quarta-feira, 8 de abril de 2015

Não existe o Evangelho da ressurreição mas do Ressuscitado


expressão “evangelho da ressurreição” é equívoca pois, enquanto “relatos”, os evangelhos não nos dizem nada sobre a ressurreição mas contam-nos a experiência que os discípulos fizeram do Ressuscitado. Ocorre quase como numa série televisiva da qual, tendo perdido um episódio, pode-se reconstruir a trama a partir dos eventos sucessivos. Não sabemos como aconteceu a Ressurreição mas sabemos o que se passou a seguir. A este respeito, o Precónio Pascal é muito rico e sugestivo: “oh noite bendita, única a ter conhecimento do tempo e da hora em que Cristo ressuscitou do sepulcro!”
A razão deste silêncio evangélico sobre a ressurreição encontra-se nos limites da nossa linguagem: há realidades para as quais as palavras ficam curtas ou mesmo totalmente incapazes de expressão. Quantas vezes dissemos para nós mesmos: “não sei o que dizer, não encontro as palavras…”. Não é que não “saibamos”; é que, na verdade, não “podemos” dizer coisa alguma. Somos áfonos. E resta, pois, permanecer calados, à escuta. A isso o Oriente chamou teologia “apofática”; entre nós, é habitual traduzir-se por teologia “negativa”, isto é “não podemos falar sobre o que Deus é”, ou, ainda, “de Deus acertamos mais a dizer o que Ele não é”. Isto aplica-se de modo particular à ressurreição.
Olhando para o “episódio seguinte”, para o “depois” da ressurreição, encontramos os seus efeitos. Não me refiro às “provas” clássicas da ressurreição: o túmulo vazio, as ligaduras e o sudário, o terramoto, as chagas e as aparições… Dessas ao que parece já S. Tomás de Aquino dizia “non sunt probationes sed signa”: não são provas, são sinais. A ressurreição é, na verdade, um acontecimento improvável no duplo sentido do termo: algo que, humanamente, não é de esperar que aconteça e, acontecendo, não se pode provar humanamente a sua veracidade. E isso porque é a ressurreição não é histórica mas antes meta-histórica: isto é, ultrapassa os limites do tempo e do espaço (“o tempo e a hora…”) da forma como os conhecemos.
Os efeitos da ressurreição – tal como surgem nas leituras deste II Domingo de Páscoa em Act 4,32-35; 1 Jo 5,1-6 e Jo 20,19-31 – são económicos, sociais, políticos, psicológicos e espirituais. De facto, a comunidade cristã instaurou uma nova rede de relações onde “tudo era comum” e “entre eles não havia qualquer necessitado”; havia “um só coração e uma só alma” e “gozavam todos de grande simpatia”; o medo transformou-se e “davam testemunho da ressurreição com grande poder”; tornaram-se “vencedores do mundo” pela “vitória que é a fé”; e, sobretudo, o Ressuscitado no meio dos seus discípulos derramou sobre eles, sobre a Igreja, sobre o mundo, sobre nós a paz e a reconciliação, o Espírito Santo, e a incredulidade amadureceu numa fé humilde e profunda.
Talvez, entre nós, no Minho, seria necessário acrescentar às provas/sinais da ressurreição o som das campainhas no Domingo e Segunda-feira de Páscoa. Apenas quem vive uma fé esquizofrénica pode considerar que estas manifestações não são provas de uma fé simples e alegre, mesmo entre os doces e o vinho branco. Mas o mundo tem sede todo o ano – como escreve S. João – “da água e do sangue” que brotaram do lado de Cristo. Ao calar-se as campainhas, os cristãos deveriam continuar a “fazer barulho”, dar testemunho da ressurreição “com poder”, com uma vida ao jeito do Ressuscitado pois “o amor de Deus consiste em guardar os mandamentos” (1 Jo 5,2).

Uma experiência anedótica…

Após o jejum da música, do rádio, da tv… a que nos obrigamos os cristãos desde a tarde de quinta-feira santa até após a Vigília pascal, tive um momento cómico. Tinha presidido à Vigília numa paróquia onde os jovens tiveram um papel muito activo, houve um baptismo de adultos a que presidiu o pároco, foi uma celebração muito festiva e solene… ora ao regressar de carro, liguei o rádio e escutei, de novo, as palavras do Precónio: “esta noite santa restitui a inocência / esta chama reparte o seu esplendor e não diminui a sua luz / dissipa as trevas da noite e subindo para Vós se junta às estrelas do céu”. É claro que não era a melodia gregoriana nem as palavras do Missal, era a canção dos FUN: “tonight / we are young / so let’s set the world on fire / we can burn brighter than the sun”…


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