domingo, 15 de julho de 2012

Viver em 1000 Mammon Street



(Da série Os Simpsons,1ª temporada, 4 episódio)


O concubinato religião-dinheiro

            Desde os primórdios da história, a relação dos homens com a divindade se estabeleceu em termos comerciais. Os sacrifícios para «aplacar» os deuses ou para «atrair a benevolência» dos espíritos são uma constante da história das religiões e nem o judaísmo, na sua sede de um monoteísmo puro, conseguiu escapar aos antropomorfismos que convertem a Deus num ser com quem convém estar «de boas relações», nem o cristianismo, apesar do exemplo de pobreza de Jesus e seus discípulos conseguiu evitar uma forma de institucionalização que promove, não raro, uma verdadeira «lista de preços» nos «serviços» que presta.
            Não sejamos puritanos: não há mal nenhum em que as comunidades e seus pastores tenham uma saúde económica que lhes permita realizar o seu ministério sem exageradas preocupações materiais nem devem permanecer em condições de penúria apenas para aparentar uma «configuração a Cristo pobre». Existe, porém, um limite de decência, que impõe o senso comum, entre uma dignidade alegre e um luxo desmesurado. Sempre ouvi dizer que o povo perdoa mais facilmente um padre que prevaricou no celibato do que um padre ganancioso. E tem lógica – mesmo se nenhuma das faltas tem justificação – porque depois de um pecado da carne – e se foi esse o seu número – ao qual se seguiu uma verdadeira contrição e justa reparação, a vida pode seguir adiante, quando o pecado é do coração – como é a idolatria do dinheiro – é difícil arrancar as suas raízes da alma. Quando os dois pecados andam juntos, Kyrie eleison!
            Na primeira leitura deste Domingo, o sacerdote de Betel diz ao profeta Amós: «Vai-te daqui, vidente. Foge para a terra de Judá. Aí ganharás o pão com as tuas profecias. Mas não continues a profetizar aqui em Betel, que é o santuário real, o templo do reino» (7,12). O curioso, e até cómico, é que o único que ganhava a vida com a religião era o sacerdote de Betel, Amasias, enquanto Amós, para ser profeta, abandonou, por ordem de Deus, a sua profissão e perdeu o seu emprego de pastor e hortelão…
Não é por acaso que, ao enviar os doze apóstolos a evangelizar, «Jesus ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro; que fossem calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas» (Mc 6,8-9). A que se deve um tal rigorismo de Jesus? Ele quer evitar, por todos os meios, que os discípulos coloquem a sua segurança nos bens materiais: anunciar o Evangelho é uma missão de alto risco e o único seguro é a Caixa da Providência do Pai Celeste. O evangelho de Mateus (10,10; também Lc 10,7 faz a mesma afirmação mas um pouco deslocada para outro contexto) acrescentou nesta mesma linha «não leveis prata nem ouro […] nem duas túnicas porque o trabalhador merece o seu salário», isto é, sanciona a generosidade dos destinatários que proverão, em nome de Deus, ao necessário para os apóstolos mas não deixa de repreender a confiança nas próprias forças e na auto-defesa ao proibir que levem o cajado (Mt 10,6).
Apesar das acusações que muitas vezes se fazem injustamente à Igreja de que é muito rica e pouco solidária (como se devesse vender todos os bens das comunidades acumulados ao longo da história, que são de acesso e fruição públicas em muitas igrejas e museus, para os dar em hipotéticas repartições de dinheiro que não resolveriam a pobreza nem sequer a curto-prazo ou, pior ainda, desconhecendo que a Igreja é a maior instituição humanitária do mundo), não deixa de ser verdade que há muita ostentação e desperdício de dinheiros. Desde o fogo-de-artifício queimado aos milhares nas festas populares ao carro último modelo - o melhor da freguesia - e que dá prestígio ao stand que encomendou à marca um exemplar com tantos extras… há muito que rever à luz do evangelho na relação das comunidades e seus pastores com o vil metal.
Esta é uma questão sobretudo religiosa, imperativamente espiritual, porque o dinheiro confere a ilusão do poder e da independência. Não é raro que um coração soberbo e ímpio tenha por trás uma avultada conta bancária ou uma sede insaciável de bens. A advertência do salmista (61,11) é intemporal e uma pérola de sabedoria: «se crescerem as riquezas, não lhe entregueis o coração». E nunca é de mais recordar que, na versão grega de Mt 6,24, quando Jesus afirma «não podeis servir a Deus e ao dinheiro», em vez da palavra habitual para dizer dinheiro ou riquezas em grego, (tesauroi, ploutos ou argüírion), utiliza a palavra aramaica «mammon», que muito provavelmente provém da raiz ’mn que significar «confiar», a mesma raíz donde deriva a palavra «ámen»…
Ao longo dos séculos, a literatura e arte cristãs, sobretudo na idade patrística e na época medieval, transformaram o substantivo mammon, dinheiro, numa personagem, o deus mammon. Santo Agostinho afirma que «ser escravo de mammon é ser escravo daquele a quem o Senhor chama o príncipe deste mundo», isto é, o demónio (De Serm. Dom. in Monte, II,14, 47). Milton, o poeta inglês do séc. XVII, no seu Lost Paradise (I, 679), considera «mammon, o último espírito caído do céu». E até, na série Os Simpsons (da qual o jornal L’Osservatore Romano de 23 de Dezembro de 2009, sob a pena de Luca Possati, afirmou que «existe quem esboce traços de uma teologia simpsoniana» e, na edição de 17 de Outubro de 2010, o mesmo autor, citando o jesuíta Francesco Occheta, afirma que «Bart e Homer são católicos», mais não seja como exemplo negativo…), a luxuosa mansão do grande magnata e avaro Mr. Burns fica no n.º 1000 da rua chamada, eloquentemente, Mammon Street.

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