Festa da Sagrada Família – A
Serreleis, 26 de Dezembro de 2010
Como quem, em atitude reverente, depois de beijar os pés do Menino na manjedoura, se retira, recuando mas sem desviar o olhar, chegamos a um ponto em que vemos não só Aquele que está no centro do quadro, Jesus, mas também aqueles que o rodeiam, Maria e José. E isso é a Festa da Sagrada Família: olhar para o quadro completo que formam os pais (Lc 2,27) e o Menino. É claro que esta liturgia quer ensinar-nos não apenas a condição humana de Jesus que viveu o ambiente familiar e o santificou mas, também e sobretudo, ensinar-nos como, à imitação de José, Maria e Jesus, devem ser as famílias que hoje querem ser «cristãs».
O evangelho narra-nos (Mt 2,13-15.19-23) a fuga para o Egipto como gesto necessário para salvar a vida do Menino. José não hesita, «avisado em sonhos» (v.13), «levantou-se ainda de noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egipto». Há uma atitude de protecção paternal em relação a tudo e todos os que põem em risco a sua família e ainda assim devem ser – e porventura ainda mais hoje – os pais, pais e mães: em tudo proteger a vida dos filhos.
O que significará para um pai ou mãe de hoje «tomar o Menino [e seu cônjuge] e partir»? É evidente que hoje a sociedade e a Igreja estão em crise porque a família está em crise, porque se perdeu o senso comum mínimo da vida em família. E há valores sagrados que é preciso defender a todo o preço a bem do santuário familiar: a presença, a ajuda/respeito e a oração.
Os pais devem estar presentes no crescimento dos filhos e os filhos no desenvolvimento da vida familiar. Resulta estranho e lamentável quando os pais descarregam sobre as mães certos «deveres» relacionados com a escola, a catequese e a Igreja porque é como se dissessem aos filhos: «isso é coisa de mulheres, de crianças… quando cresceres, podes abandonar tudo isso». O Domingo é o dia para a família estar unida; logo, não é dia para os pais irem trabalhar nem é dia para os filhos ficarem na cama até ao fim da tarde porque estiveram na discoteca até às seis da manhã (uma vez não são vezes…).
Os pais e os filhos devem respeitar-se. Não discutam nunca diante dos filhos, façam-no em privado. Os pais não devem questionar a autoridade civil, escolar, nem os catequistas ou os sacerdotes diante dos filhos porque assim lhes ensinam que nem eles mesmo – pais – merecem respeito, porque tudo é relativo à opinião pessoal. Quando os filhos forem adultos, discernirão o bem do mal. Mas até lá, sejam os pais um exemplo e não causa de desorientação. Os pais não são outros «colegas» dos filhos, muito menos seus «escravos» ou «financiadores»; os filhos devem colaborar em casa, precisam ser carinhosos e respeitadores com os pais, devem estar com eles e não querer estar sempre fora: dias virão – e é bom que cheguem – que irão para fora de vez para constituir a sua própria família e auto-sustentar-se. E recorde cada um/a as palavras da Escritura que hoje escutamos: «a caridade para com o/s pai/s, servirá de desconto dos teus pecados» (Eclo 3,17). Ninguém se ria da miséria ou da fragilidade dos pais, antes cuide-os «quando a sua mente enfraquece» (3,15).
Finalmente, a oração em família não é para abandonar quando os filhos entram na catequese. A Missa em família não é negociável do género «se quiseres vais, se não, não faz mal» porque isso significa ensinar que a Palavra de Deus não vale nada, é uma banalidade dispensável e é o mesmo que dizer «se quiseres respeitar-me, respeitas; se não, não faz mal». A oração em família todos os dias não é um luxo, é a única garantia de fidelidade na fé; caso contrário, estais a educar os ateus do amanhã. Já vo-lo disse em algumas reuniões de pais, que receio que alguns dos vossos netos não cheguem a ser baptizados por vossa responsabilidade. Porque recebestes o tesouro da fé e aos vossos filhos apenas entregastes migalhas e estais à espera que eles doem aquilo que nunca tiveram!
Escutámos de São Paulo (Col 3,16) e repetimo-lo no versículo do Aleluia: «habite em vós com abundância a palavra de Cristo». E, hoje mesmo, retomamos a Visita da Bíblia domiciliária de forma que vos reunais em família, a ler, a meditar e a rezar a Palavra de Deus. Para que, de facto, habite em vós a Sua Palavra e a possais viver, porque ninguém ama e pratica o que não conhece.
Que grande responsabilidade recai sobre as famílias cristãs. Cada dia que passa estou mais convencido de que os filhos são o reflexo, a cópia fiel dos seus pais e que bons pais com maus filhos ou maus pais com bons filhos são excepções que confirmam a regra! No geral, a bondade ou a ruindade dos filhos é a bondade ou ruindade dos pais multiplicada vezes dois!
Há pouco, o bispo de Coimbra, D. Albino Cleto, escreveu aos jovens umas palavras como estas: «dentro de vinte anos ou menos, quando não houver quase padres, serão as famílias cristãs a anunciar a outras o evangelho com o seu exemplo». E é verdade: nas vossas mãos foi depositado o tesouro e o dever do anúncio do evangelho.
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