(Da série Os Simpsons,1ª
temporada, 4 episódio)
O concubinato religião-dinheiro
Desde os primórdios
da história, a relação dos homens com a divindade se estabeleceu em termos
comerciais. Os sacrifícios para «aplacar» os deuses ou para «atrair a
benevolência» dos espíritos são uma constante da história das religiões e nem o
judaísmo, na sua sede de um monoteísmo puro, conseguiu escapar aos
antropomorfismos que convertem a Deus num ser com quem convém estar «de boas
relações», nem o cristianismo, apesar do exemplo de pobreza de Jesus e seus
discípulos conseguiu evitar uma forma de institucionalização que promove, não
raro, uma verdadeira «lista de preços» nos «serviços» que presta.
Não
sejamos puritanos: não há mal nenhum em que as comunidades e seus pastores
tenham uma saúde económica que lhes permita realizar o seu ministério sem
exageradas preocupações materiais nem devem permanecer em condições de penúria
apenas para aparentar uma «configuração a Cristo pobre». Existe, porém, um
limite de decência, que impõe o senso comum, entre uma dignidade alegre e um
luxo desmesurado. Sempre ouvi dizer que o povo perdoa mais facilmente um padre
que prevaricou no celibato do que um padre ganancioso. E tem lógica – mesmo se
nenhuma das faltas tem justificação – porque depois de um pecado da carne – e
se foi esse o seu número – ao qual se seguiu uma verdadeira contrição e justa
reparação, a vida pode seguir adiante, quando o pecado é do coração – como é a
idolatria do dinheiro – é difícil arrancar as suas raízes da alma. Quando os
dois pecados andam juntos, Kyrie eleison!
Na
primeira leitura deste Domingo, o sacerdote de Betel diz ao profeta Amós: «Vai-te
daqui, vidente. Foge para a terra de Judá. Aí ganharás o pão com as tuas
profecias. Mas não continues a profetizar aqui em Betel, que é o santuário
real, o templo do reino» (7,12). O curioso, e até cómico, é que o único que
ganhava a vida com a religião era o sacerdote de Betel, Amasias, enquanto Amós,
para ser profeta, abandonou, por ordem de Deus, a sua profissão e perdeu o seu
emprego de pastor e hortelão…
Não é por acaso
que, ao enviar os doze apóstolos a evangelizar, «Jesus ordenou-lhes que nada
levassem para o caminho, a não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro;
que fossem calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas» (Mc 6,8-9). A
que se deve um tal rigorismo de Jesus? Ele quer evitar, por todos os meios, que
os discípulos coloquem a sua segurança nos bens materiais: anunciar o Evangelho
é uma missão de alto risco e o único seguro é a Caixa da Providência do Pai Celeste.
O evangelho de Mateus (10,10; também Lc 10,7 faz a mesma afirmação mas um pouco
deslocada para outro contexto) acrescentou nesta mesma linha «não leveis prata
nem ouro […] nem duas túnicas porque o trabalhador merece o seu salário», isto
é, sanciona a generosidade dos destinatários que proverão, em nome de Deus, ao
necessário para os apóstolos mas não deixa de repreender a confiança nas
próprias forças e na auto-defesa ao proibir que levem o cajado (Mt 10,6).
Apesar das acusações
que muitas vezes se fazem injustamente à Igreja de que é muito rica e pouco
solidária (como se devesse vender todos os bens das comunidades acumulados ao
longo da história, que são de acesso e fruição públicas em muitas igrejas e
museus, para os dar em hipotéticas repartições de dinheiro que não resolveriam
a pobreza nem sequer a curto-prazo ou, pior ainda, desconhecendo que a Igreja é
a maior instituição humanitária do mundo), não deixa de ser verdade que há
muita ostentação e desperdício de dinheiros. Desde o fogo-de-artifício queimado
aos milhares nas festas populares ao carro último modelo - o melhor da
freguesia - e que dá prestígio ao stand que encomendou à marca um exemplar com
tantos extras… há muito que rever à luz do evangelho na relação das comunidades
e seus pastores com o vil metal.
Esta é uma questão
sobretudo religiosa, imperativamente espiritual, porque o dinheiro confere a
ilusão do poder e da independência. Não é raro que um coração soberbo e ímpio
tenha por trás uma avultada conta bancária ou uma sede insaciável de bens. A
advertência do salmista (61,11) é intemporal e uma pérola de sabedoria: «se
crescerem as riquezas, não lhe entregueis o coração». E nunca é de mais
recordar que, na versão grega de Mt 6,24, quando Jesus afirma «não podeis
servir a Deus e ao dinheiro», em vez da palavra habitual para dizer dinheiro ou
riquezas em grego, (tesauroi, ploutos ou
argüírion), utiliza a palavra aramaica «mammon», que muito provavelmente provém
da raiz ’mn que significar «confiar», a mesma raíz donde deriva a palavra «ámen»…
Ao longo dos
séculos, a literatura e arte cristãs, sobretudo na idade patrística e na época
medieval, transformaram o substantivo mammon,
dinheiro, numa personagem, o deus mammon.
Santo Agostinho afirma que «ser escravo de mammon
é ser escravo daquele a quem o Senhor chama o príncipe deste mundo», isto é, o
demónio (De Serm. Dom. in
Monte, II,14, 47). Milton, o poeta inglês do séc. XVII, no seu Lost Paradise (I, 679), considera «mammon, o último espírito caído do céu».
E até, na série Os Simpsons (da qual o
jornal L’Osservatore Romano de 23 de
Dezembro de 2009, sob a pena de Luca
Possati, afirmou que «existe quem esboce traços de uma teologia
simpsoniana» e, na edição de 17 de Outubro de 2010, o mesmo autor, citando o
jesuíta Francesco Occheta, afirma que «Bart e Homer são católicos», mais não
seja como exemplo negativo…), a luxuosa mansão do grande magnata e avaro Mr. Burns fica no n.º 1000 da rua
chamada, eloquentemente, Mammon Street.
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