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O Bom Pastor, Catacumbas de Priscila-Roma, séc. III |
IV Domingo da Páscoa - B
Lamento dizê-lo de rompante mas
essas traduções bucólicas e estéticas são um aproveitamento e um abuso da Palavra da Escritura. Sei bem que o termo grego kalos significa tanto bom
como belo mas apenas enquanto a condição “boa” implica também uma
condição de plenitude e, só neste sentido, de beleza. Para exprimir a ideia de “belo”
em termos de aparência ou hamornia existia, no grego, o termo horaios e,
no hebraico, yafe’ e na‘im. Mas se dúvidas houver leia-se o que, a
este respeito, escreveu G. Ravasi[1].
Jesus é o Bom Pastor por
contraposição ao “mau” pastor, não ao pastor “feio”. Aliás, o Evangelho
apresenta, como contrário ao Bom Pastor, precisamente o mercenário ou, pelo
menos, o assalariado. Para compreender o significado do pastor no Antigo
Testamento e na época de Jesus, não influenciados pelo naturalismo e o romantismo
europeus dos sécs. XVIII-XIX, é suficiente ler Amós 3,12 ou o discurso de David
em 1 Sam 17,34-35, onde relata a coragem e o zelo do jovem pastor que “quando vinha
um leão ou um urso roubar uma ovelha do rebanho, o perseguia e o matava,
tirando-lhe a ovelha da boca». Por outras palavras, o pastor mostrava quão bom
era diante de um lobo, um leão ou um urso; não diante dum espelho.
Ao fim de contas, as ovelhas e o
pastor são mutuamente dependentes em ordem à sobrevivência. As ovelhas
necessitam do pastor que as guia aos pastos, as protege dos perigos e as cura
nas doenças ou feridas. O pastor vive dos produtos das ovelhas: do leite, da lã
e até em ocasiões da sua carne.
De facto, no Oriente antigo a
metáfora do pastor era muito usada pelos governantes (leia-se, por ex., a duríssima invectiva de Ez 34 contra os pastores de Israel...). Presentando-se como “pastores
do povo” exprimiam o seu direito de dispor da vida do seu “rebanho”. Por outras
palavras, os “pastores do povo” viviam à custa de tosquiar e comer o rebanho. Mas
é bem sabido que os pastores irresponsáveis, que não sabem regular quanto tiram
das ovelhas, dizimam o rebanho.
Jesus é, por isso, o Pastor bom. Bom
porque não mata mas dá vida às suas ovelhas; mais ainda, dá a Sua vida pelas
ovelhas. Todo o texto de João (10,11-18) proclamado neste Domingo exprime essa
acção benévola e misericordiosa de Jesus pelo seu rebanho ao qual vivifica e o une uma intimidade que se torna palpável no reconhecimento da voz:
“eu conheço as minhas ovelhas e elas conhecem-me (…) tenho ainda outra ovelhas…
elas ouvirão a minha voz”.
Compreende-se, pois, o fascínio dos primeiros cristãos por esta imagem tão significativa e repetida nos frescos das catacumbas e esculpida nos túmulos paleo-cristãos. De facto, a apresentação de Jesus como o Bom
Pastor é uma declaração de amor. Por outras palavras, Jesus está a dizer: “à
hora de escolher entre salvar a minha vida ou a tua, prefiro salvar a tua
porque sem ti não quero nem sei nem posso viver”.
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