Convivem
nas Sagradas Escrituras duas visões contrastantes sobre a vida depois da morte.
No Antigo Testamento, a perspectiva de um futuro após a morte está ausente da
maior parte dos livros; apenas nalguns textos sapienciais (por ex., Sabedoria) e
tardios ( Daniel; 2Macabeus) encontramos uma fé embrionária na resurreição. Esta é,
aliás, uma prova da grandiosidade da fé do povo da Antiga Aliança que procurava
amar e obedecer a Deus sem esperar nenhuma recompensa ou justiça após a morte. Este
é também um dos motivos pelos quais S. Kierkergaard[1] admirava profundamente a
disponibilidade de Abraão para o sacríficio de Isaac: ele não esperava nenhum
reencontro com o filho após a morte.
É nos Salmos
que o grito de dor e fracasso experimentados com a perspectiva ou realidade da
morte vai mais alto: «vê que morrem os sábios igualmente que os ignorantes e
deixam a outros as suas riquezas» (Sl 49, 11); «Que vantagem tiras da minha
descida à sepultura? Porventura, poderá o pó louvar-te?» (Sl 30,10); «No
sepulcro, ninguém se lembrará de ti; na mansão dos mortos, quem te louvará?» (Sl
6,6); «Acaso farás prodígios para os mortos? Irão os defuntos levantar-se para
te louvar? Poderá a tua bondade ser exaltada na mansão dos mortos? As tuas
maravilhas serão conhecidas nas trevas e a tua justiça, na terra do esquecimento?»
(Sl 88,11-13). Também Isaías regista palavras pesadíssimas: «Para quem desce ao
túmulo, acaba a esperança na vossa fidelidade. Só os vivos podem louvar-Vos,
como eu Vos louvo hoje» (Is 38,18-19).
Reflectindo
sobre esta ausência de fé na vida eterna por parte de Israel, o famoso escritor
inglês C.S.Lewis colocava a questão “porquê Deus atrasou tanto este aspecto da
revelação?”[2]. E
responde dizendo que a fé na vida depois da morte pode coexistir com a ausência
de fé em Deus e Ele não queria isso para o seu povo. Tem razão. Já os egípcios
conheciam um exagerado culto dos mortos que convivia com o politeísmo e que menosprezava
a vida presente. Na Grécia, o Hades ou morada dos mortos era um reino de
sombras decadentes e, para Homero, os espíritos eram imbecis. No Budismo, a fé
na reencarnação até ao nirvana não implica fé alguma na existência de Deus e,
no caso do Hinduísmo, trata-se de uma multidão de deuses.
Assim
pouco a pouco, a revelação judaico-cristã fez-se caminho para a fé numa vida
além da morte que é habitada, não é uma pseudo-existência mas um verdadeiro ser
em Deus, no seio de Deus. E assim chegamos ao paradoxo afirmado por Jesus: «Quem
crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá» (Jo 11,25). E, ainda, “Deus é Deus
de vivos e não de mortos porque para Ele todos vivem” (Lc 20,38). Esta é a
grande notícia do cristianismo: morrer sem morrer. Não retira nada à
tragicidade da morte, não ignora a dor e o sofrimento, mas garante que a última
palavra pertence a Deus. A morte não é total e definitiva: «Onde está, ó morte,
a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Sejam dadas graças a Deus
que nos dá a vitória por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo». (1 Cor 15,55.57)
Os
nossos amados, familiares e amigos, estão em Deus. E é n’Ele que um dia os reencontraremos.
«Disse-lhe Jesus: «Eu sou a Ressurreição e a Vida. Crês nisto?» Marta respondeu-lhe:
«Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és o Cristo» (Jo 11,25.26.27).
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