segunda-feira, 25 de abril de 2016

Anseio pelo cenário apocalíptico

V Domingo da Páscoa - Ano C
24 de Abril de 2016
M.I. Rupnik. Mosaico da Igreja da Ssma. Trindade, Fátima

            Sim, é verdade. Eu anseio pelo cenário apocalíptico. Porque não me vêm à cabeça as cenas dos filmes “Armagedon”, “The Day After tomorrow”, “Interstellar” ou mesmo “Blindness”. Aquilo que sonho é “um novo céu e uma nova terra (…) a cidade santa, a nova Jerusalém (…) onde Deus enxugará todas as lágrimas dos olhos, nunca mais haverá morte nem luto, nem gemidos nem dor (…) a muralha de jaspe e a cidade de ouro”  (Ap 21,1.2.4.18). Sim, o cenário apocalíptico não é a batalha escatológica nem a destruição do mundo, mas a sua transformação e renovação pela acção de Deus e dos homens. Nisto acredito e isto espero.
            Por outro lado, não acredito que se trate de uma realidade adiada até à consumação dos séculos. Estou convencido que o novo céu e a nova terra estão já aqui, no meio de nós. Pode parecer ingénuo afirmar tal coisa num mundo repleto ainda de violência, de terrorismo, de corrupção, de mal e de pecado. Mas o novo céu e a nova terra são uma questão de cidadania espiritual: no que às coisas de Deus diz respeito, cada ser humano habita onde quer, no céu ou no inferno. Não é verdade que “l’enfer c’est les autres” (J.-P. Sartre), o inferno somos cada um de nós quando o nosso coração é habitado pelo ódio, pelo desejo de vingança, pelas feridas não perdoadas, pelo pecado. Onde habito eu?
            Por cidadania espiritual entendo ainda a lei que abraçamos e que orienta o nosso viver. Um novo céu e uma nova terra requerem uma nova lei, um novo mandamento. Ei-lo: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34; 15,12). Em que medida este mandamento é novo? Por acaso, não tinha sido escrito no livro do Levítico (19,18) – centenas de anos antes de Jesus! – “ama o teu próximo como a ti mesmo”? Sim, é verdade, mas o mandamento de Jesus é novo em dois sentidos: pela forma desse amor e pelos efeitos desse amor.
            O mandamento de Jesus é novo em relação ao Antigo Testamento porque ele diz a forma e a medida desse amor: “como eu vos amei”, isto é, sem medida, porque “ninguém tem maior amor do que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,13). Mas São Paulo recorda-nos na carta aos Romanos (5,8) que “nisto se demonstra o amor de Deus por nós: Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores”. A medida do amor de Jesus chega a rezar pelos seus algozes, enquanto o torturam e submetem à morte: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem…” (Lc 23,34). Sim, este amor, amar deste jeito é novidade. Este mandamento é novo e singular.
            O mandamento de Jesus é novo pela sua potencialidade, ele é “novo” porque é “renovador”. Com ele se realiza a profecia do Apocalipse (21,5): “eis que Eu faço novas todas as coisas”. O amor de Jesus renovou a humanidade decaída e renova, ainda hoje, cada homem e mulher que desejam e aceitam viver num novo céu e numa nova terra.

            Quem se esforça por praticar o mandamento novo, passa a ter o coração num novo céu e os pés movem-se numa nova terra. É capaz de vencer as trevas que querem habitar o coração humano e, dessa forma, participa já da vitória de Cristo Ressuscitado, inaugurada no Baptismo (Rm 6,3-4). Não nos enganemos: a composição da superfície da terra e os acontecimentos que nela se produzem não mudam, mas o “homem interior vai-se renovando de dia para dia” (2 Cor 4,16) e, nessa medida, começa já a participar duma existência nova, num novo céu e uma nova terra.

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