A expressão “evangelho da ressurreição” é equívoca pois, enquanto “relatos”, os evangelhos não nos dizem nada sobre a ressurreição mas contam-nos a experiência que os discípulos fizeram do Ressuscitado. Ocorre quase como numa série televisiva da qual, tendo perdido um episódio, pode-se reconstruir a trama a partir dos eventos sucessivos. Não sabemos como aconteceu a Ressurreição mas sabemos o que se passou a seguir. A este respeito, o Precónio Pascal é muito rico e sugestivo: “oh noite bendita, única a ter conhecimento do tempo e da hora em que Cristo ressuscitou do sepulcro!”
A razão deste silêncio evangélico sobre a ressurreição encontra-se nos limites da nossa linguagem: há realidades para as quais as palavras ficam curtas ou mesmo totalmente incapazes de expressão. Quantas vezes dissemos para nós mesmos: “não sei o que dizer, não encontro as palavras…”. Não é que não “saibamos”; é que, na verdade, não “podemos” dizer coisa alguma. Somos áfonos. E resta, pois, permanecer calados, à escuta. A isso o Oriente chamou teologia “apofática”; entre nós, é habitual traduzir-se por teologia “negativa”, isto é “não podemos falar sobre o que Deus é”, ou, ainda, “de Deus acertamos mais a dizer o que Ele não é”. Isto aplica-se de modo particular à ressurreição.
Olhando para o
“episódio seguinte”, para o “depois” da ressurreição, encontramos os seus
efeitos. Não me refiro às “provas” clássicas da ressurreição: o túmulo vazio,
as ligaduras e o sudário, o terramoto, as chagas e as aparições… Dessas ao que
parece já S. Tomás de Aquino dizia “non sunt probationes sed signa”: não são
provas, são sinais. A ressurreição é, na verdade, um acontecimento improvável
no duplo sentido do termo: algo que, humanamente, não é de esperar que aconteça
e, acontecendo, não se pode provar humanamente a sua veracidade. E isso porque é
a ressurreição não é histórica mas antes meta-histórica: isto é,
ultrapassa os limites do tempo e do espaço (“o tempo e a hora…”) da forma como
os conhecemos.
Os efeitos da
ressurreição – tal como surgem nas leituras deste II Domingo de Páscoa em Act
4,32-35; 1 Jo 5,1-6 e Jo 20,19-31 – são económicos, sociais, políticos,
psicológicos e espirituais. De facto, a comunidade cristã instaurou uma nova rede
de relações onde “tudo era comum” e “entre eles não havia qualquer necessitado”;
havia “um só coração e uma só alma” e “gozavam todos de grande simpatia”; o
medo transformou-se e “davam testemunho da ressurreição com grande poder”;
tornaram-se “vencedores do mundo” pela “vitória que é a fé”; e, sobretudo, o Ressuscitado
no meio dos seus discípulos derramou sobre eles, sobre a Igreja, sobre o mundo,
sobre nós a paz e a reconciliação, o Espírito Santo, e a incredulidade
amadureceu numa fé humilde e profunda.
Talvez, entre
nós, no Minho, seria necessário acrescentar às provas/sinais da ressurreição o
som das campainhas no Domingo e Segunda-feira de Páscoa. Apenas quem vive uma
fé esquizofrénica pode considerar que estas manifestações não são provas de uma
fé simples e alegre, mesmo entre os doces e o vinho branco. Mas o mundo tem
sede todo o ano – como escreve S. João – “da água e do sangue” que brotaram do
lado de Cristo. Ao calar-se as campainhas, os cristãos deveriam continuar a “fazer
barulho”, dar testemunho da ressurreição “com poder”, com uma vida ao jeito do
Ressuscitado pois “o amor de Deus consiste em guardar os mandamentos” (1 Jo
5,2).
Uma experiência
anedótica…
Após o jejum da
música, do rádio, da tv… a que nos obrigamos os cristãos desde a tarde de
quinta-feira santa até após a Vigília pascal, tive um momento cómico. Tinha
presidido à Vigília numa paróquia onde os jovens tiveram um papel muito activo,
houve um baptismo de adultos a que presidiu o pároco, foi uma celebração muito
festiva e solene… ora ao regressar de carro, liguei o rádio e escutei, de novo,
as palavras do Precónio: “esta noite santa restitui a inocência / esta chama
reparte o seu esplendor e não diminui a sua luz / dissipa as trevas da noite e
subindo para Vós se junta às estrelas do céu”. É claro que não era a melodia gregoriana nem as
palavras do Missal, era a canção dos FUN: “tonight / we are young / so let’s
set the world on fire / we can burn brighter than the sun”…
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