rei porque não pediu “saúde, riqueza, nem a morte dos inimigos, mas sabedoria” (1 Re 5,11). Por isso, concedeu-lhe um “coração sábio e esclarecido, como nunca houve antes nem depois”. De Salomão rezam as letras sagradas que foi o rei mais brilhante do povo de Deus, que reuniu grande esplendor e poder, mas esqueceu-se de Deus e entregou-se aos ídolos. Sábio, sim; santo, não.

            A inteligência emocional necessita ser completada pela inteligência espiritual. No séc. IV, Santo Agostinho rezava “Senhor, que eu me conheça a mim mesmo; que eu Te conheça, Senhor”. O auto-conhecimento ideal é aquele que inclui o conhecimento d’Aquele que nos deu a vida e nos sustenta no ser. Muitas vezes, ocorre que pessoas que não tiveram uma formação escolar e académica prolongada sabem viver melhor do que grandes intelectuais incapazes de falar com gente simples e com tiques de snobismo. Podem não ser letrados, mas são sábios.

            Jesus não teve uma educação superior. Aprendeu os rudimentos da língua hebraica como qualquer hebreu da época, para poder ler na sinagoga. No entanto, sabia ouvir, ver, pensar, sentir, rezar. A sua sabedoria não estava fundamentada apenas na sua omnisciência divina, mas na sua humanidade plenificada pela relação com o Pai e com os outros. Por isso, Augusto Cury chama-lhe “o mais inteligente da história”.

            Diante das encruzilhadas e múltiplas opções que a vida nos apresenta todos os dias, a capacidade de decidir bem é um grande sinal de sabedoria. Decidir implica antever, preparar, sonhar, programar, estudar, ler, observar. E, depois de tudo isto, estabelecer a hierarquia de valores que leva a optar pela realidade mais justa, mais valiosa, mais feliz. Jesus afirma que a sabedoria de escolher o Reino de Deus é como a do negociante que encontra a pérola preciosa ou o tesouro escondido (Mt 13,44-46) e troca tudo para adquirir esse bem superior; ou como o pescador que distingue os peixes fracos dos bons peixes. Finalmente, “o escriba instruído” é como “o pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas”. Porque a sabedoria significa também saber onde estamos, donde viemos e para onde vamos. 

P. Pablo Lima

In Notícias de Viana (1947), 23 de Julho de 2020, p. 7.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Saudades do teu sorriso


XV Domingo Comum - A
12 de Julho de 2020
Is 55, 10-11; Sal 64 (65); Rom 8, 18-23; Mt 13, 1-23

(uma publicidade de máscara de uma fábrica brasileira) 

            Sim, caro/a leitor/a, tenho saudades do teu sorriso que se esconde por trás da máscara que tu e eu, em gesto de prevenção, respeito e amor, usamos todos os dias. Não consigo ver os teus lábios, os teus trejeitos, as tuas bochechas pálidas ou vermelhas. Só me ficam os teus olhos para ler, e se é verdade que são as janelas da alma, falta-lhes a vizinha boca que faz do teu rosto um presente único e irrepetível no mundo. Mas eu sei que o teu sorriso está lá, como está o teu beicinho franzido ou dorido, e que um dia, se Deus quiser, vamos retirar de vez este boçal a que nos forçam a pandemia e a caridade. Sejamos pacientes. E cuidadosos.
            Felizmente, “a Palavra que sai da boca de Deus” (Is 55,11; 1ª leitura) não é escamoteada ou perturbada por nenhuma máscara. Em Deus não há fingimento. A Sua Palavra é “performativa”, como gostam de afirmar a filosofia e a teologia de hoje e que o Papa Bento XVI tão bem ensinou na Exortação Verbum Domini, 53: “na liturgia, vemo-nos colocados diante da Sua Palavra que realiza aquilo que diz. Quando se educa o Povo de Deus para descobrir o carácter performativo da Palavra de Deus na liturgia, ajudamo-lo também a perceber o agir de Deus na história da salvação e na vida pessoal de cada um dos seus membros”. Isto é, Deus age verdadeiramente e actualiza os acontecimentos proclamados pela voz do leitor na Eucaristia e na oração pessoal. É “a Ele que ouvimos, quando lemos os divinos oráculos» (Sto Ambrósio, De officiis ministrorum I, 20, 88: PL 16, 50). Deus afirma pela pena de Isaías que “como a chuva e a neve que descem do céu não voltam para lá sem terem regado a terra, assim a palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão» (Is 55,10). Mas então como é que não vemos os seus efeitos? Se não os vemos é porque temos tapados não só a boca, mas também os olhos e, sobretudo, os ouvidos, como acusa Jesus no Evangelho (Mt 13,15). Na verdade, a Palavra proclamada consola, cura, salva, instrui, perdoa, ensina e, quando não é acolhida, julga. Até quando é desprezada, a Palavra é efectiva e eficiente.
            Os quatro tipos de ouvintes da Palavra foram bem “esmiuçados” por Jesus na explicação da Parábola: o néscio que não entende nem procura entender a Palavra, o desenraizado ou superficial que não suporta as contrariedades, o materialista que dedica mais tempo a cuidar do corpo mortal que do espírito imortal e o sábio que “ouve e entende e dá fruto”. Compete a cada um de nós discernir em que grupo se encontra hoje. Porque a fidelidade à Palavra de Deus não se adquire para toda a vida nem é possível viver de rendimentos espirituais. Implica esforço e dedicação quotidiana. Foi assim que muitos santos acabaram degradados e muitos pecadores acabaram nos altares.
            Um desses heróis da Palavra, por estes dias profanado nas suas estátuas, foi o Padre António Vieira, imperador da língua portuguesa. No seu famoso e sempre digno de releitura “Sermão da Sexagésima” comenta a Parábola da semente, concluindo que a culpa da infertilidade da Palavra também pode estar do lado do… pregador. Se a semente é boa e o terreno também…
           
