domingo, 19 de abril de 2015

Na Ressurreição final, conservaremos as nossas chagas

III Domingo de Páscoa – B
19.04.2015

Giuseppe Artioli, Natureza Morta, 1785 

            Mas já não serão sangrentas. Estarão aí, nas mãos e nos pés, no costado, na cabeça e em tantas outras partes do corpo conforme a história de vida de cada um/a. E é precisamente por isto que estarão aí: porque enquanto os beijos ficam gravados na memória, as chagas ficam gravadas na carne. Essa mesma carne regista a nossa história e, na ressurreição final, ressuscitaremos não como uma “entidade espiritual”, “psicológica” ou “mental” mas como “corpo e alma”, isto é, completos, com toda a nossa história pessoal, com mais ou menos cicatrizes, mas certamente curados e por inteiro. Por isso, rezamos no credo “creio na ressurreição da carne”.
            Os discípulos duvidavam se Aquele que se apresentou no meio deles era Jesus (Lc 24,35-48). Não admira, pois, que os nossos contemporâneos e nós mesmos tenhamos dificuldades em aceitar a ressurreição. A notícia é tão extraordinária que, mesmo diante do Ressuscitado, os discípulos mantinham as suas reservas! “Espantados e cheios de medo, julgavam ver um espírito”. Ora o sinal, a “carta de apresentação” do Ressuscitado foram as suas chagas: “vede as minhas mãos e os meus pés; sou Eu mesmo; tocai-me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho”. Com Tomé, Jesus foi mais longe: “Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente” (Jo 20,27). O Evangelho não o diz e, por isso, não sabemos se Tomé meteu ou não a mão no lado de Cristo. Eu teria...
            Para dizer a verdade, a “carta de apresentação” do Ressuscitado tinha uma segunda página: a refeição. Lucas (22,41-43) escreve ainda que «como eles, na sua alegria e admiração não queriam acreditar, perguntou-lhes: “Tendes aí alguma coisa para comer?”. Deram-lhe uma posta de peixe assado que Ele tomou e começou a comer diante deles». Certamente a intenção de Jesus (e do evangelista Lucas cujo v. 40, “dito isto mostrou-lhes as mãos e os pés” era uma repetição enfática, aliás ausente em vários manuscritos importantes) era insistir sobre a realidade corporal (factual, não fantasmagórica ou imaginativa) da Sua presença no meio deles. Mas a refeição tem uma segunda valência: exprime a intimidade. O Ressuscitado mantém (e plenifica!) a comunhão íntima com os Seus. É sabida a importância que a comensalidade tem no evangelho de Lucas onde quase parece que Jesus prega e se move no intervalo entre as refeições… Pois bem, o Ressuscitado continua a partilhar esse gesto profundo de familiaridade, amizade, vizinhança, o gesto mais eloquente da proximidade entre duas pessoas. Um detalhe curioso encontra-se na versão latina de Jerónimo (a Vulgata) onde o v. 43 continua assim: “reliquias dedit eis”, isto é, “e deu-lhes o restos”. É, certamente, mais uma enfatização da corporalidade mas  o detalhe é eloquente e permita-se-me ir talvez demasiado longe, quase ao limite do cómico (ou não). “Dar os restos” não quer dizer simplesmente devolver as espinhas. Aceitar os restos do prato de alguém… é um gesto que denota um grau de cumplicidade amorosa que raramente vai além de pais e filhos ou marido e mulher. E mais não é preciso dizer. Note-se apenas que, para exprimir a dor e identificar a traição de Judas, Jesus diz: “é aquele que mete comigo a mão no prato”[1].
            Portanto, não sabemos tudo sobre o Ressuscitado e sobre o corpo da ressurreição que Paulo (1 Cor 15,44) diz não ser “psíquico” mas “pneumático” (que talvez significa não propriamente “espiritual” mas “do Espírito” [Santo]). Mas sabemos suficiente. Conservaremos uma memória redimida da nossa história pessoal e uma intimidade ainda superior com os outros. Como aquela que experimentamos com Jesus, já sobre esta terra, na Eucaristia e na Palavra.




[1] Cfr. Mc 14,20; Mt 26,23; o sentido talvez seja o de “travessa” pois Lucas diz “na mesa” em 22,21.

1 comentário:

  1. Olá, caro Pablo! Como é esse tempo pascal aí por Bose? No título, talvez quisesses "aggiornare" para III Domingo de Páscoa. Obrigado pelas tuas reflexões, abraço!

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