domingo, 26 de fevereiro de 2012

Entre anjos e bestas

I Quaresma – B
26 de Fevereiro de 2012

            Todos os anos o primeiro Domingo da Quaresma é chamado «das tentações» porque apresenta um trecho do Evangelho sobre os 40 dias de Jesus no deserto. O número 40, bem o sabemos, é simbólico: podem ter sido mais ou menos dias mas o que é sublinhado é que Jesus reassume a história do povo de Israel nos seus 40 anos de deserto e a preparação cumprida ao jeito das grandes figuras do Antigo Testamento para a sua respectiva missão (Moisés - Ex 24,18 - e Elias – 1 Re 19,8 - estiveram 40 dias no Sinai-Horeb e até o dilúvio, hoje recordado na primeira leitura - Gn 7,4.12.17- , foi de 40 dias).
            Jesus, escreve são Marcos, é «impelido ao deserto pelo Espírito Santo» (Mc 1,12). Enquanto Mateus (4,1) diz mesmo que o Espírito o conduziu ao deserto «para ser tentado», Marcos e Lucas (4,1) apenas dizem que, «no deserto foi/era tentado», isto é, não colocam a responsabilidade da tentação na vontade do Espírito. Enquanto Marcos e Lucas relatam o conteúdo programático das três tentações e precisam que foi no termo dos 40 dias que sofreu as tentações, Marcos não entra em tais pormenores – aliás o seu relato é o mais sóbrio dos três e em dois versículos encerra o assunto que em Mt e Lc ocupam 11 e 13 versículos, respectivamente – e o verbo que utiliza (um particípio presente passivo) refere-se não a um único momento mas a uma condição continuada… Jesus, não foi tentado apenas no deserto, uma ou três vezes, assim como a tentação não é para nós um facto esporádico mas antes uma condição de vida.
            Finalmente, Marcos possui um versículo de grande beleza literária e eloquência humana e teológica: Jesus «vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-n’O». É por causa deste versículo que, no tetraformo (ou representação simbólica dos quatro evangelistas com formas/cabeças de animais), coube a São Marcos a figura do leão – o rei do deserto e dos animais selvagens, figura também do Leão da tribo de Judá (Gn 49,9; Ap 5,5) que é o próprio Jesus (também o leão Aslam das Crónicas de Nárnia de C.S.Lewis é uma figura tipológica inspirada em Cristo, de acordo com o pensamento do novelista católico). O que significa esta convivência entre bestas e anjos? Não é essa porventura uma definição da existência humana? O convívio com os anjos representa a presença e intimidade com Deus; a convivência com os animais selvagens refere-se ao ambiente e às relações hostis que enfrentamos no quotidiano. Uma e outra realidade não se excluem e não se anulam automaticamente – mesmo se o seu claro antagonismo tanto o exige e nós tanto o desejamos. A nossa existência é per se agónica e bélica mas isso não significa que não possa estar envolvida em Deus. Nós continuamos a escrever a Bíblia e os evangelhos em nossa carne.
            Escreveu Primo Levi, judeu italiano, sobrevivente do campo de concentração de Buna-Auschwitz:             «Resnyk é polaco. Contou-me a sua história, que hoje já esqueci, mas era certamente uma história dolorosa, cruel e comovente: pois que assim são todas as nossa histórias, centenas de milhares de histórias, todas diferentes e todas cheias de uma trágica e surpreendente necessidade. Contámo-las uns aos outros à noite; aconteceram na Noruega, na Itália, na Argélia, na Ucrânia, e são simples e incompreensíveis como as histórias da Bíblia. E não são, elas próprias, histórias de uma nova Bíblia?» (Primo Levi, Se isto é um homem, p. 70)

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