III Páscoa C – 09 de
Abril de 2016
Não me
refiro à pergunta feita a Pedro por Jesus, mas àquela feita pelo sumo
sacerdote. É já sabido que Jesus perguntou (Jo 21,15-19) nas primeiras duas
vezes: “Pedro, tu amas-me?” (agapás me;) e ele respondeu-lhe: “eu estimo-te”
(filô se). Então, na terceira vez, provocando tristeza em Pedro, Jesus perguntou-lhe:
“Pedro, tu estimas-me?” (fileis me;). A escolha dos verbos é eloquente, mas pode
não ter grande significado porque, muitas vezes, no grego clássico e no grego
bíblico, os verbos agapáo e fileo são equivalentes. Por
isso, reflictamos sobre uma pergunta que, na versão litúrgica portuguesa,
desapareceu. O livro dos Actos (5,27-32) narra o diálogo entre o sumo sacerdote
e Pedro, quando ele e os outros apóstolos foram levados à sua presença.
Primeiro tinham sido metidos na prisão, mas um anjo libertou-os miraculosamente
e ordenou-lhes que fossem para o templo proclamar ao povo “todas estas palavras
de vida” (5,20). Então, o sinédrio ordena que sejam trazidos ao tribunal e é
nesse contexto que ocorre o interrogatório. A versão litúrgica portuguesa
traduz: «O sumo sacerdote falou aos Apóstolos, dizendo: “Já vos proibimos formalmente
de ensinar no nome de Jesus; e vós encheis Jerusalém com a vossa doutrina e
quereis fazer recair sobre nós o sangue desse homem”». Porém, o texto grego diz:
«o sumo sacerdote perguntou-lhes, dizendo…: “Não vos tínhamos proibido
claramente ensinar neste nome?”». Portanto a pergunta é sobre a teimosia
da actividade evangelizadora de Pedro e os apóstolos. «Pedro e os
Apóstolos responderam: “Deve obedecer-se antes a Deus que aos homens”». E eu
creio que esta é a verdadeira resposta de Pedro à pergunta de Jesus: «Pedro, tu
amas-me?». Junto ao mar de Tiberíades, a resposta de Pedro foi oral, não corroborada
pelos gestos, e, por isso, foi falsa. E mereceu a correcção de Jesus. Agora,
diante do sinédrio, a resposta de Pedro foi existencial, confirmada por uma
vida de autêntica entrega ao Senhor. Como
cristãos, falamos demasiado. As nossas pregações parecem discursos de crianças
hiperactivas. São, na maior parte, retórica e barulho; são redundantes porque são
vazias, não correspondem a uma vida de autêntica sequela Christi, de
seguimento do Senhor. A gente que nos ouve diz que falamos bem, mas, quando
olha para o nosso “estilo” de vida, tem dificuldade em perceber qual é a
diferença entre um não crente e um crente. Por
isso, não nos deixemos tentar pela resposta fácil: “Senhor, tu sabes tudo, tu
sabes que…”. Enquanto no nosso dia-a-dia não se cumprir a promessa “outro te
cingirá e levará para onde não queres” (Jo 21,18) e a nossa teimosia evangélica
não provocar incómodo (em primeiro lugar, a nós mesmos), é pouco provável que
estejamos a obedecer antes a Deus que aos homens.
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