II Domingo da Páscoa –
C
o2 de Abril de 2016
Por
isso, talvez temos interpretado muito mal a figura de Tomé, pensando que, à
diferença de Pedro e dos outros dez discípulos, não acreditava na ressurreição.
Para dizer a verdade, Tomé não acreditava na ressurreição do mesmo modo que
Pedro não acreditava até Jesus aparecer aos discípulos na tarde do Domingo de
Páscoa. De facto, João conta que Pedro entrou no sepulcro primeiro e “viu o
lençol” mas não diz que “acreditou” enquanto que o outro discípulo, depois de
entrar, “viu e acreditou” (Jo 20,5; Lc 24,12 diz que Pedro “viu o lençol e
regressou surpreendido”).
Então
qual é a pertinência do relato de Tomé? O que nos ensina a sua pessoa e o seu
encontro com o Ressuscitado? O pecado de Tomé não foi não acreditar na ressurreição
– notícia surpreendente para todos! – mas não acreditar no anúncio dos outros
discípulos, na Palavra pregada e, em último termo, ter-se afastado da
comunidade, da Igreja. “Tomé, um dos Doze, não estava com eles quando veio Jesus”
(Jo 20,24). Por isso, não viu Jesus e não recebeu o Espírito Santo. Jesus
Cristo, o Ressuscitado, quis que Tomé o encontrasse unido à comunidade, não lhe
apareceu quando estava sozinho. Aliás apenas Maria Magdalena (Jo 20,11-18) e S.
Paulo tiveram um encontro individual com Jesus Ressuscitado (Act 9). Todos os
outros discípulos – mesmo S. João e S. Pedro! – só viram o Ressuscitado junto
com os outros (Jo 21).
Esta
necessidade de permanecer unido ao Corpo de Jesus que é a Igreja é sublinhada
também pelo livro dos Actos (5,12): “Pela mão dos Apóstolos realizavam-se
muitos prodígios. Animados pelos mesmos sentimentos, reuniam-se no Pórtico de
Salomão”. Este é um dos três “sumários” ou resumos da actividade dos apóstolos nos
quais é sempre sublinhada a “unidade” entre os discípulos (2,42ss; 4,32ss). Mas
também o Apocalipse (que será a segunda leitura dominical durante todo o tempo
pascal) testemunha as palavras de João: “No dia do Senhor, fui movido pelo Espírito”
(Ap 1,10). A expressão “dia do Senhor” tem um carácter eminentemente
comunitário: designa o Domingo como celebração comunitária semanal da Ressurreição
de Jesus.
Deste
modo, Jesus e a Sua Palavra nos educam para o “lugar” autêntico do encontro com
ele. “Felizes os que acreditam sem terem visto” (Jo 20,29), felizes porque
acreditaram no que ouviram. É necessário reagir contra a tendência à
desconfiança, ao individualismo, à privatização da fé e da oração. É no meio da
comunidade cristã, na assembleia eucarística dominical, ouvindo a Sua Palavra,
comungando o Seu Corpo e Sangue, abraçando a carne dos irmãos e irmãs que
podemos fazer experiência do Ressuscitado. A fidelidade ao Corpo de Cristo que
é a Igreja é a forma de manter-nos unidos a Ele.
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