sábado, 16 de abril de 2016

O Cordeiro é o seu Pastor

III Páscoa – C
17 de Abril de 2016
Josefa de Óbidos (séc. XVII), "Cordeiro místico", Museu de Évora
            Gostaria de propor uma reflexão sobre o evangelho deste Domingo que fosse menos romântica e bucólica do que o habitual quando se trata do “Bom Pastor”. É comum insistir na relação de intimidade entre o Pastor e as ovelhas que conhecem a sua voz e seguem-no. E está certo, certíssimo. Mas esta é uma leitura que pode ter tanto de afectiva como de superficial (Cfr. Jesus não é o “Belo Pastor”).
A insistência e ansiedade de celebrar o “dia do pároco, bom pastor” afunila e aprisiona a palavra de Deus. E também a nossa tendência hodierna para o “intimismo” ou, melhor, para a auto-referencialidade e o individualismo fazem-nos esquecer outras dimensões do texto. Ora, num esforço de conversão, procuro olhar para elas. O texto de João deste Domingo (10,27-30) apresenta o zenit do discurso “pastoral” de Jesus. Ora o texto concentra-se progressivamente até se tornar compacto na afirmação da unidade entre o Filho e o Pai: “Ninguém arrebatará as ovelhas da minha mão” (v. 28) »»» “ninguém pode arrebatar nada da mão do Pai” (v. 29) »»» “eu e o Pai somos um só” (v. 29). Esta é a ideia central do evangelho de hoje.
Esta afirmação era e é terrivelmente escandalosa para os fiéis judeus e monoteístas em geral. Como é possível que um ser humano reivindique a unidade com Deus?! Jesus não diz, em termos gerais, “eu e Deus somos um só”. Diz muito mais do que isso! Diz “eu e o Pai somos um só”. A unidade de Jesus com Deus é a verdade natural da sua condição de Filho. Deus é Pai porque gerou o Filho. Jesus é o Unigénito não só enquanto “primeiro”, mas enquanto filho único do Pai.
Jesus reafirma só mais uma vez, nesta forma abertamente chocante, a Sua unidade com o Pai. É ainda no evangelho de João (17,11), no contexto de uma longa oração, na Última Ceia. Jesus reza: “Pai santo, que sejam um como nós”. Deste modo, a unidade do Pai e do Filho tem uma consequência enorme para nós cristãos. Pois que nós somos todos apenas “filhos adoptivos” (Ef 1,5), a nossa condição é de total fraternidade. A nossa relação vertical com o Pai e com o Filho que é Pastor opera uma relação horizontal entre todas as ovelhas. Enquanto nos salmos o fiel reza “o Senhor é meu Pastor” (Sl 23 et par.), o crente do Novo Testamento aclama “o grande Pastor das ovelhas, nosso Senhor Jesus” (Hb 13,20). Não posso dizer “meu Pastor” se não O reconheço “nosso Pastor”.

Este Pastor é tremendamente frágil. É um pastor sem cajado para reconduzir as ovelhas ao rumo certo. Conta apenas com a força da Sua voz. As minhas ovelhas escutam a minha voz” (Jo 10,27). É verdade que as ovelhas são um animal com um ouvido muito afinado para reconhecer o seu dono. Mas há outra razão pela qual as ovelhas conhecem a voz de Jesus, seu Pastor. Surge na leitura do Apocalipse (7,17): “o Cordeiro será o seu Pastor”. Uma variante do texto grego encontra-se no presente: “o Cordeiro é seu pastor (apascenta-as)”. Eis o motivo pelo qual as ovelhas conhecem a sua voz: o Pastor é o Cordeiro, o pastor é como as ovelhas, é uma delas, partilha a sua condição porque se fez mortal e humano

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