P. Pablo Lima

In Notícias de Viana (1945), 09 de Julho de 2020, p. 7.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Amou tanto, tanto que…

Solenidade da Santíssima Trindade 
07 de Junho de 2020 
Act 2, 1-11; Sal 103 (104); 1 Cor 12, 3b-7. 12-13; Jo 20, 19-23 
Trindade de Nicolò Semitecolo - pormenor(1370), Museu diocesano de Pádua 

    A revelação da comunhão trinitária é a marca distintiva da fé cristã. Não existe paralelo semelhante em nenhuma religião, antes ou depois do cristianismo. As religiões antigas – orientais, asiáticas, greco-romana, nórdica, pre-colombiana, etc – moviam-se no espectro do politeísmo, dentro do qual admitiam um deus superior que imperava sobre os outros deuses (mesmo a tríade hindu – Brahma, Vishnu, Shiva – é apenas uma hierarquia de poder dentro do panteão das divindades, mais próxima do henoteísmo). O judaísmo – que é contemporâneo do cristianismo – e o islão – que é posterior e devedor ao cristianismo – não reconheceram e rejeitaram a plenitude da revelação do Filho de Deus e mantiveram-se estrictamente no monoteísmo. As filosofias religiosas – como o budismo e a moderna new-age – são panteístas (não existe a divindade, tudo é divino). Por sua vez, Jesus Cristo revelou-nos que Deus são três pessoas distintas, Pai, Filho e Espírito Santo, mas um só Deus. E é a isto que chamamos monoteísmo trinitário. 
    O termo “trindade” não aparece na Bíblia. É resultado da reflexão teológica. Mas a vida, o discurso e a consciência de Jesus são trinitários: “Eu e o Pai somos Um”; “Eu vos enviarei o Espírito da Verdade”; “Ide e baptizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. E, na esteira de Jesus, depressa os apóstolos e São Paulo, particularmente, começaram a usar saudações trinitárias nas suas cartas, como aquela com que começa a Eucaristia e que é retirada da carta aos Coríntios (2 Cor 13,11-13): “a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco”. Conhecemos, pois, a Trindade porque aprouve a Deus abrir-nos a Sua divina intimidade. Quando começamos a frequentar uma casa, uma pessoa ou uma comunidade, pouco a pouco, na medida da abertura das pessoas, começamos a conhecê-las por dentro, na sua forma de viver, pensar e ser, na sua privacidade, na sua identidade profunda e única. Sabemos que Deus é Trindade, não porque o imperador Constantino e a Igreja o inventaram (como diz a vulgata dos pseudo-historiadores contemporâneos, testemunhas de Jeová e outros), mas porque “Deus amou tanto, tanto o mundo que lhe entregou o Seu Filho Unigénito” (Jo 3,16). Sabemos que Deus é Trindade porque Deus no-lo quis revelar pela vida e palavra de Jesus. Se assim não tivesse sido, nunca o saberíamos e pensaríamos ainda hoje que Deus, antes da criação do mundo, era solitário. 
    De forma irresponsável, é costume dizer-se em âmbito homilético, que “a Trindade é um mistério” e com isto pretende dizer-se que é incompreensível, inacessível e, em certa medida, irracional. Porém, “mistério” na Sagrada Escritura não significa o “arcano”, o insulto à razão. Na Bíblia, o “mistério” é o plano do amor de Deus que “foi mantido em silêncio por tempos eternos, mas agora foi manifestado” (Rm 16,25). “Mistério” na Bíblia significa uma realidade tão grande, como Deus, que ocuparemos toda a vida a meditá-la, a pensá-la, sem nunca a abrangermos. Na verdade, quem poderá conhecer “a largura, o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Cristo”? (Ef 3,18). 
    
