Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus – A
Serreleis, 01 de Janeiro de 2011
É precisamente o último versículo deste Evangelho (Lc 2,21) que nos abre ao mistério desta celebração que, eloquentemente, tem lugar no primeiro dia do Ano: «quando se completaram os oito dias para o Menino ser circuncidado, deram-lhe o nome de Jesus, indicado pelo Anjo, antes de ter sido concebido no seio materno». Ou seja, esta Eucaristia recorda e celebra três factos e realidades: a circuncisão, o nome e Mãe de Jesus. Feitas as contas hoje é, aproximadamente, o oitavo dia após o nascimento.
Com o rito da circuncisão, essa marca na carne que conservará até à morte, é significado não só que Jesus pertence ao povo de Deus, ao povo de Abraão a quem Deus mandara marcar na carne todo o varão até ao fim dos tempos. Jesus nasce num povo e numa cultura e, como diz são Paulo na carta aos Gálatas, «nascido de mulher e sujeito à Lei» (Gl 4,4). E mesmo se esse rito foi abolido no tempo do Novo Testamento, a circuncisão de Jesus recorda-nos que ele não viveu em regime de excepção mas que obedeceu à Lei judaica, «em tudo igual a nós excepto no pecado» (Hb 4,15). E estes dias provocam-nos a meditação sobre a humildade de Deus, do Senhor do Universo, que se tornou um lactante e foi alimentado no peito de Maria e por ela foi socorrido quando, como criança, caiu e magoou os joelhos. Em tudo Deus se fez frágil e pobre como nós.
A circuncisão recorda-nos tudo isso mas a imposição do nome recorda-nos também algo muito importante. Ao Filho de Deus é dado este nome: Jesus. Nos lábios de Maria e José e seus conterrâneos soava a Ieshû-ah. Que significa, Deus Salva. Ninguém se esqueça, então, que este Menino, assim frágil e humilde como todos os outros meninos da terra, é nada mais e nada menos que Deus Salvador sob a espécie de carne humana.
Aqui gostaria de fazer uma chamada de atenção porque, normalmente, o nome é um sinal, é um projecto. E importa recordar os antigos costumes cristãos que tinham mais significado que a banalidade quotidiana de encontrar o nome para os filhos nas revistas, nas novelas, nas personagens públicas cuja vida, a maior parte das vezes, devia inspirar vergonha aos pais que os elegem como modelos. Na celebração do Baptismo, pergunta o celebrante: «que nome dais ao vosso filho?» porque o nome, na Igreja, só é imposto no Baptismo. Outrora eram os padrinhos a dar o nome e, na maior parte das vezes, era, simplesmente, o santo ou santa do dia que dava o nome ao recém-nascido. Desta forma, imitava-se e imita-se (pois conheço famílias que ainda fazem assim) o gesto de Maria que não impôs o nome ao Filho mas deixou ser Deus a escolhê-lo e, como na maior parte das vezes, a data do parto ainda não é agendada, assim também este gesto de procurar no calendário o nome do santo/a onomástico… é um gesto simples e cheio de fé: terá o nome que Deus quiser. E Deus quis que se chamasse Jesus, «[nome] indicado pelo Anjo, antes de ter sido concebido no seio materno». (Lc 2,21).
E eis aqui também o significado desta belíssima celebração de abertura do Ano. Aquela cujo «seio materno» acolheu e alimentou o Filho de Deus: a Virgem Maria. Jesus é a maior bênção de Deus à humanidade, é o Salvador. No início de um novo ano, pedimos a Deus que nos abençoe, que continue a conceder-nos, como escutamos do livro dos Números: «Ele nos proteja, nos conceda a luz da sua face, nos seja favorável, volte para nós o seu olhar e nos conceda a paz» (6,22-27). E tudo isto é Jesus para nós: nosso protector, nossa luz e nossa paz. Ele é o resumo e o coração de todas as bênçãos de Deus. E como veio Jesus até nós? Tal como rezamos na Oração Colecta: «pela virgindade fecunda de Maria Santíssima, destes aos homens a salvação eterna». E, por isso, continua a mesma oração e mais logo a Oração sobre as Oblatas: «fazei-nos sentir a intercessão daquela que nos trouxe o Autor da vida […] assim como celebramos as primícias da vossa graça, tenhamos também a alegria de receber os seus frutos». Assim como, «na plenitude dos tempos, Deus quis vir ao mundo através de Maria, assim também hoje, quer vir ao mundo através de Maria… e através de nós.
O Papa Bento XVI[1] sempre gostou muito desta frase de Santo Ambrósio: «Se, segundo a carne, uma só é a mãe de Cristo, segundo a fé todas as almas geram Cristo»[2]. Assim hoje pedimos, por intercessão da Virgem Santa Maria, que Cristo continua e vir até nós, e que nós continuamos a levá-lo ao mundo, neste novo ano que iniciamos.
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