VI Páscoa – B
10 de Maio de 2015
Jo 15,9-17
É
possível “legislar” o amor? É possível exigir ou obrigar a amar alguém? Se
levarmos a sério as palavras de Jesus no Evangelho e o testemunho de tantos
homens e mulheres ao longo dos séculos, a resposta só pode ser positiva. «É
este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amo»
(Jo 15,12).
É
claro que não se trata de um amor “pobre”, de baixo nível, que se limita às
boas maneiras ou a um “egoísmo a dois” mas do amor pela “medida alta da Cruz”,
amor a alto preço. Jesus esclarece como devemos amar e vai além do mandamento
do Levítico (19,18): “amarás o teu próximo como a ti mesmo” que já tinha
explicado ao doutor da Lei através da parábola do bom samaritano (Lc 10,25-37).
Já não diz “como a ti mesmo” mas “como Eu vos amo”. A expressão é normalmente
traduzida em passado (e é justo porque se trata de um aoristo) mas o sentido é
de um gesto que continua, inacabado, tal como a afirmação de Jesus “assim como
o Pai me amou, também Eu vos amei” (15,9), não significa que o Pai deixou de
amar Jesus nem quem Jesus deixou de amar-nos. São frases proferidas durante a
Última Ceia; é, pois, o contexto da morte iminente que pauta o tempo verbal mas
não limita a realidade. Trata-se, pois, de um amor que segue o exemplo de Jesus
na forma e na duração, isto é, infinito.
Ora
o amor não é apenas um sentimento; é uma síntese entre a inteligência, o
sentimento e a vontade. É clássica a distinção cristã entre eros ou amor
natural, philia ou amizade e ágape ou amor humano-divino
(leia-se, a este propósito, “A arte de amar” de Eric Fromm ou a Encíclica “Deus
caritas est” de Bento XVI). O mandamento do amor é, pois, um convite a ir
longe no alargamento do coração. Escreve assim o literato italiano Erri de Luca,
comentando o mandamento do amor em Dt 6,4-5: “forçarás os limites da tua
capacidade, aumentarás dentro de ti a produção dessa “energia limpa” que é o
amor, que arde sem consumir-se”[1].
Mas
como é possível amar os outros, os vizinhos e até os desconhecidos e os
inimigos? O facto é que não pode amar quem nunca foi amado. É uma regra básica
da psicologia: tendemos a reproduzir aquilo que já experimentamos no passado.
Por isso, muitas vezes são violentos os que antes sofreram violência e são
amáveis os que foram amados. Aqui está o segredo que aliás é o tema de toda a
1ª carta de São João: “não fomos nós que amamos a Deus, foi Ele que nos amou e
enviou o Seu Filho” (4,10) e, ainda, “nós amamos porque Deus nos amou primeiro”
(4,19). Assim já é possível amar: sabendo e sentindo e saboreando que fomos e
somos amados por Deus. "Bonum diffusivum sui est" – diziam os antigos – “o bem é expansivo”. O amor
ainda mais.
Assim já
podemos ser forçados a amar. Nas palavras de Jesus “como Eu vos amo” temos a
forma e a duração mas também a razão: “porque Eu vos amo” sois capazes de
amar-vos uns aos outros.
Escreveu
Bento XVI: “O amor ao próximo consiste precisamente no facto de que eu amo, em
Deus e com Deus, a pessoa que não me agrada ou que nem conheço sequer. Isto só
é possível realizar-se a partir do encontro íntimo com Deus (…). Então aprendo
a ver aquela pessoa já não somente com os meus olhos e sentimentos, mas segundo
a perspectiva de Jesus Cristo. O seu amigo é meu amigo” (Deus caritas est,
18).
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