    Nota artística: o óleo sobre madeira (64x69 cm) do qual acima apresentei apenas um pormenor do lado direito é uma das mais belas e invulgares representações da Trindade. Em primeiro lugar, o Espírito Santo columbomorfo surge sobre o ombro direito do Pai e não por cima d'Ele. Em segundo lugar, as feições do rosto do Pai são exactamente as mesmas do Filho, apenas com cabelo e barba compridas e umas rugas. Finalmente, o Pai não segura o filho no colo, em jeito de Pietà, como aparece algumas vezes, e a crucifixão do Filho surge sem a cruz... as mãos do Filho sobrepõem-se às do Pai que o segura e sustenta. É um gesto de uma ternura infinita, como se ambos estivessem cravados ao mesmo madeiro. Assim, a comunhão trinitária é representada em termos pictóricos, duma forma que ecoa na bula do Papa Francisco para o Ano da Misericórdia: "Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai" (Vultus misericordiae, 1)

P. Pablo Lima
In Notícias de Viana (1941), 04 de Junho de 2020, p. 7.



sexta-feira, 29 de maio de 2020

O vento de Deus


31 de Maio de 2020
Act 2, 1-11; Sal 103 (104); 1 Cor 12, 3b-7. 12-13; Jo 20, 19-23

 

          “Agora que acaba a Páscoa, vai começar a Páscoa” – ouvi há poucos dias. Foi um desabafo de um padre que preparava os círios pascais para benzer ou entronizar na Vigília e Domingo de Pentecostes. Fiquei comigo a pensar que os Apóstolos devem ter dito algo semelhante. De facto, a Igreja nasceu quando “acabou a Páscoa”, ou, ainda melhor, a Igreja nasceu no cumprimento e termo da Páscoa. Este ano, por (in)feliz coincidência, o culto e a acção pública da Igreja (re)começam no Domingo de Pentecostes, um pouco como nos tempos apostólicos. Sublinho acção “pública”, porque, em termos particulares, na oração, na caridade, no ensino e até nos sacramentos, a Igreja não parou (de crescer). Este ano, então, o Pentecostes tem um sabor especial.
          Em nenhum local do nosso país o Espírito Santo recebe um culto popular tão forte como nos Açores. Atribui-se à rainha Santa Isabel (e, indirectamente, a D. Dinis) o rito no qual um pobre era coroado por um dia. A sabedoria e sensibilidade franciscanas encontraram na devoção da rainha uma oportunidade para espalhar o culto do Espírito Santo, que em toda a Europa se encontrava em declínio. Enquanto primeiros evangelizadores do arquipélago (séc. XV), longe do poder real e eclesiástico, os frades adaptaram as ideias milenaristas de Joaquim de Fiore, monge cisterciense do séc. XII, segundo o qual após o Império do Pai (o Antigo Testamento) e o Império do Filho (do Novo Testamento até ao fim do primeiro milénio), teria chegado o Império do Espírito Santo. “Império” foi o nome dado às capelas ou oratórios onde se conserva a bandeira do Espírito Santo, a coroa e o ceptro que passam de família em família, desde o Domingo de Páscoa até ao Pentecostes. “Imperador” é o mordomo da festa anual ou daquela semana, normalmente uma criança… O pároco benze, incensa e impõe a coroa e o ceptro (somos desde o Baptismo um povo, sacerdotes, profetas e reis), enquanto se canta o Veni, Creator Spiritus. E a festa termina com um banquete, o bodo, para alegrar os mais necessitados, no dia de Pentecostes.
          Sem o Espírito de Deus, deixamos de respirar. Etimologicamente, spiritus (em latim, masculino), pneuma (em grego, neutro) ou ruah (em hebraico, feminino) significa vento. Precisamos do Espírito em cada respiro da nossa vida humana e cristã. O ar que respiramos, atravessa a nossa laringe e aparelho fonador e transforma-se em som, em voz. Sem o Espírito, nem sequer conseguimos falar, nem mal nem bem. Curiosamente, o Pentecostes joanino (bem diferente do Pentecostes lucano da primeira leitura) afirma que “Jesus soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes, serão perdoados” (Jo 20,22-23). Ainda hoje o bispo consagrante sopra o óleo do santo Crisma que será depois usado no baptismo, na confirmação e na ordem. E antes da consagração, o presbítero impõe as mãos sobre o pão e o vinho. Esta oração é tão importante que, sem ela, não haveria consagração. E, durante séculos, os ortodoxos acusaram os católicos de não celebrar validamente a Eucaristia porque, no cânone romano, a menção ao Espírito Santo é implícita e não explicita. Por outras palavras, é o Espírito o garante e o agente da acção da Igreja: Ele reina e impera na pregação da Igreja, no Perdão, no Baptismo, na Eucaristia, em cada sacramento e palavra da nossa vida. Que seria de nós sem o vento de Deus?

