domingo, 2 de novembro de 2014

Morrer sem morrer


            Convivem nas Sagradas Escrituras duas visões contrastantes sobre a vida depois da morte. No Antigo Testamento, a perspectiva de um futuro após a morte está ausente da maior parte dos livros; apenas nalguns textos sapienciais (por ex., Sabedoria) e tardios ( Daniel; 2Macabeus) encontramos uma fé embrionária na resurreição. Esta é, aliás, uma prova da grandiosidade da fé do povo da Antiga Aliança que procurava amar e obedecer a Deus sem esperar nenhuma recompensa ou justiça após a morte. Este é também um dos motivos pelos quais S. Kierkergaard[1] admirava profundamente a disponibilidade de Abraão para o sacríficio de Isaac: ele não esperava nenhum reencontro com o filho após a morte.
É nos Salmos que o grito de dor e fracasso experimentados com a perspectiva ou realidade da morte vai mais alto: «vê que morrem os sábios igualmente que os ignorantes e deixam a outros as suas riquezas» (Sl 49, 11); «Que vantagem tiras da minha descida à sepultura? Porventura, poderá o pó louvar-te?» (Sl 30,10); «No sepulcro, ninguém se lembrará de ti; na mansão dos mortos, quem te louvará?» (Sl 6,6); «Acaso farás prodígios para os mortos? Irão os defuntos levantar-se para te louvar? Poderá a tua bondade ser exaltada na mansão dos mortos? As tuas maravilhas serão conhecidas nas trevas e a tua justiça, na terra do esquecimento?» (Sl 88,11-13). Também Isaías regista palavras pesadíssimas: «Para quem desce ao túmulo, acaba a esperança na vossa fidelidade. Só os vivos podem louvar-Vos, como eu Vos louvo hoje» (Is 38,18-19).
            Reflectindo sobre esta ausência de fé na vida eterna por parte de Israel, o famoso escritor inglês C.S.Lewis colocava a questão “porquê Deus atrasou tanto este aspecto da revelação?”[2]. E responde dizendo que a fé na vida depois da morte pode coexistir com a ausência de fé em Deus e Ele não queria isso para o seu povo. Tem razão. Já os egípcios conheciam um exagerado culto dos mortos que convivia com o politeísmo e que menosprezava a vida presente. Na Grécia, o Hades ou morada dos mortos era um reino de sombras decadentes e, para Homero, os espíritos eram imbecis. No Budismo, a fé na reencarnação até ao nirvana não implica fé alguma na existência de Deus e, no caso do Hinduísmo, trata-se de uma multidão de deuses.
            Assim pouco a pouco, a revelação judaico-cristã fez-se caminho para a fé numa vida além da morte que é habitada, não é uma pseudo-existência mas um verdadeiro ser em Deus, no seio de Deus. E assim chegamos ao paradoxo afirmado por Jesus: «Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá» (Jo 11,25). E, ainda, “Deus é Deus de vivos e não de mortos porque para Ele todos vivem” (Lc 20,38). Esta é a grande notícia do cristianismo: morrer sem morrer. Não retira nada à tragicidade da morte, não ignora a dor e o sofrimento, mas garante que a última palavra pertence a Deus. A morte não é total e definitiva: «Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Sejam dadas graças a Deus que nos dá a vitória por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo». (1 Cor 15,55.57)
            Os nossos amados, familiares e amigos, estão em Deus. E é n’Ele que um dia os reencontraremos. «Disse-lhe Jesus: «Eu sou a Ressurreição e a Vida. Crês nisto?» Marta respondeu-lhe: «Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és o Cristo» (Jo 11,25.26.27).


[1] S. Kierkergaard, Timore e Tremore, 18.
[2] Reflexiones sobre los Salmos, 59. C.S.Lewis é autor, entre outras obras, de “As Crónicas de Nárnia”.

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