domingo, 6 de fevereiro de 2011

V Domingo do Tempo Comum - A

V Domingo do Tempo Comum - A
Serreleis, 06 de Fevereiro de 2011
- Festa de São Brás -

                É missão e virtude do sal não se ver nem na sopa nem no prato; porém, a sua falta sente-se no paladar e até no olfacto! Pelo contrário, a ausência ou presença da luz é absolutamente evidente! E são estas as duas comparações de Jesus dirigidas aos discípulos: sois sempre sal da terra e luz do mundo, umas vezes mais sal, outras vezes mais luz, mas sempre uma coisa e outra.
                Na condição de sal, os cristãos não têm de dar nas vistas: não precisam andar a gritar pelas ruas que são crentes e praticam a caridade, que escutam a Palavra e celebram os sacramentos. Mas quando um/a cristã/o passa despercebido no seu local de trabalho ou de estudo, porque não dá testemunho e ninguém percebe que ele/a se orienta pela fé, antes pelo contrário, a sua atitude contradiz aquilo que afirma ser, «não serve para nada, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens» - a afirmação é de Jesus! (Mt 5,14).
                Na condição de luz, os cristãos têm de dar nas vistas. Isto é, não podem calar que são crentes, não podem esconder aquilo em que acreditam e não podem aceitar que a fé seja insultada ou atropelada por leis ou comportamentos injustos doutros cidadãos ou dos governantes e políticos por eles eleitos. É doloroso, provoca pena quando se vêem os políticos a dirigir ataques ao Papa ou aos bispos ou à Igreja em geral (onde também se incluem os baptizados que votaram neles!) e os fiéis calam-se, como se estivessem a falar do vizinho e não deles. Resulta que o cristianismo na Europa e, particularmente, em Portugal, perdeu a força de transformar a sociedade por causa do conformismo, do comodismo e da indiferença dos crentes. Não podem ser só os presbíteros – que são uma minoria e também eles feridos pelo pecado – a marcar o ritmo da sociedade: têm de ser todos os cristãos e sobretudo os fiéis leigos. E resulta chocante que se coloquem à margem no emprego, na escola ou universidade quanto ao testemunho da fé.
                Com muita dor temos de reconhecer que muitos que se chamam cristãos, (já) não o são; muitos até que vêem à Igreja ou a ela recorrem, pedindo certos sacramentos, não pensam de acordo com o Evangelho e parece que até se tornou proibido que os párocos lhes digam o contrário; muitos até dos que vêm à Igreja, são os que atacam, os mais mesquinhos, os que menos ajudam e, de propósito, não querem saber nem compreender. Há muitos cristãos que são «treinadores de bancada» e poucos que são «sal e luz». Mas resulta curioso que Jesus, no evangelho, disse «ide por todo o mundo e anunciai o evangelho a toda a criatura» mas nunca disse «ide que todas as criaturas do mundo viverão o evangelho». Então, qual é o medo e mal de reconhecer que nem todos os baptizados são cristãos?! Curiosamente, no primeiro livro-entrevista do cardeal Ratzinger com Peter Seewald (chamado «Sal da Terra»; agora como Papa, continuo-o noutro chamado «Luz do Mundo»…), chegou mesmo a dizer que «o sal da terra pressupõe que nem toda a terra seja sal» (p. 210). Donde se conclui que os cristãos, sendo uma «minoria criativa» têm de ter uma presença diferente, de alta qualidade humana e espiritual, ser sinais de uma «Presença Outra» no meio do mundo.
                Em que consiste ser sal e luz? Escutámo-lo de Isaías (58,7-10): «repartir o pão, dar pousada, levar roupa, não voltar as costas…». Já o profeta afirmava «então a tua luz despontará como a aurora, a tua luz brilhará na escuridão e a tua noite será como o meio-dia». E até o cantámos no Salmo (111,4): «para o homem recto, nascerá uma luz no meio das trevas». «Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens» (Mt 5,16) – diz Jesus. Não para a vanglória, não para a vaidade e o orgulho, mas «para que glorifiquem o vosso Pai que está nos céus».
                Olhemos para São Paulo, aquele que em tudo quis imitar Jesus e que escreve aos Coríntios recordando que «pensei que, entre vós, não devia saber nada senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado» (1 Cor 2,1-5). No fundo, não há outra forma de ser sal e luz senão à imagem de Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado.

Sem comentários:

Enviar um comentário