sábado, 9 de abril de 2016

Qual foi a pergunta?

III Páscoa C – 09 de Abril de 2016
Qual foi a pergunta?
Gustave Doré, 1866

          Não me refiro à pergunta feita a Pedro por Jesus, mas àquela feita pelo sumo sacerdote. É já sabido que Jesus perguntou (Jo 21,15-19) nas primeiras duas vezes: “Pedro, tu amas-me?” (agapás me;) e ele respondeu-lhe: “eu estimo-te” (filô se). Então, na terceira vez, provocando tristeza em Pedro, Jesus perguntou-lhe: “Pedro, tu estimas-me?” (fileis me;). A escolha dos verbos é eloquente, mas pode não ter grande significado porque, muitas vezes, no grego clássico e no grego bíblico, os verbos agapáo e fileo são equivalentes.         Por isso, reflictamos sobre uma pergunta que, na versão litúrgica portuguesa, desapareceu. O livro dos Actos (5,27-32) narra o diálogo entre o sumo sacerdote e Pedro, quando ele e os outros apóstolos foram levados à sua presença. Primeiro tinham sido metidos na prisão, mas um anjo libertou-os miraculosamente e ordenou-lhes que fossem para o templo proclamar ao povo “todas estas palavras de vida” (5,20). Então, o sinédrio ordena que sejam trazidos ao tribunal e é nesse contexto que ocorre o interrogatório. A versão litúrgica portuguesa traduz: «O sumo sacerdote falou aos Apóstolos, dizendo: “Já vos proibimos formalmente de ensinar no nome de Jesus; e vós encheis Jerusalém com a vossa doutrina e quereis fazer recair sobre nós o sangue desse homem”». Porém, o texto grego diz: «o sumo sacerdote perguntou-lhes, dizendo…: “Não vos tínhamos proibido claramente ensinar neste nome?”». Portanto a pergunta é sobre a teimosia da actividade evangelizadora de Pedro e os apóstolos. «Pedro e os Apóstolos responderam: “Deve obedecer-se antes a Deus que aos homens”». E eu creio que esta é a verdadeira resposta de Pedro à pergunta de Jesus: «Pedro, tu amas-me?». Junto ao mar de Tiberíades, a resposta de Pedro foi oral, não corroborada pelos gestos, e, por isso, foi falsa. E mereceu a correcção de Jesus. Agora, diante do sinédrio, a resposta de Pedro foi existencial, confirmada por uma vida de autêntica entrega ao Senhor.         Como cristãos, falamos demasiado. As nossas pregações parecem discursos de crianças hiperactivas. São, na maior parte, retórica e barulho; são redundantes porque são vazias, não correspondem a uma vida de autêntica sequela Christi, de seguimento do Senhor. A gente que nos ouve diz que falamos bem, mas, quando olha para o nosso “estilo” de vida, tem dificuldade em perceber qual é a diferença entre um não crente e um crente.         Por isso, não nos deixemos tentar pela resposta fácil: “Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que…”. Enquanto no nosso dia-a-dia não se cumprir a promessa “outro te cingirá e levará para onde não queres” (Jo 21,18) e a nossa teimosia evangélica não provocar incómodo (em primeiro lugar, a nós mesmos), é pouco provável que estejamos a obedecer antes a Deus que aos homens.

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