sábado, 7 de maio de 2016

Olhar para o céu e voltar para Jerusalém


               Penso que a combinação das leituras deste Domingo da Ascensão é caso único no leccionário romano: ouvimos, na primeira leitura, a abertura de um livro e no evangelho, a conclusão doutro. E, curiosamente, ambos do mesmo autor: os Actos dos Apóstolos e o Evangelho segundo são Lucas. Todos sabemos que se trata de uma única obra em duas partes: o ministério terreno de Jesus e o ministério de Jesus através da Igreja. E, ainda, que é uma obra com paralelos literários, históricos, geográficos, etc.
            Hoje presenciamos, como se de um filme ou novela se tratasse, um “retake”: o Evangelho termina com a Ascensão de Jesus e os Actos dos Apóstolos começam com a Ascensão de Jesus. Em ambos temos o mandato de evangelizar, a promessa do Espírito Santo e a “elevação” para o céu. Digo “elevação” porque em Lc 24,51 Jesus “foi tomado” (verbo em voz passiva, aneféreto), enquanto em Actos 1,9 Jesus “foi elevado” (verbo em voz passiva, epérthe). Porém, tanto o Evangleho como os Actos não terminam aqui o relato. De facto, os dois livros afirmam que os discípulos «voltaram a Jerusalém», “cheios de alegria e louvando a Deus no templo” (Lc 24,52) e “na sala superior, perseveravam na oração” (Act 1,13-14). Na verdade, os Actos (1,11) inserem ainda mais qualquer coisa: a repreensão de dois anjos (“dois homens vestidos de branco”) aos discípulos: “Homens da Galileia, porque estais a olhar para o céu?”.
            Em todo caso, o relato da “elevação” ou “ascensão” de Jesus (para usar a cristologia posterior do Novo Testamento e de toda a Igreja; vd. Hb 9,24) está intimamente ligado com a reacção dos discípulos: olhar para o céu e voltar para Jerusalém. Olhar para o céu é legítimo, aliás, é imprescindível. A pergunta “porque estais a olhar para o céu”, posta na boca dos dois anjos, pode ser uma repreensão se esse olhar for um gesto de desconfiança no regresso ou na presença constante de Jesus. Mas a mesma pergunta, agora nos lábios dos nossos contemporâneos, é uma pergunta sobre a nossa fé e “vós deveis estar sempre prontos para responder, com suavidade e respeito, a quem vos pergunta a razão da vossa esperança” (1 Pd 3,15). Portanto, porque estamos a olhar para o céu? Porque “nós somos cidadãos dos céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Flp 3,20).

            Mas, depois de olhar com frequência para o céu, temos de “voltar para Jerusalém com alegria e perseverantes na oração”. Olhar indefinidamente para o céu provoca torcicolos e acidentes. Não ajuda a viver melhor se o olhar não regressa à dimensão horizontal. É preciso olhar para o céu para que o nosso horizonte não se torne fechado e mesquinho; é preciso olhar para os nossos irmãos para que o nosso olhar não seja alienado. Benditos sejam o homem e a mulher que, quando olham para o seu irmão, lhe oferecem o azul do céu.

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