segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Advento - Ano B (2011)

Advento - IV
Como só uma mãe sabe fazer

       Depois dos chamados ciclos de Isaías (1º Domingo) e de João Baptista (2.º e 3.º), entramos na recta final do Advento que é o ciclo de Maria (4º Domingo e 4a semana). E, por uma feliz coincidência, neste ano 2011 a última semana de Advento tem mesmo os sete dias por inteiro (normalmente é interrompida no dia de semana em que ocorre o 25 de Dezembro). Temos pois uma oportunidade que se prolonga para meditar/dialogar (o mesmo que diz Lc 1,29 que fez Maria quando o Anjo a saudou... «dialogizomai» é o verbo que aparece, donde vem o nosso verbo «dialogar») na figura da mãe de Jesus.
      Posta de lado a interessante questão da figura do Anjo, tão eloquente em contexto judaico (Deus é de tal modo o «Outro», «totalmente outro», «Santo, Santo, Santo» ou «Diverso, Diverso, Diverso»... que nenhum ser humano pode dialogar directamente com Ele e, por isso, surgem os seus «mensageiros» - é isto que significa, literalmente, anjo na língua hebraica e, depois, na tradução grega) e tão significativa em termos literários (alguém brincava dizendo que as palavras do Anjo foram «não temas, Maria, eu sou uma figura de estilo...»), aquilo que Deus encomenda a Maria é «conceber, dar a luz e pôr o nome de Jesus»: um acto profundamente femenino, um outro exclusivamente femenino e um outro que pertencia exclusivamente ao homem/pai. Mas, como o que irá nascer será Santo, obra do Espírito Santo, da sombra do Altíssimo, compete também a Maria – na versão de Lucas - impor o nome.
      Três actos, pois, que só as mães sabem fazer. O Advento pertence-lhes. Só elas – as mulheres em geral – sabem o que é esperar. Os homens não sabemos o que são os ritmos biológicos. Também por isso a nossa impaciência é genética.
       Três actos manchados de sangue. Porque pôr o nome não é apenas esboçar sílabas aquando do nascimento. É acariciar o ventre enquanto o próprio sangue alimenta a nova vida e é limpar o sangue das feridas que a vida faz durante o crescimento e até à sepultura. Mesmo se nenhuma mãe devia sepultar um filho: este é o acto anti-natural por antonomásia. E Maria sofreu-o. Também nessa hora concebeu e entregou no ventre da terra o corpo de Jesus, que será dado a luz na manhã de Páscoa (ressuscitar é – no grego bíblico - levantar-se, pôr-se de pé, acto de luz, como o erguer-se da/pela manhã) e receberá um (novo) nome: Senhor.

Advento – III
Além do Jordão

      Curiosa e estranha a referência de João sobre o local de trabalho do Baptista: «Betânia, além do Jordão» (Jo 1,28). O certo é que ninguém sabe onde é essa tal «Betânia» e não nos enganemos a pensar que é o lugar de Lázaro e suas irmãs, pertinho de Jerusalém. A essa Betânia o Jordão fica-lhe muito longe.
      Em todo caso, essa «Betânia» do Baptista recorda-nos que «além-Jordão» era o como e o onde o povo vivia antes da entrada na Terra prometida, in status viatoris. Esta condição corresponde bem a quem vigia, a quem não pode parar, a quem não monta arraiais no deserto, no sentido mais real ou bélico da expressão. Ainda hoje, o além-Jordão não é Israel, é Jordânia. Não se pode parar no caminho sob pena de atrasar ou invalidar o encontro marcado. Nós vivemos além-Jordão. Estamos aqui de passagem, por isso temos de ser tão fiéis ao presente. Não deixemos de caminhar, neste advento que é a vida, em direcção à Terra prometida, que não é um lugar mas uma pessoa, Jesus.
      Nesse além-Jordão, realiza-se a tensão entre a verdadeira e a falsa identidade auto ou hétero-atribuída. João é confundido com o Messias, com Elias, com «o profeta». Mas «ele confessou e não negou». A edição litúrgica portuguesa acrescenta-lhe um generoso «confessou a verdade» que não está nem no texto grego nem na Vulgata. E as suas palavras não podiam ser mais realistas e humildes: «sou a voz», não sou a palavra, o conteúdo, não sou o emissário nem o instrumento (esse é a garganta), sou apenas «a voz», destinada a ser dita e desaparecer. «Convém que Ele cresça e eu diminua» (Jo 3,30) e por isso mesmo «dentre os nascidos de mulher, não há maior que João Baptista» (Lc 7,28), «mas o mais pequeno no Reino dos Céus é maior do que ele» (ibidem).
      Uma história rabínica, paradoxal como de costume são tais histórias, expressa muito bem esta condição de caminhantes. Um homem foi visitar um famoso rabino e, ao entrar na sua casa, ficou surpreendido por só ver livros e uma pequenina mesma ao meio. Disparou-lhe então a pergunta: «e a tua mobília?». «E a tua? – respondeu o mestre. «Mas eu estou aqui de passagem» - explicou o visitante. «Também eu» - rematou o sábio.
      De passagem, no além-Jordão.



