A amizade não se mede por
tudo aquilo que uma pessoa pode dizer à outra mas por tudo aquilo que não precisa
dizer (na verdade, muitas pessoas dizem a um desconhecido ou ao psicólogo aquilo
que não são capazes de dizer aos “amigos”). A amizade não se confirma pelo
facto de poder passar muito tempo a conversar com uma pessoa mas por poder passar
muito tempo com essa pessoa sem ter de conversar. Ou seja, não tanto porque, na
sua presença, se pode falar, mas porque, na sua presença, se pode ficar em
silêncio, sem sentir-se constrangido (diz-se, por vezes, que há um “silêncio
incómodo”).
Por tudo isto, sinto cada
vez mais que a categoria que corresponde melhor à oração não é a do diálogo mas
a do encontro. Não nego que «a Ele falamos, quando rezamos, a Ele ouvimos,
quando lemos os divinos oráculos»[1]. Quero antes
dizer que a oração não é tanto falar mas encontrar a Deus e estar com Ele. Pois
Jesus afirma que «o vosso Pai bem sabe do que precisais ainda antes de lho
pedirdes» (Mt 6, 32) e é também Ele quem nos adverte «não digais muitas
palavras como os gentios que pensam que por falarem muito serão ouvidos» (Mt
6,7). Na verdade, que poderíamos nós dizer a Deus que Ele já não saiba? «Ainda
a palavra me não chegou à língua e já, Senhor, a conheceis perfeitamente» - diz
o salmista (138,4).
Não sou, por natureza,
muito taciturno. Mas conforta-me saber que para orar, basta pôr-me na presença
de Deus e deixar-me estar aí, diante d’Ele e Ele diante de mim, sem palavras.
Como o agricultor que respondeu ao cura de Ars, que estranhava vê-lo sentado na
igreja sem mexer os lábios: «não digo nada: eu olho para Ele e ele olha para
mim».
Jesus concede aos apóstolos,
no evangelho de hoje, o título de «amigos»: «já não sois servos, a vós
chamei-vos amigos porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai» (15,15).
De facto, este trecho refere-se ao último diálogo de Jesus com os discípulos
antes da paixão e da ceia: está tudo dito, não é preciso dizer mais, podemos ficar
em silêncio. Ora entre amigos reina uma certa harmonia, uma cumplicidade, uma sintonia
que não é dado adquirido mas em constante construção. Jesus diz mesmo: «vós sois
meus amigos se fizerdes o que vos mando» (v.14). No texto grego, Jesus afirma
«sois meus amigos se…», não diz «sereis»: na liturgia optou-se pela segunda forma
apenas por uma elegância gramatical para com a condicional «se fizerdes». Mas
Jesus não diz que os discípulos «serão» seus amigos mas que «já são» e devem
obedecer-lhe para manter-se em amizade com Ele, em sintonia.
Ninguém duvide que Jesus é
amigo e que o seu amor está acima das medidas humanas: «Ninguém tem maior amor
do que aquele que dá a vida pelos seus amigos» (15,13). Para os apóstolos, antes
da Páscoa, era ainda uma possibilidade que tal – dar a vida - viesse a
acontecer (apesar de Jesus os ter avisado muitas vezes) mas para nós é uma poderosa
certeza histórica e uma humilde certeza espiritual que Jesus deu e dá a vida
pelos seus amigos, por nós.
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