sábado, 1 de janeiro de 2011

Solenidade da Epifania do Senhor – A

Solenidade da Epifania do Senhor – A
Serreleis, 02 de Janeiro de 2011

            Tal como temos meditado ao longo destes dias, quem participa na Eucaristia torna-se contemporâneo dos acontecimentos da História da Salvação: não «recordamos» mas «fazemos memória» que, na linguagem bíblica, significa «tornar presente, actualizar». Ou, se quiserdes dizê-lo doutra forma: cada Eucaristia tem uma dimensão histórica e outra actual. Isto aplica-se também à celebração da Epifania do Senhor ou Adoração dos Magos, como também lhe chamamos.
            «Epifania» significa manifestação ou aparição do Senhor. Mas… ele não se manifestara já a Maria e José e aos pastores? Sim, mas hoje manifestou-se aos outros povos. Maria, José, os pastores… eram judeus, membros do povo de Abraão – como aliás Jesus, reflectimo-lo ainda hoje por causa da circuncisão e imposição do nome narrados no evangelho de Santa Maria, Mãe de Deus. Mas estes três magos – ditos como «vindos do Oriente» (Mt 2,1) não eram judeus, não eram da descendência de Abraão. As suas imagens representam os continentes africano, europeu e asiático – os três conhecidos até então. Por outras palavras, eles representam-nos a nós. Eles são os primeiros de nós que conheceram Jesus Cristo. São nossos bisavôs, nossos ascendentes em termos geográficos e históricos. Porque nenhum de nós que aqui está é de ascendência judaica, nenhum de nós abraçou a fé cristã vindo do judaísmo. O nosso povo lusitano era pagão, adorava a natureza e os falsos deuses, nós recebemos o cristianismo vindos dos povos que não pertenciam à herança de Israel. E, então, reparai que até neste sentido esta festa tem uma dimensão histórico-religiosa que nos diz respeito.
            Mas é claro que temos ainda mais a viver e celebrar da Epifania do Senhor. Olhemos para estes Magos vindos do Oriente… não eram crentes, não conheciam as Escrituras mas o seu estudo – a Estrela que os guiava - leva-os a Jerusalém. Porquê Jerusalém e não Roma que era o centro do mundo de então? Ou, então, Atenas capital filosófica do mundo? Porque Jerusalém é o lugar da Palavra de Deus. Reparai que lá eles escutam e são guiados pela Palavra do Senhor. E a Jerusalém de hoje não é mais uma terra na Palestina; Jerusalém hoje é a Igreja. Hoje há muitos que dizem que não precisam da Igreja para a sua relação com Deus mas os magos precisaram. O que lhes foi dito em Jerusalém? Ide a Belém. E onde é Belém hoje? Belém hoje são os sacramentos, especialmente a Eucaristia e a Reconciliação. Aí encontrareis o Menino para o adorar, envolto na frágil aparência do pão e do vinho consagrados. Aí (aqui!) realiza-se hoje a Epifania do Senhor! Na celebração da Eucaristia, voltamos a encontrar Jesus que se manifesta a todos os povos: já não só aos judeus mas a todos os povos e língua onde se celebra o seu memorial. Também nos pobres, nos mais necessitados encontramos hoje Jesus. No «sacramento dos pobres» também está Belém! Aí também encontramos, de verdade, Cristo feito homem, feito homem sofredor.
            Não podemos deixar de reconhecer, ainda que com dor e lágrimas, que a cidade de Jerusalém disse aos magos para ir a Belém mas ficou no seu lugar. Em primeiro lugar, os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo, mas também – diz são Mateus – «Herodes e, com ele, toda a cidade de Jerusalém» (Mt 2,3). E esses, os sacerdotes e escribas, Herodes e o povo, sou eu e és tu, somos nós, os crentes de hoje. Que depressa eles citaram a profecia de Miqueias (5,2)… «onde devia nascer o Messias? Em Belém da Judeia» (Mt 2,4-5). Mas ninguém saiu de casa à sua procura. Vieram os de fora e passaram-lhes à frente… Porventura não será essa hoje a nossa atitude? Sabemos tanto – ou julgamos que sabemos! – sobre Deus e sobre Jesus. E talvez aqueles que nunca ouviram falar d’Ele, que não são baptizados porque ninguém lhes apresentou Jesus, talvez eles nos passem à frente no Reino de Deus. Porque nós conhecemos a Bíblia, mas não a lemos e menos a praticamos; porque nós frequentamos os sacramentos mas vivemos como se não…
            Os magos, diz o evangelho, «regressaram à sua terra por outro caminho» (Mt 2,12). Isto é, mudaram de vida, converteram-se. E nós…? Que amanhã regressaremos ao trabalho? Mudámos alguma coisa no fim deste Natal?

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