segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Domingo do Baptismo do Senhor - A


Domingo do Baptismo do Senhor
Serreleis, 09 de Janeiro de 2011

       Esta cena evangélica do Baptismo de Jesus comporta um certo carácter escandaloso que alguns cristãos dos primeiros séculos tentaram esconder: o que fazia Jesus naquela fila de pecadores públicos, ladrões, prostitutas, publicanos…? Se Ele nasceu sem pecado e nunca o cometeu (Hb 4,15) durante a sua vida, porque razão se associou àquela lista dos que desceram às águas do Jordão? A própria reacção de surpresa e de recusa de João confirma-nos o carácter estranho desse gesto: «João opunha-se dizendo: “Eu é que preciso ser baptizado por Ti e Tu vens ter comigo?”» (Mt 3,4). E também nós perguntamos: para quê serviu o baptismo de Jesus? Ele não tinha pecado nem original nem pessoal; Ele não foi inserido no Corpo da Igreja nem o celebrou como sacramento porque Ele é a Cabeça da Igreja e seu fundador e fundamento! Então devemos compreender que este facto tem um sentido outro: Jesus submete-se ao rito baptismal como exemplo, como revelação e como inauguração. Como exemplo porque nos ensina que se Ele, o Filho de Deus, foi baptizado e assim «foi cumprida toda a justiça» (Mt 3,15), isso significa que a vontade do Pai é que recebamos o Baptismo e neles sejamos convertidos em seus «filhos adoptivos» (Ef 1,5). Como revelação porque aí manifestou-se (esta é, de facto, a terceira epifania deste tempo litúrgico: aos pastores, aos reis, a todo o povo…) a Santíssima Trindade, na voz do Pai, na pessoa do Filho e na simbólica pomba do Espírito (Mt 3,17). Como inauguração, porque a partir deste momento, Jesus dirigirá a palavra ao povo com o anúncio do Reino (após a tentação no deserto que, liturgicamente é recolocada no início da quaresma; cfr. Mt 4).
       Tudo isto que ocorre no Baptismo de Jesus, deve levar-nos a uma profunda e sincera reflexão sobre o sacramento do Baptismo que um dia recebemos e que, em cada dia, vivemos. Por ele, participamos na graça e dom de Deus de ser seus filhos e membros da sua Igreja.
         De facto, tudo começa no Baptismo. Por tal motivo é que o rito começa a desenvolver-se na porta da Igreja… porque o Baptismo é a verdadeira porta, não material mas sacramental, para o acesso à família e casa de Deus. Também por isso o Baptistério está junto à porta: para nos recordar que ninguém chega à mesa do Altar, à Eucaristia, sem passar primeiro pelo banho purificador. E também isso nos recordam as pias de água benta depostas nas entradas: que entramos aqui cada Domingo porque um dia fomos baptizados. Se tal é a importância deste sacramento, não exigirá isto que ele seja bem preparado? Surpreende a preguiça e indisposição daqueles que vêm pedir o Baptismo para os filhos e não estão dispostos a prepará-lo convenientemente. Isto revela que não sabem o que pedem ou que não têm as disposições necessárias para pedi-lo. E também aqui há muito a caminhar… Sucede que o Baptismo é um dom de Deus para uma vida nova e, reparemos bem, trata-se de um dom e não de um «direito»! Um dom que é dado para o compromisso da educação na fé.
       Em segundo lugar, o Baptismo introduz-nos na família de Deus, na comunidade cristã. Por isso, também, todo o rito reclama e supõe a presença da Igreja. Ela acolhe o neófito, o recém-baptizado no seu seio de mãe. O Baptismo nunca é uma festa «privada», «familiar» e, por isso, surpreende que ainda hoje haja pais que reclamam e querem o baptismo «por separado e fora da Missa»? A experiência prova cada vez mais que os que mais querem as celebrações «privadas», são os que depois menos se comprometem no acompanhamento dos filhos. Hoje já não se cumpre o pressuposto que, durante séculos, alimentou a celebração privada do Baptismo e fora da Eucaristia: porque as crianças já não são baptizadas nas primeiras horas de vida e, como muitas vezes até era, mesmo sem a presença da mãe...
       «É preciso que se cumpra toda a justiça» - respondeu Jesus ao desafio do Baptista. Isso implica preparar-se como deve ser, ter os padrinhos com as condições «justas» e realizar uma educação verdadeiramente cristã após a infusão da água… Cumprir a vontade de Deus não se limita aos «minutos» do Baptismo mas alarga-se ao antes e ao depois de sair da igreja paroquial.
       Importa que cada cristão se pergunte: «o que fiz do meu baptismo?». Provavelmente a maior parte dos crentes nem sabe a data do seu Baptismo, sinal do valor que um tal acontecimento tem na própria vida… Alguma vez tive que rejeitar algo, dizendo para comigo: «isto não está de acordo com o Baptismo?». 
        Finalmente, escutámos na segunda leitura: «vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia […], depois do Baptismo que João pregou: Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré que passou fazendo o bem» (Act 10,38). Ora esses acontecimentos do «depois do Baptismo de João», todo «o bem que Jesus fez» será proposto à nossa meditação e imitação nos próximos Domingos. Apenas passada a interrupção intencional e temática na leitura de Mateus, com o evangelho de João (1,29-34) no próximo Domingo, encontraremos a vocação dos primeiros discípulos, o convite à conversão e o sermão da Montanha. De modo que, quem quiser saber como ser cristão, esteja bem atento ao que o Senhor nos dirá nas próximas Eucaristias.

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