domingo, 2 de outubro de 2011

XVII Domingo Comum – A

XVII Domingo Comum – A
02 de Outubro de 2011


           A Palavra deste Domingo é um quase juízo sumário que Jesus faz ao povo da Antiga Aliança, ao povo da Nova Aliança, aos sacerdotes daquele e deste tempo, aos fiéis daquele e deste tempo. Não é muito habitual distinguirmos – nas meditações litúrgicas – quem são os destinatários de algumas das advertências ou lamentações (ou bem-aventuranças de Jesus) mas se atendermos bem a quem dirigia as suas palavras num determinado momento, podemos compreendê-las melhor. E o trecho de hoje não deixa lugar a dúvidas: «disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo…» (Mt 21,33). Esta é, pois, uma parábola destinada aos líderes espirituais. Note-se que é dita por Jesus após a entrada triunfal em Jerusalém, poucos dias antes da Paixão, em claríssima tensão com as autoridades políticas e religiosas.
           Recorrendo ao conhecidíssimo «cântico da vinha» de Is 5, 1-7, proclamado hoje na 1ª leitura, Jesus insinua-Se como «filho do dono da vinha» e, no apresentar-se, julga a atitude dos vinhateiros e anuncia a Sua paixão, como aliás é muito frequente nos evangelhos de Mateus e Lucas. Finalmente, e após a resposta auto-comprometedora dos mesmos «sacerdotes e anciãos», remata com a citação de Sl 118, 22-23 («a pedra que os construtores rejeitaram…») e formula o juízo contra o povo de Israel, aí representado pelos seus chefes: «ser-vos-á tirado o Reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos».
           Meditemos olhando para o quinto capítulo de Isaías e a recapitulação do texto feita por Jesus no evangelho. É inegável a predilecção do proprietário pela sua vinha… trata-se mesmo de um «cântico de amor»! Lavrou-a, limpou-a, plantou-a com um bacelo escolhido… escavou o lagar aí mesmo para não correr o risco de estragar as uvas pelo caminho e… mas que exagero! Construiu uma «torre de vigia» no meio da vinha para a proteger! E o resultado não podia ser pior: «agraços». E pergunta-se na loucura da sua dor: «que mais podia eu fazer?!». A história de cada um de nós é marcada por gestos de predilecção e ternura de Deus, mesmo se não os reconhecemos, mesmo se não os sentimos. Mas não raro somos os crentes e praticantes os que produzimos mais agraços. Sempre me provocou curiosidade porquê as pessoas religiosas são as mais tentadas à dureza, ao julgamento dos outros, à impiedade, à amargura. Talvez por causa de uma infundada e estúpida convicção da própria santidade. Quanta dureza no trato com a família, os amigos, os colegas de trabalho ou estudo!
           Os sacerdotes e ancião respondem a Jesus que «o proprietário da vinha mandará matar sem piedade os vinhateiros». Desta forma, sem disso se aperceberem, geram em seu coração a mesma lógica de morte para a qual Jesus os queria prevenir e, poucos dias depois, tornarão realidade no corpo do Messias a parábola que hoje chamamos dos «vinhateiros homicidas». Jesus, porém, não afirma que o proprietário da vinha mandará matar quem quer que seja mas que «a pedra rejeitada», pisada, morta converter-se-á em «pedra angular», pedra viva, causa de salvação mesmo para os seus algozes. Se nos deixarmos surpreender e agarrar verdadeiramente por Ele, o seguimento de Jesus implica e opera em nós uma transformação da mente e dos critérios de vida.
           Finalmente ocorre reflectir como podemos sucumbir à tentação da ganância, de querer ser donos dos bens de que somos apenas administradores. Na sua recente carta pastoral, n.º 10, D. Anacleto Oliveira, bispo de Viana do Castelo, adverte que «há mesmo quem se aproveite das coisas de Deus ou dos sentimentos religiosos de quem O procura, apenas ou principalmente para obter maiores lucros pessoais ou para subir na escala social. Ninguém pense que está livre da manipulação ou instrumentalização do sagrado, mesmo entre os responsáveis das comunidades cristãs. A fronteira entre servir a Deus e aos outros ou servir-se de Deus e dos outros é mínima, até neste modo de a exprimir». Terríveis são as palavras finais de Jesus: «Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos» (Mt 21, 43).
           Terminemos com a exortação paulina. Faz-nos bem recordar que a maior parte da vida cristã não é o que nós podemos e, de facto, fazemos, mas o que Deus pode e, de facto, faz em nós quando nos abrimos à Sua graça: «Apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com orações, súplicas e acções de graças. A paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus» (Fil 4,8).

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