Advento – II
Clamar no deserto

      Esta é uma vocação árida: clamar no deserto (Mc 1,1; Is 40,3). E, no entanto, o deserto é o único lugar onde se pode clamar, melhor, gritar. Não porque haja silêncio (os relatos de quem passou alguma noite no deserto são chocantes: ao contrário do que se pensa, a noite no deserto é cheio de ruídos assustadores dos seus legítimos habitantes, cujos sons amplificados pelo vento, são capazes de enlouquecer e amedrontar qualquer um) mas porque há concentração no essencial: no deserto não há adornos nem o lugar convida a conversas de circunstância. No deserto, só é dito o que merece e precisa ser dito.
      A voz grita: «preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas». Não é um caminho físico, talvez nem sequer um itinerário humano-espiritual mas tudo o contrário. Preparar pode ser apenas acolher porque na vida com Deus temos pouco a fazer e tudo a receber. É verdade que o texto diz ainda «endireitai», pois seja. Endireitai a cabeça e afinai o olhar, vigiai porque Ele está a passar.
       O advento corresponde bem à condição humana: acolhimento e expectativa. Este é um tempo favorável para fazer o diagnóstico pessoal dos desejos e deitar fora aquilo que distrai, que não permite vigiar porque ocupa demasiado a atenção. E olhar para os sentimentos profundos, os desejos subterrâneos, a definitiva e única ânsia humana, a da felicidade, o cor inquietum de Agostinho (Conf I, 1) e de todos nós. No meu coração, deserto onde de noite e de dia se agitam feras cujos rugidos assustam, é preciso clamar, dizer o único que faz falta e vale mesmo a pena.



Advento – I
Só espera quem não sabe

        As palavras de Jesus recolhidas em Mc 13,33 são um imperativo justificado: «Tende cuidado e vigiai porque não sabeis quando é o momento». Esperar é próprio de quem sabe, vigiar é próprio de quem não sabe. Jesus não manda esperar mas vigiar. E, apesar da tradução litúrgica traduzir como «chegará», o texto grego diz «quando é o momento». Portanto, não sabemos quando é o momento: o acento é posto no presente e não no futuro. Por outras palavras, não é o futuro que não sabemos reconhecer mas o presente. Estamos no momento mas não sabemos que é.
      A vida cristã é o juízo sobre o «agora» que nos levará a um «depois» (des)proporcional e (in)consequente à fidelidade de hoje. Precisamos aprender a ter cuidado e vigiar o «já». Porque o «já» é «aqui» e é o único que temos, o «depois» é «lá» e «ainda» não nos pertence. A nossa vida toda é advento: não advento do que virá mas d’Aquele que veio, do que está. Quem me dera ver (e não só olhar) cada momento, cada pessoa, cada circunstância como quem vigia e não como quem espera: capaz de surpresa e espanto (esse é o princípio da filo-sofia, segundo Aristóteles). Se vigiar o presente, não temo o futuro. Marana thá.

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