domingo, 5 de dezembro de 2010

2.º Domingo do Advento – A

2.º Domingo do Advento – A
Fátima, 05 de Dezembro de 2010

Isaías e João Baptista são os dois precursores por excelência do Messias.
Isaías – figura incontornável do Antigo Testamento – é aquele que vê o mundo com os olhos de Deus; na verdade, «profetizar» não é «ter visões» mas ajuizar ou antever o futuro através dos sinais do presente e com a benevolência de Deus. Por isso, ele profetizará a ruína de Israel pelos seus pecados (isto é, é capaz de antever as consequências da maldade do povo como se pode prever a ruína de um edifício cujos alicerces estão podres, é questão de esperar…) e a sua libertação através da mão poderosa de Deus que levará o universo à felicidade tal como Ele o desejara no princípio. Ao constatar a desarmonia e a violência das relações humanas para com a natureza e uns para com os outros, Isaías julga e afirma que Deus levará a bom termo o seu projecto sobre o cosmos: «o lobo viverá com o cordeiro […] a criança de leite brincará junto ao ninho da cobra […] não mais praticarão o mal nem a destruição» (11, 6.8.9). Em poucas palavras (quando vier o Messias), «nos dias do Senhor nascerá a justiça e a paz para sempre» (Sl 71,2).
João Baptista é uma figura misteriosa, quase contraditória. A sua linguagem dura («raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? […] o machado já está posto à raiz das árvores […] a palha será lançada no fogo que não se apaga» - Mt 3, 7.10.12) e a sua aparência rude («tinha uma veste tecida com pêlos de camelo […] o seu alimento eram gafanhotos» -Mt 3,4) é típica dos profetas apocalípticos do Antigo Testamento. Mas ele não pertence já ao Antigo Testamento mas ainda não é plenamente um apóstolo do Novo Testamento (é chamado por alguns biblistas como uma figura do Inter-testamento mesmo se aparece nos textos do N.T.). De facto, até a sua visão sobre o Messias terá de ser submetida à purificação e a prova que atravessou a sua fé e a sua visão de Deus e do seu Cristo ficará evidente no evangelho do próximo Domingo onde Ele pergunta a Jesus: «és Tu aquele que estava para vir ou devemos esperar outro…?» (Mt 11,2). Então… quem é este homem de quem Jesus disse «dentre os filhos de mulher não há outro maior que João Baptista» (Mt 11,11)?
João Baptista é «a voz que clama no deserto» (esta citação de Isaías 40,3 é-lhe aplicada por Mateus). É aquele que «prepara o caminho do Senhor»; é aquele que se considera «indigno de desatar as sandálias ao que vem depois de mim». E é belo compreender a missão e a vida de João Baptista da forma como o faz Santo Agostinho. Ele escreve que «João Baptista era a voz mas a Palavra é o Senhor […] quando o som da voz faz chegar o sentido da palavra, esse mesmo som desaparece»[1]. Refere-se à afirmação de João «convém que Ele [Cristo] cresça e eu diminua».
Recordando a meditação do Domingo passado de que «o Advento não é para preparar o Natal mas sim o Regresso de Cristo», a proposta de meditação litúrgica de Isaías e João Baptista, é para fazer de nós precursores de Cristo, isto é, aqueles que preparam os seus caminhos. Porém, aprendamos a coerência dos profetas, a coerência de João: não podemos contradizer com a vida aquilo que professam nossos lábios. Antes de atrair as multidões ao baptismo no deserto, João foi viver para o deserto; antes de exortar ao arrependimento e à confissão dos pecados e o baptismo, João fez vida de penitência e conversão. Esta é a forma mais correcta de ser precursores do Messias: vivendo aquilo que as nossas palavras anunciam. Não nos compete usurpar o lugar de importância, o lugar cimeiro pois sabemos que somos a voz mas não a Palavra pois só Jesus Cristo é a Palavra.



[1] Sermo 293,3; PL 1328-1329; LH I, 234.

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