terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Solenidade da Imaculada Conceição

Solenidade da Imaculada Conceição
Serreleis, 08 de Dezembro de 2010

Talvez possamos compreender melhor o sentido da Carta aos Efésios que hoje escutamos (1,3-6.11-12) se a traduzirmos desta maneira: «Deus escolheu-nos em Cristo, antes da criação do mundo, para sermos santos e imaculados, em caridade, na sua presença». Isto é, a razão celebrativa que hoje nos reúne, a beleza da alma de Maria, que não cometeu pecado algum e que nasceu sem pecado original, trata-se da nossa vocação final que Ela, por graça de Deus, viveu desde a sua concepção.
Nós nascemos marcados pelo pecado original, pela história de pecado da humanidade da qual fazemos parte e que herdámos de nossos pais e ascendentes, cujo relato de forma simbólica escutámos a partir do livro do Génesis (3,9-15.20): no princípio, os seres humanos, aqui chamados por Adão e Eva, tiveram a liberdade e a possibilidade – como nós temos hoje – de dizer «não» a Deus e fizeram-no com prejuízo de si mesmos e dos seus descendentes. Por outras palavras, a humanidade vezes sem conta negou a Deus e preferiu a mentira, a violência e todo o tipo de maldade e nós sofremos as consequências desse mal e de todos os males que trazemos em nós como uma mancha. Porém, pelo Baptismo, somos libertos do pecado original, ficando em nós «as feridas desse mesmo pecado» (Oração Post-Communio): a inclinação para o mal.
Mas a vontade de Deus era outra. Era que vivêssemos imaculados, que o mesmo é dizer sem mancha de infelicidade, de ódio, de egoísmo e de tristeza. E aquilo que a humanidade recusou por vontade própria nos princípios da história, Deus o realizou em Maria «em atenção aos méritos futuros da morte de Cristo» (Oração Colecta) e, preparando assim, «uma digna morada para o Vosso Filho». Isto é, o Filho de Deus, o Santo dos Santos, não podia nascer habitado pelo pecado como nós. E, por isso, Deus preserva Maria do pecado e prepara-a para ser a Mãe de Cristo.
O mais belo é que o dom de Deus – a Imaculada Conceição de Maria – em nada toldou a sua liberdade: a narração de Lucas confirma a participação consciente, voluntária e corajosa de Maria. «Como será possível?» (1,34) - ela questiona, ela interpela, ela quer dar uma resposta adulta. E diante das palavras confiantes do Anjo, afirma: «eis a escrava do Senhor, faça-se» (1,38).
Assim devíamos ser nós, a toda a hora devia sair da nossa boca: «eis o servo do Senhor, faça-se em mim segundo a sua Palavra». Por isso, diz São Paulo que a nossa vocação é «ser santos e irrepreensíveis» na presença de Deus. Os Santos Padres, fazendo um jogo de palavras diziam que, enquanto a primeira mulher mereceu ser chamada «Eva», Maria merece ser chamada da mesma forma mas exactamente ao contrário: «Ave». Porque aquilo que Eva nos perdeu, Maria no-lo alcançou novamente.
Ela é pois, pela sua Imaculada Conceição, «Mãe de Cristo», «início da Igreja» e «advogada de graça e modelo de santidade» - como iremos rezar dentro em breve no Prefácio. Ela continua a interceder por nós e está connosco nesta e em todas as Eucaristias. Numa interpretação metafórica de grande beleza, o antigo Missal bracarense identificava a patena que segura a hóstia para a consagração como um símbolo de Maria porque ela continua ainda hoje a sustentar o Corpo de Cristo que é a Igreja e a apresentá-lo ao Pai.

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