P. Pablo Lima

In Notícias de Viana (1940), 28 de Maio de 2020, p. 7.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Ir embora, mas sem ir embora


24 de Maio de 2020
Act 1, 1-11; Sal 46 (47); Ef 1, 17-23; Mt 28, 16-20

A Transfiguração, Rafaello Sanzio, 1518-1520, Pinacoteca Vaticana, óleo sobre tela 405x278cm

Em Portugal, celebramos a Ascensão do Senhor ao Domingo porque o dia próprio (a quinta-feira da sexta semana) não é feriado. Noutras países, como a Itália, França (a laicíssima França tem mais feriados religiosos do que o catolicissímo Portugal), Alemanha, Bélgica, Áustria, etc. No nosso país, é feriado municipal em vários concelhos, sobretudo do centro e sul: Alter do Chão (Portalegre), Alvito (Beja), Anadia (Aveiro), Ansião (Leiria), Alcanena, Almeirim, Cartaxo, Golega, Chamusca (Santarém), Estremoz (Évora), Alenquer, Azambuja (Lisboa), etc. Na nossa diocese, em anos normais, a quinta-feira da Ascensão marcaria o início da Festa de Nossa Senhora do Castelo, com a procissão nocturna que antecede a caminhada ao Monte, no Domingo.
Durante os vários discursos do adeus que se encontram sobretudo na Última Ceia (Jo 13-17) e dos quais lemos um trecho no Domingo passado, Jesus foi preparando os apóstolos (e todos nós) para esta nova fase da comunidade cristã. Jesus está connosco, mas não está. Foi embora, mas não foi. Isto é, visível e sensivelmente Jesus não está no nosso meio, senão através dos sinais litúrgicos e da presença sacramental (inclusive e sobretudo o sacramento do irmão necessitado, o “oitavo sacramento”). Por isso, não podemos ficar a olhar para o céu, como branda mas firmemente increpam os anjos, os “dois homens vestidos de branco”: “Homens da Galileia, porque estais a olhar…?”. Chamam-lhes “homens da Galileia”. Não se trata apenas de uma indicação de proveniência geográfica ou sociológica. “Homens da Galileia” são os amigos do “Galileu” (Mt 26,29); portanto, aqueles que devem comportar-se conforme aquilo que com Ele aprenderam na Galileia. Aliás, Jesus tinha-lhes ordenado voltar para a Galileia, como o início do Evangelho tão bem refere no seu incipit deste Domingo (Mt 28,18).
Por vezes, a nossa acção pastoral e as nossas reacções diante da vida e dos problemas fazem pensar que Jesus foi mesmo embora, ou pelo menos, assim pensamos ou nos comportamos. Agimos como se a vida do mundo ou da Igreja dependessem de nós e temos pouco em conta o essencial daquilo que o Senhor nos ordenou. Preocupamo-nos em manter as mesmas estruturas de sempre, somos saudosistas, pouco criativos, temos medo do futuro e da mudança. E, entretanto, o mundo não pára e vemos o comboio a passar. Nós vivemos na expectativa do regresso de Cristo, da sua Parusia. Mas vivemos tantas vezes ancorados na Idade Média ou em Trento. Fixamo-nos na segunda parte do mandamento de Cristo “baptizando”, mas esquecemos a primeira e a terceira que dizem exactamente o mesmo: “ide e ensinai todas as nações (…) ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei”. Em São Mateus, estas são as últimas palavras de Jesus sobre a terra. Portanto, ensinar antes e depois. E a preciosíssima e pacificadora última linha do evangelho é: “Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28,20).

