domingo, 28 de novembro de 2010

1.º Domingo de Advento - A


1.º Domingo do Advento – A
Serreleis, 28 de Novembro de 2010

            O Advento não é para preparar o Natal mas sim o Regresso (a constante e a última vinda que o Novo Testamento e a Igreja chamam Parusia) de Cristo. E a Solenidade do Natal é a celebração dessa vinda intensa de Deus até nós na história – tão intensa que se fez homem – e uma palavra de encorajamento que nos recorda que, assim como os hebreus esperavam a vinda do Messias e Ele veio mesmo, assim nós esperamos o Seu regresso e Ele virá mesmo. Meditemos as palavras do Prefácio de hoje (I): «Ele veio a primeira vez, na humildade da natureza humana […] de novo há-de vir, no esplendor da sua glória, para nos dar em plenitude, os bens prometidos que, entretanto, vigilantes na fé, ousamos esperar».
Este é um tema profundamente esquecido na pregação e na espiritualidade cristã: esperar o regresso de Cristo. De facto, quem de nós está em constante ânsia de ver «o Filho do Homem regressar por entre as nuvens do Céu»? (Mc 13,26). E, no entanto, toda a liturgia está empapada desta prece apocalíptica (22,20): Maranathá! Vem, Senhor Jesus! E este era o principal «objecto» ou conteúdo da oração dos cristãos dos primeiros tempos (pode ler-se na oração eucarística da Didaqué dos Apóstolos (X,6): «Que a tua graça venha e este mundo passe. Hossana ao Deus de David. Venha quem é fiel, converta-se quem é infiel. Maranathá. Ámen»). Ainda hoje nós rezamos quotidianamente «venha a nós vosso reino» (Mt 6,10), e em cada Eucaristia: «Vinde, Senhor Jesus» e, agora com a aclamação própria para o Advento, «Quando comemos deste pão […] anunciamos […] esperando a vossa vinda gloriosa».
Porém sabemos que o regresso de Cristo não poderá acontecer até que «tudo lhe esteja submetido» (1 Cor 15,25) e temos assim uma longa missão por diante, levando nós tudo e todos para Cristo e levando Cristo tudo e todos para o Pai. Ou seja, a nossa espera não é uma espera passiva, como a daquele que, na paragem, aguarda o autocarro mas nada pode fazer para acelerar a sua chegada e, quanto mais espera, desespera. Pelo contrário, a nossa é uma espera activa porque, com as nossas acções e a nossa oração, aproximamos a hora e vamos caminhando para Ele de modo que o ponto de encontro seja mais perto e a hora ocorra mais cedo.
Curiosamente, se o Advento fosse apenas para esperar – mas não preparar – a Sua vinda e não para caminharmos nós também ao encontro, como poderíamos compreender os constantes «Vinde, ó casa de Jacob, caminhemos à luz do Senhor» (Is 2,5); «Vamos com alegria para a casa do Senhor» (Sl 121,1) e «Andemos[1] dignamente, como convém em pleno dia» (Rm 13,13) que a liturgia nos dirige neste 1.º Domingo do Advento, do Ano e do Ciclo Litúrgico? A Oração Colecta de hoje diz mesmo: «Despertai, Senhor, nos vossos fiéis a vontade firme de se prepararem, pela prática das boas obras, para ir ao encontro de Cristo…»[2]

Interessa pois viver nesta consciência de estar a caminho do encontro com Cristo em cada minuto e em cada dia da nossa vida. Até porque, de facto, em cada momento estamos mais perto do encontro definitivo com Jesus na hora da morte: «chegou a hora de nos levantarmos do sono porque a salvação está agora mais perto de nós do que quando abraçámos a fé»[3] (Rm 13,11). E não podemos andar distraídos! Jesus increpa os discípulos ao dizer-lhes «como aconteceu nos dias de Noé, assim sucederá na vinda do Filho do homem. Nos dias que precederam o dilúvio, comiam e bebiam, casavam e davam em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca; e não deram por nada, até que veio o dilúvio que a todos levou» (Mt 24,38). Assim o que Jesus critica não é que «comiam e bebiam, casavam e davam em casamento» porque esta foi, é e será efectivamente a dinâmica da humanidade até ao regresso de Cristo. O mal está em que os contemporâneos de Noé (e nós…?!) não deram por nada! tão distraídos andavam. O dilúvio: assim é para nós a acção do tempo que tudo leva. Logo, não podemos estar desatentos, o tempo não volta atrás. A celebração do Natal que se aproxima adverte-nos: Deus já cumpriu uma vez a Sua promessa. Deus não faltará desta vez… Ele voltará. «Não demorará a fazer justiça aos seus servos que dia e noite clamam por Ele» (Lc 18,7-8).
«…“Sentinela, que vês na noite?” E a sentinela responde: “Chega a manhã…”» (Is 21,11-12)


[1] O sentido do verbo grego que usa São Paulo é «comportemo-nos». Porém, a Vulgata latina na qual se baseia o Leccionário utiliza o «ambulemus», verbo com sentido de movimento, vulgarmente traduzido por «andemos» ou «caminhemos».
[2] E continua: «de modo que, chamados um dia à sua direita, mereçam alcançar o reino dos Céus. Por NSJC».
[3] Parece que strictu sensu a afirmação paulina tem a ver com a convicção pessoal do regresso iminente de Cristo que Paulo abraçava. Cfr. 1 Cor 15,23.

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