domingo, 19 de dezembro de 2010

4.º Domingo do Advento – A

4.º Domingo do Advento – A
Serreleis, 19 de Dezembro de 2010

            A liturgia deste Domingo utiliza como oração Colecta aquela que é também da Festa de Nª Sª do Rosário e é, ao mesmo tempo, a oração conclusiva do Angelus (O Anjo do Senhor anunciou a Maria…). E não é irrelevante notar isto porque normalmente associamos a Anunciação à «visita do Anjo do Senhor a Maria» (o anjo Gabriel, segundo Lucas 1,26). Mas aqui trata-se da aparição do anjo… a José. Na verdade, Mt e Lc contam episódios diferentes como se cada um desse por pressuposto o que narra o outro (Mt supõe que o leitor sabe como é que Maria se encontrara grávida e como reagiu a tal missão; Lc supõe que o leitor saiba e não estranhe a reacção de José diante do mesmo facto). Ora, mesmo se o evangelho e a liturgia dedicam um lugar muito discreto a José, no entanto, ele é hoje a figura precursora de Cristo.
            «Homem justo» - chama-lhe Mateus (1,19); isto significa homem «santo e misericordioso», homem segundo o coração de Deus porque d’Ele diz-se infinitas vezes na Bíblia que é um «Deus justo» (Is 45,21; 1 Jo 1,9). E, na sua justiça e amor por Maria, diante deste acontecimento dúbio da sua noiva estar grávida, decide arcar ele com a responsabilidade e a má fama e, repudiando-a em segredo, poupar-lhe a vida (o crime de adultério era punido com a delapidação – Dt 22,23-24: «Quando uma donzela, ainda virgem, mas já noiva, for encontrada na cidade com um homem que durma com ela, levareis os dois à porta dessa cidade e apedrejá-los-eis até que morram: a donzela, por não ter pedido socorro na cidade, e o homem, por ter abusado da noiva do seu próximo. Assim extirparás o mal do teu meio»). E, enquanto vivia este drama, «apareceu-lhe em sonhos o anjo do Senhor» (Mt 1,20) que o introduz no mistério e no plano de Deus.
As palavras que o Anjo diz a José são uma paráfrase do texto de Is 7,14 que o próprio evangelista também cita acrescentando apenas a explicação para o leitor que não compreende o hebraico de que «Emanuel significa Deus connosco» (Mt 1,24). Assim dizem o Anjo a José e Isaías ao rei Acaz: «José, filho de David // Escuta, casa de David». Com estas palavras, José deve ter ficado surpreendido e chocado: o seu pai não se chamava David mas Jacob (Mt 1,16) e, no entanto, David era seu ascendente: José era da Tribo de Judá, mais tarde conhecida e chamada simplesmente como Casa de David por o rei David ter sido o mais importante descendente de Judá e aquele a quem foi prometido que um seu descendente se sentaria no seu trono para sempre (2 Sm 7). Estas palavras devem ter recordado a José que todo homem da tribo de Judá ansiava por um dia ser o pai do Messias. A ele – José – que não contava com tal coisa e muito menos nestas circunstâncias, é revelado que é o escolhido de Deus para custódio do Filho de Deus. E o anjo prossegue: «não temas receber Maria, tua esposa // o Senhor vos dará um sinal»; «porque o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo // a Virgem conceberá»; «ela dará a luz um filho // e dará a luz um filho»; «e tu pôr-lhe-ás o nome de Jesus // o seu nome será Emanuel».
Desta forma, Jesus é plenamente ser humano: ele nasce da Virgem Maria, dela recebe o seu corpo e sangue, o seu adn. «Segundo a carne, é da descendência de David» - como ouvimos na 2ª leitura (Rm 1,2) Maria era já esposa (noiva diríamos nós mas o casamento judaico processa-se em etapas diversas e Maria era já sua esposa mesmo sem habitar ainda com ele; assim sendo, mesmo legalmente, Jesus é membro da tribo de Judá porque Maria estava casada com um membro da casa de David; podemos até hipotetizar mas sem verdadeira importância para o caso que até Maria fosse descendente de David). Plenamente humano como nós e, ao mesmo tempo, plenamente divino porque a sua geração carnal não tem intervenção de homem mas é «por virtude do Espírito Santo» (Mt 1,18). Esta condição humana e divina de Jesus, que no Credo fica expressa nas palavras «Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado (mas) não criado», esta condição de absoluta igualdade e absoluta diferença de Jesus para connosco, é insinuada várias vezes pelo mesmo Cristo no Evangelho. Lembrai-vos das palavras com que terminava o elogio de Cristo a João Baptista no Domingo passado: «entre os filhos de mulher não há maior que João Baptista (=não há ser humano mais santo que João Baptista) mas o mais pequeno no Reino de Deus é maior do que Ele» (Mt 11,11). Quem é o «mais pequeno» no Reino dos Céus…? Quem foi Aquele que se ajoelhou diante dos discípulos para lhes lavar os pés (Jo 13,12-14); quem foi Aquele que disse «eu não vim para ser servido mas para servir» (Mt 20,28); quem foi o que proclamou «quem quiser ser o primeiro, será o último e o escravo de todos» (Mc 9,25)?
Sim, Jesus deu a entender que Ele era mais do que um profeta; Ele é o próprio Filho de Deus, o próprio Deus, Emanuel, Deus connosco. Este é o grande mistério do Natal: Deus vem ao encontro da humanidade e fica no meio de nós. «Não foi» Emanuel; é Emanuel! Uma vez feito homem permanece connosco para sempre, de forma espiritual mas absolutamente real; de forma sacramental e total na Eucaristia. Escutámos de São Paulo: «segundo o Espírito que santifica, (foi) constituído Filho de Deus em todo o seu poder pela ressurreição de entre os mortos: Ele é Jesus Cristo, nosso Senhor» (Rm 1,4). Reparai bem no nome que o anjo manda a José dar ao menino: Jesus! Este nome significa «Deus salva» e, mesmo se o Anjo explica que isso é porque «Ele salvará o povo dos seus pecados» (Mt 1,21), a salvação é tudo isso e muito mais! Pensai bem que proclamamo-lo todos os Domingos no Credo, e até inclinamos a cabeça: «por nós homens e para nossa salvação, desceu dos céus e encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e se fez homem». Salvação significa alegria, saúde do corpo e da alma, felicidade, perdão dos pecados, vida eterna, santidade.
Tudo isso nos veio trazer Deus connosco, tudo isso é o mistério do Natal. Tudo isso se renova em cada Eucaristia. Rezá-lo-emos dentro de momentos, ao pedir que «o mesmo Espírito que fecundou o seio da Virgem Santa Maria, santifique os dons que trazemos ao Vosso altar» (Oração sobre as Oblatas). Ele é o Deus connosco, ainda hoje, com o Seu Corpo e Sangue que comungamos.

1 comentário:

  1. Muito obrigada, acabei de ler:)e não podia de deixar de comentar que, em certos pontos ajudaram-me a esclarecer algumas duvidas, tal como, "Jesus" significa «Deus salva» e da beleza que as leituras contêem, e nós cristãos muitas vezes não nos apercebemos.

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