domingo, 26 de abril de 2015

Jesus não é o “Belo” Pastor

O Bom Pastor, Catacumbas de Priscila-Roma, séc. III

IV Domingo da Páscoa - B

            Lamento dizê-lo de rompante mas essas traduções bucólicas e estéticas são um aproveitamento e um abuso da Palavra da Escritura. Sei bem que o termo grego kalos significa tanto bom como belo mas apenas enquanto a condição “boa” implica também uma condição de plenitude e, só neste sentido, de beleza. Para exprimir a ideia de “belo” em termos de aparência ou hamornia existia, no grego, o termo horaios e, no hebraico, yafe’ e na‘im. Mas se dúvidas houver leia-se o que, a este respeito, escreveu G. Ravasi[1].
            Jesus é o Bom Pastor por contraposição ao “mau” pastor, não ao pastor “feio”. Aliás, o Evangelho apresenta, como contrário ao Bom Pastor, precisamente o mercenário ou, pelo menos, o assalariado. Para compreender o significado do pastor no Antigo Testamento e na época de Jesus, não influenciados pelo naturalismo e o romantismo europeus dos sécs. XVIII-XIX, é suficiente ler Amós 3,12 ou o discurso de David em 1 Sam 17,34-35, onde relata a coragem e o zelo do jovem pastor que “quando vinha um leão ou um urso roubar uma ovelha do rebanho, o perseguia e o matava, tirando-lhe a ovelha da boca». Por outras palavras, o pastor mostrava quão bom era diante de um lobo, um leão ou um urso; não diante dum espelho.
            Ao fim de contas, as ovelhas e o pastor são mutuamente dependentes em ordem à sobrevivência. As ovelhas necessitam do pastor que as guia aos pastos, as protege dos perigos e as cura nas doenças ou feridas. O pastor vive dos produtos das ovelhas: do leite, da lã e até em ocasiões da sua carne.
            De facto, no Oriente antigo a metáfora do pastor era muito usada pelos governantes (leia-se, por ex., a duríssima invectiva de Ez 34 contra os pastores de Israel...). Presentando-se como “pastores do povo” exprimiam o seu direito de dispor da vida do seu “rebanho”. Por outras palavras, os “pastores do povo” viviam à custa de tosquiar e comer o rebanho. Mas é bem sabido que os pastores irresponsáveis, que não sabem regular quanto tiram das ovelhas, dizimam o rebanho.
            Jesus é, por isso, o Pastor bom. Bom porque não mata mas dá vida às suas ovelhas; mais ainda, dá a Sua vida pelas ovelhas. Todo o texto de João (10,11-18) proclamado neste Domingo exprime essa acção benévola e misericordiosa de Jesus pelo seu rebanho ao qual vivifica e o une uma intimidade que se torna palpável no reconhecimento da voz: “eu conheço as minhas ovelhas e elas conhecem-me (…) tenho ainda outra ovelhas… elas ouvirão a minha voz”.
         Compreende-se, pois, o fascínio dos primeiros cristãos por esta imagem tão significativa e repetida nos frescos das catacumbas e esculpida nos túmulos paleo-cristãos. De facto, a apresentação de Jesus como o Bom Pastor é uma declaração de amor. Por outras palavras, Jesus está a dizer: “à hora de escolher entre salvar a minha vida ou a tua, prefiro salvar a tua porque sem ti não quero nem sei nem posso viver”.



[1] G. RAVASI- M.I. RUPNIK, Il fascino del belo, p. 10.

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