P. Pablo Lima

In Notícias de Viana (1939), 21 de Maio de 2020, p. 7.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

O Ilustre Desconhecido


17 de Maio de 2020
Act 8,5-8.14-17; Sal 65 (66); 1 Pd 3,15-18; Jo 14,15-21

A expressão é de São Paulo VI. Referindo-se à redescoberta da presença e centralidade da acção do Espírito Santo na vida da Igreja, na sequência do Concílio Vaticano II, afirmou que “vivemos um tempo privilegiado do Espírito” (EN 75). No entanto, em termos gerais, afirmava o santo fundador da nossa diocese, “o Espírito Santo é o Ilustre Desconhecido dos cristãos”.
A sua acção é discreta; no entanto, toda a intervenção de Deus no mundo e tudo na vida da Igreja ocorre hoje pela acção do Espírito Santo. Deus Pai e Jesus Cristo agem sempre através do Espírito Santo. De facto, Jesus é Cristo, isto é, Messias, ou seja, Ungido pelo Espírito Santo. Por isso, com palavras lindíssimas, Santo Ireneu[1] se refere ao Verbo e ao Espírito Santo como sendo “as mãos de Deus”. Mas a liturgia ensina que o Espírito Santo é digitus paternae dexterae[2], isto é, o dedo da mão direita do Pai. Esse mesmo dedo que, delicadamente, toca o dedo de Adão na Capela Sistina.
É por isso que, ao despedir-se, Jesus confia os Apóstolos à guarda e inspiração do Espírito Santo. No longo “testamento de Jesus” (Jo 13-17), ditado na última ceia, promete nada mais e nada menos do que cinco vezes o envio do Espírito Santo. Neste Domingo, escutamos a primeira dessas promessas (Jo 14,15-21). Assim, estas duas últimas semanas de Páscoa são como que um “advento do Pentecostes”. São um tempo pedagógico que a liturgia nos concede para intensificar a nossa oração e a nossa consciência, a nossa invocação de vinda ao Espírito de Deus. Este ano, a solene vigília do Espírito Santo terá um sabor especial porque será a noite da reabertura das nossas Igrejas à Eucaristia comunitária. Não será oportuno, então, enriquecer essa noite com uma Liturgia da Palavra mais rica (o leccionário oferece três alternativas à primeira leitura…), com duas leituras do Antigo Testamento, a Epístola e o Evangelho? E, antes do Aleluia, entronizar solenemente (e, porventura, benzer com uma parte do Precónio) o Círio Pascal?
Jesus chama ao Espírito Santo “Paráclito”. Lamentavelmente traduz-se por vezes “paráclito” por advogado, mas esta é uma opção infeliz. No tempo de Jesus, esta função não existia e o “paráclito” não era apenas uma figura jurídica de auxílio ou defesa. O termo vem do verbo grego kaléo, “chamar” e do prefixo pará, “ao lado”. Portanto, trata-se de “chamar para o lado”, chamar para junto de si. O Espírito Santo é Aquele que acompanha, que se senta ao lado, que ajuda, que consola (etimologicamente vem de cum-solis, aquele que visita o que está só). Mas Jesus diz mais: esclarece que se trata de “outro Paráclito”, porque o primeiro Paráclito é ele mesmo (1 Jo 2,1). Portanto o Espírito Santo faz hoje para nós aquilo que Jesus fez para os Apóstolos. De facto, é Ele quem torna presente Deus neste mundo. É Ele quem eucaristiza o pão e o vinho. Precisamente, chama-se eplicese a oração de abertura da consagração, acompanhada das mãos estendidas sobre os dons do Altar. Vem de Epi+kaléo: chamar para cima, in-vocar, pedir que venha sobre… nós, a humanidade, a Igreja. “Não vos deixarei órfãos”, diz Jesus, “voltarei”.

P. Pablo Lima

In Notícias de Viana (1938), 14 de Maio de 2020, p. 7.


[1] Santo Ireneu, Demonstratio Predicationis Apostolicae 11: SC 62,48-49.
[2] Hino das II Vésperas do Pentecostes.