segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

IV Domingo do Tempo Comum - A

IV Domingo do Tempo Comum - Ano A
Serreleis, 30 de Janeiro de 2011

            Se fosse perguntado a cada um/a o que é a felicidade, certamente teríamos tantas respostas quantas pessoas a responder. Para uns, a felicidade será fazer isto ou aquilo, para outros ter isto ou aquilo, para outros alcançar este projecto, chegar a tal idade em tais condições, etc… E é curioso que os entendidos dizem que nunca houve um tal nível de conforto como hoje, nunca houve tanta qualidade de vida a nível geral – é claro que há casos e povos inteiros que vivem como nós há muitos séculos… -, nunca a medicina esteve tão evoluída, nunca houve tanto conforto material, somos a sociedade mais instruída de todos os tempos… e, também, a mais infeliz de todas. Há aqui qualquer coisa que não bate certo: ter mais condições para e acabar por ser menos feliz não condiz bem. Porventura estamos a falhar o alvo ou, então, não temos afinada a pontaria.
            Creio que ninguém duvida que Jesus foi um homem feliz. E, no entanto, ninguém dirá que a sua vida foi fácil. Porém, ele tinha grande, para usar linguagem de hoje, qualidade de vida, era um homem realizado, feliz. E temos de aprender com Ele o que é a felicidade verdadeira e o caminho para atingir esta meta. Jesus não é apenas um modelo de felicidade para o ser humano de hoje: Ele é o modelo! Mas não nos enganemos: o fruto é saboroso mas a sementeira é fatigante e, não raro, paradoxal. Na Carta aos Coríntios (1,27-28), São Paulo diz que «Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo para confundir os sábios, escolheu o que é vil e desprezível». E, no entanto, diz o Apóstolo, para «vós que estais em Cristo Jesus, Ele se tornou sabedoria de Deus, justiça, santidade e redenção» (1,30). Por isso, quem quiser sabiamente, justamente, santamente, redimido, aprenda com Jesus.
            E o que diz Jesus? Iniciamos com este texto de Mateus 5 a longa catequese ou discurso de Jesus chamado «sermão da Montanha». Este longo «Sermão da Montanha» destinado à formação dos seus discípulos na vida de Deus, na imitação do Senhor, iremos escutá-lo e meditá-lo ao longo de todos os Domingos até ao início da Quaresma. Chama-se «da Montanha porque, de facto, escutámos a introdução do evangelista nestes termos: «ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-se. Rodearam-n’O os discípulos e Ele começou a ensiná-los» (5,1-2). Jesus senta-se: esta é a posição do Mestre e do Juiz por excelência na tradição semita e bíblica (Ex 18,13; Lc 2,46; 22,28). E «começou a ensiná-los», em rigor o texto grego diz «abriu a boca e lhes ensinava, dizendo»: versículos antes, em Mt 4,4, Jesus recordava a Dt 8,3: «nem só de pão vive o homem mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus». Também Sl 37,30 e Pr 10,31 afirmam que «da boca do justo brota a sabedoria».
E que nos ensina a sabedoria, a palavra, o pão que sai da boca de Deus, da boca de Jesus? «Bem-aventurados»! Foi esta a primeira palavra que saiu da boca de Jesus Esta palavra pode traduzir-se por «felizes», «ditosos», simplesmente habituamo-nos a chamá-las «bem-aventuranças» mas poderíamos chamar-lhes «felicidades» ou «ditas». Quem diz que o cristianismo é triste, nada sabe do que é ser cristão! Mas atenção! A felicidade que Cristo traz não é uma alegria balofa e superficial, semelhante a gargalhadas que só movem o rosto mas que ocultam um coração de pedra, amargurado. Esta é uma felicidade real e autêntica que se destina a todos mas que, talvez, só um «resto de Israel», aquele de que fala Sof 2,3; 3, 12-13, «deixarei ficar no meio de ti um povo pobre e humilde», só um pequeno povo assim é capaz de compreender, aceitar e viver.
A quem considera Jesus «bem-aventurados»? Talvez aqueles mesmo que a sociedade chama infelizes e frustrados! Mas que, no fundo, imitam o Senhor e, por isso, encontram a paz e a alegria. O que significa ser pobre em espírito, humilde[1] e puro de coração se não reconhecer que só Deus é grande e todos nós somos frágeis? O que é chorar se não ter um coração sensível à própria miséria e à miséria alheia? O que é promover a paz, ter fome e sede e sofrer por causa da justiça se não estabelecer relações humanas pautadas pelo respeito e pela verdade? O que é ser misericordioso se não saber perdoar e aceitar ser perdoado?
O caminho de felicidade de Jesus é paradoxal, aparentemente contraditório e chocante: é o «escândalo da cruz» (Gl 5,11) e é nessa lógica que se enquadram as Bem-aventuranças. Elas não são o discurso dos fracos mas sim o «código dos fortes», isto é, exigem força e amor verdadeiro para as observar e as procurar viver na própria vida. Ora de tudo isto que parece ser (e é!) tão doloroso, Jesus diz: «alegrai-vos e exultai porque é grande nos céus a vossa recompensa». Assim foi para Ele…[2]


[1] A tradução litúrgica que usamos em Portugal, traduz esta terceira bem-aventurança (as bem-aventuranças são oito ou, bem, oito mais uma pois a última não é mais do que a repetição ou aprofundamento da anterior: «bem-aventurados os que sofrem perseguição […] bem-aventurados quando vos perseguirem» - vv.10.11) como «bem-aventurados os humildes» (v.5). Esta não é uma tradução fiel e legítima mas antes uma interpretação, aliás, muito deturpada. A palavra grega em Mateus é «Praeis», que a Vulgata traduziu por «mites», isto é, «mansos». E a Nova Bíblia dos Capuchinhos também optou por esta expressão que as versões litúrgicas espanhola, italiana e francesa também preferiram. Já em Mt 11,29, Jesus auto-intitula-se «praus» e a versão litúrgica traduziu justamente por «manso». Esta bem-aventurança da mansidão está aliás relacionada com a sétima, no v. 9, «bem-aventurados os construtores/obreiros de paz». Mas, nesta tradução abusiva, tal relação resulta ofuscada. E até o v.9 resulta empobrecido com a expressão «os que promovem a paz»…
[2] No livro «Jesus de Nazaré», de Bento XVI, todo o IV capítulo (pp. 71-119) é dedicado às «Bem-aventuranças» e constitui uma meditação de enorme valor exegético, doutrinal e espiritual que nenhum crente deve ignorar para aprofundar devidamente a Palavra de Jesus.

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