Solenidade do Natal do Senhor – A
Missa da Aurora
Serreleis, 25 de Dezembro de 2010
Os trechos da palavra de Deus que acabámos de escutar, convidam-nos à imitação das testemunhas do nascimento do Salvador. Os relatos não são já os que se referem ao nascimento (como na Missa da Noite) mas sim os que se sucedem imediatamente após o anúncio e o canto dos anjos, isto é, a adoração dos pastores.
Destas figuras deve surpreender-nos não um certo carácter poético-bucólico da sua vida e trabalho mas sim a sua condição de marginais. Na verdade, os pastores eram pessoas que viviam na fronteira da urbanidade e da religião. Não tendo pastos próprios nem terras pessoais, estavam condenados à errância: é como se a promessa da Terra nunca se tivesse concretizado para eles e, por isso, viviam de região em região, à procura de alimento para os seus rebanhos e apenas se aproximavam das vilas e cidades para vender os seus produtos ou o seu gado. Por outras palavras, eram os «rurais» em oposição aos «urbanos». Isto tinha uma outra consequência muito séria de carácter religioso: viviam à margem da liturgia de Israel, tanto a do Templo como a da sinagoga. E, no entanto, foi essa sua condição de «excluídos» que os tornou «incluídos» no quadro de Natal. Pois é certo que, de noite, só eles estariam em vigília, a cuidar das suas ovelhas e demais animais. Desta forma, a predilecção futura (e eterna) do Filho de Deus pelos mais pobres, pelos menos privilegiados manifesta-se desde o berço, ou melhor, desde a manjedoura pois até nisto se identificou com a vida dos pastores. Reparai bem no sinal que lhes dá o Anjo: «encontrareis um menino recém-nascido; envolto em panos e deitado numa manjedoura» (Lc 1, 12) e assim O acharam (v.16), rodeado por Maria e José. Cabe-nos perguntar, se o Anjo lhes tivesse dito «encontrá-lo-eis num berço de ouro, numa casa de luxo, envolto em ricos tecidos…» teriam sido eles capazes de O reconhecer? Só os pastores realizam sub contrario a triste constatação do prólogo joanino: «a luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam […] veio ao que era seu mas os seus não O receberam. Mas àqueles que O receberam e acreditaram n’Ele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus» (1,5; 11-12).
Assim como depois, na Ressurreição, serão as pessoas menos consideradas a inaugurar o anúncio de Cristo Pascal, isto é, as mulheres, também aqui, muito tempo antes, são os menos considerados, os pastores, a inaugurar o anúncio de Deus connosco. «Quando o viram, começaram a contar o que lhes tinham anunciado sobre aquele Menino. E todos os que ouviam admiravam-se do que os pastores diziam. […] Os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes tinha sido anunciado» (Lc 2,17-18.20). A quem anunciaram…? A Maria e José? Apesar de que o v. 19 diz que Ela «guardava todos estes acontecimentos, meditando-as em seu coração», o texto sugere-nos que eles anunciaram a outros que não apenas à Mãe e o Custódio do Salvador. Numa analogia talvez um pouco pobre, não posso deixar aqui de recordar quando alguém vai visitar um recém-nascido e, já na sua casa mas ainda mais cá fora, conta a todos o que viu: tens os olhos do pai, tem os lábios da mãe, tem as orelhas do avó, tem o sorriso da avó…». E o que terão dito os pastores? Segundo Lucas, «o que tinham visto e ouvido, como lhes tinha sido anunciado». E o que foi isso? «Uma grande alegria […], um Salvador, Cristo Senhor […], um Menino recém-nascido» (2,11-12). Por outras palavras, vimos Deus numa criança!
E é isso que os pastores disseram e nós também vamos dizer aos outros! «Vimos uma criança que tem o coração de Deus; vimos um Menino que tem no rosto a misericórdia e a ternura do Pai do Céu; vimos os sinais da força e poder do Criador no corpo frágil e mortal de um bebé; vimos um Pequeníssimo que tem o sorriso do Altíssimo».
É por tudo isso que estamos aqui, para beijar esse Menino-Deus na comunhão da Sagrada Eucaristia.
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