sábado, 2 de abril de 2016

Tomé, tão crente como Pedro e os demais apóstolos

II Domingo da Páscoa – C
o2 de Abril de 2016
Michelangelo Merisi, "Caravaggio" (1601–1602). Sanssouci Palace, Berlim.

          A liturgia da Igreja dispõe sempre neste II Domingo de Páscoa o chamado “evangelho da aparição a Tomé” (Jo 20,19-31). Tomé é uma figura apaixonante que conhecemos mal. Dele normalmente só recordamos o “ver para crer” quando, na verdade, o evangelho de S. João (aliás, é só em S. João que Tomé fala enquanto nos Sinópticos o seu nome apenas aparece nas listas de discípulos) coloca na boca de Tomé algumas afirmações e perguntas muito importantes. Quando Jesus decide ir ao encontro do defunto Lázaro, é Tomé quem diz: “Vamos também nós, para morrermos com ele” (Jo 11,16). Eé Tomé quem faz a eloquente pergunta na Última Ceia: “Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?”, que mereceu a resposta de Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (14,5-6).
         Por isso, talvez temos interpretado muito mal a figura de Tomé, pensando que, à diferença de Pedro e dos outros dez discípulos, não acreditava na ressurreição. Para dizer a verdade, Tomé não acreditava na ressurreição do mesmo modo que Pedro não acreditava até Jesus aparecer aos discípulos na tarde do Domingo de Páscoa. De facto, João conta que Pedro entrou no sepulcro primeiro e “viu o lençol” mas não diz que “acreditou” enquanto que o outro discípulo, depois de entrar, “viu e acreditou” (Jo 20,5; Lc 24,12 diz que Pedro “viu o lençol e regressou surpreendido”).
         Então qual é a pertinência do relato de Tomé? O que nos ensina a sua pessoa e o seu encontro com o Ressuscitado? O pecado de Tomé não foi não acreditar na ressurreição – notícia surpreendente para todos! – mas não acreditar no anúncio dos outros discípulos, na Palavra pregada e, em último termo, ter-se afastado da comunidade, da Igreja. “Tomé, um dos Doze, não estava com eles quando veio Jesus” (Jo 20,24). Por isso, não viu Jesus e não recebeu o Espírito Santo. Jesus Cristo, o Ressuscitado, quis que Tomé o encontrasse unido à comunidade, não lhe apareceu quando estava sozinho. Aliás apenas Maria Magdalena (Jo 20,11-18) e S. Paulo tiveram um encontro individual com Jesus Ressuscitado (Act 9). Todos os outros discípulos – mesmo S. João e S. Pedro! – só viram o Ressuscitado junto com os outros (Jo 21).
         Esta necessidade de permanecer unido ao Corpo de Jesus que é a Igreja é sublinhada também pelo livro dos Actos (5,12): “Pela mão dos Apóstolos realizavam-se muitos prodígios. Animados pelos mesmos sentimentos, reuniam-se no Pórtico de Salomão”. Este é um dos três “sumários” ou resumos da actividade dos apóstolos nos quais é sempre sublinhada a “unidade” entre os discípulos (2,42ss; 4,32ss). Mas também o Apocalipse (que será a segunda leitura dominical durante todo o tempo pascal) testemunha as palavras de João: “No dia do Senhor, fui movido pelo Espírito” (Ap 1,10). A expressão “dia do Senhor” tem um carácter eminentemente comunitário: designa o Domingo como celebração comunitária semanal da Ressurreição de Jesus.

         Deste modo, Jesus e a Sua Palavra nos educam para o “lugar” autêntico do encontro com ele. “Felizes os que acreditam sem terem visto” (Jo 20,29), felizes porque acreditaram no que ouviram. É necessário reagir contra a tendência à desconfiança, ao individualismo, à privatização da fé e da oração. É no meio da comunidade cristã, na assembleia eucarística dominical, ouvindo a Sua Palavra, comungando o Seu Corpo e Sangue, abraçando a carne dos irmãos e irmãs que podemos fazer experiência do Ressuscitado. A fidelidade ao Corpo de Cristo que é a Igreja é a forma de manter-nos unidos a Ele.

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