III
Páscoa – C
17
de Abril de 2016
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Josefa de Óbidos (séc. XVII), "Cordeiro místico", Museu de Évora |
Gostaria de propor uma reflexão
sobre o evangelho deste Domingo que fosse menos romântica e bucólica do que o
habitual quando se trata do “Bom Pastor”. É comum insistir na relação de
intimidade entre o Pastor e as ovelhas que conhecem a sua voz e seguem-no. E
está certo, certíssimo. Mas esta é uma leitura que pode ter tanto de afectiva
como de superficial (Cfr. Jesus não é o “Belo Pastor”).
A
insistência e ansiedade de celebrar o “dia do pároco, bom pastor” afunila e
aprisiona a palavra de Deus. E também a nossa tendência hodierna para o “intimismo”
ou, melhor, para a auto-referencialidade e o individualismo fazem-nos esquecer
outras dimensões do texto. Ora, num esforço de conversão, procuro olhar para
elas. O texto de João deste Domingo (10,27-30) apresenta o zenit do discurso
“pastoral” de Jesus. Ora o texto concentra-se progressivamente até se tornar compacto na afirmação da unidade entre o Filho e o Pai: “Ninguém arrebatará as
ovelhas da minha mão” (v. 28) »»» “ninguém pode arrebatar nada da mão do Pai” (v.
29) »»» “eu e o Pai somos um só” (v. 29). Esta é a ideia central do evangelho
de hoje.
Esta
afirmação era e é terrivelmente escandalosa para os fiéis judeus e monoteístas
em geral. Como é possível que um ser humano reivindique a unidade com Deus?! Jesus
não diz, em termos gerais, “eu e Deus somos um só”. Diz muito mais do que isso!
Diz “eu e o Pai somos um só”. A unidade de Jesus com Deus é a verdade natural
da sua condição de Filho. Deus é Pai porque gerou o Filho. Jesus é o Unigénito
não só enquanto “primeiro”, mas enquanto filho único do Pai.
Jesus
reafirma só mais uma vez, nesta forma abertamente chocante, a Sua unidade com o
Pai. É ainda no evangelho de João (17,11), no contexto de uma longa oração, na
Última Ceia. Jesus reza: “Pai santo, que sejam um como nós”. Deste modo, a
unidade do Pai e do Filho tem uma consequência enorme para nós cristãos. Pois
que nós somos todos apenas “filhos adoptivos” (Ef 1,5), a nossa condição é de
total fraternidade. A nossa relação vertical com o Pai e com o Filho que é
Pastor opera uma relação horizontal entre todas as ovelhas. Enquanto nos salmos
o fiel reza “o Senhor é meu Pastor” (Sl 23 et par.), o crente do Novo
Testamento aclama “o grande Pastor das ovelhas, nosso Senhor Jesus” (Hb 13,20).
Não posso dizer “meu Pastor” se não O reconheço “nosso Pastor”.
Este
Pastor é tremendamente frágil. É um pastor sem cajado para reconduzir as
ovelhas ao rumo certo. Conta apenas com a força da Sua voz. As minhas ovelhas
escutam a minha voz” (Jo 10,27). É verdade que as ovelhas são um animal com um
ouvido muito afinado para reconhecer o seu dono. Mas há outra razão pela qual
as ovelhas conhecem a voz de Jesus, seu Pastor. Surge na leitura do Apocalipse
(7,17): “o Cordeiro será o seu Pastor”. Uma variante do texto grego encontra-se
no presente: “o Cordeiro é seu pastor (apascenta-as)”. Eis o motivo pelo qual
as ovelhas conhecem a sua voz: o Pastor é o Cordeiro, o pastor é como as
ovelhas, é uma delas, partilha a sua condição porque se fez mortal e humano
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