Penso que a combinação
das leituras deste Domingo da Ascensão é caso único no leccionário romano:
ouvimos, na primeira leitura, a abertura de um livro e no evangelho, a
conclusão doutro. E, curiosamente, ambos do mesmo autor: os Actos dos Apóstolos
e o Evangelho segundo são Lucas. Todos sabemos que se trata de uma única obra
em duas partes: o ministério terreno de Jesus e o ministério de Jesus através
da Igreja. E, ainda, que é uma obra com paralelos literários, históricos,
geográficos, etc.
Hoje presenciamos, como se de um
filme ou novela se tratasse, um “retake”: o Evangelho termina com a Ascensão de
Jesus e os Actos dos Apóstolos começam com a Ascensão de Jesus. Em ambos temos
o mandato de evangelizar, a promessa do Espírito Santo e a “elevação” para o
céu. Digo “elevação” porque em Lc 24,51 Jesus “foi tomado” (verbo em voz
passiva, aneféreto), enquanto em Actos 1,9 Jesus “foi elevado” (verbo em
voz passiva, epérthe). Porém, tanto o Evangleho como os Actos não terminam aqui
o relato. De facto, os dois livros afirmam que os discípulos «voltaram a Jerusalém»,
“cheios de alegria e louvando a Deus no templo” (Lc 24,52) e “na sala superior,
perseveravam na oração” (Act 1,13-14). Na verdade, os Actos (1,11) inserem ainda
mais qualquer coisa: a repreensão de dois anjos (“dois homens vestidos de
branco”) aos discípulos: “Homens da Galileia, porque estais a olhar para o céu?”.
Em todo caso, o relato da “elevação”
ou “ascensão” de Jesus (para usar a cristologia posterior do Novo Testamento e
de toda a Igreja; vd. Hb 9,24) está intimamente ligado com a reacção dos
discípulos: olhar para o céu e voltar para Jerusalém. Olhar para o céu é
legítimo, aliás, é imprescindível. A pergunta “porque estais a olhar para o céu”,
posta na boca dos dois anjos, pode ser uma repreensão se esse olhar for um
gesto de desconfiança no regresso ou na presença constante de Jesus. Mas a
mesma pergunta, agora nos lábios dos nossos contemporâneos, é uma pergunta
sobre a nossa fé e “vós deveis estar sempre prontos para responder, com
suavidade e respeito, a quem vos pergunta a razão da vossa esperança” (1 Pd
3,15). Portanto, porque estamos a olhar para o céu? Porque “nós somos cidadãos
dos céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo”
(Flp 3,20).
Mas, depois de olhar com frequência
para o céu, temos de “voltar para Jerusalém com alegria e perseverantes na
oração”. Olhar indefinidamente para o céu provoca torcicolos e acidentes. Não ajuda
a viver melhor se o olhar não regressa à dimensão horizontal. É preciso olhar
para o céu para que o nosso horizonte não se torne fechado e mesquinho; é
preciso olhar para os nossos irmãos para que o nosso olhar não seja alienado. Benditos sejam o homem e a mulher que, quando olham para o seu irmão, lhe oferecem o azul
do céu.
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