quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

AVE, o contrário de EVA


Solenidade da Imaculada Conceição
08 de Dezembro de 2019
Is 2, 1-5; Sal 121; Rom 13, 11-14; Mt 24, 37-44



Arcabas (Jean-Marie Pirot), L’annonce faite à Marie
(Polyptico sobre a Infância de Cristo), Palácio Episcopal de Malinas, Bruxelas 


            Nalgumas regiões da Espanha, os crentes ainda se cumprimentam dizendo “Ave Maria Puríssima” e, recebendo por resposta, “Sem pecado concebida”. É esta também a saudação habitual que usam na confissão. Entre nós, até há poucos anos, o Dia da Mãe era celebrado no 08 de Dezembro, mas a proximidade com a época de prendas natalícias sugeriu que era mais rentável a sua transferência para o primeiro Domingo de Maio…
            A Solenidade da Imaculada Conceição é muito mais do que uma festa dos privilégios de Maria; é outrossim a celebração das maravilhas de Deus na história do Seu povo que é a Igreja, ao qual Deus “deu início na Virgem Maria” a quem destinou como “advogada de graça e modelo de santidade” (Prefácio da Solenidade).
            Assim, em Maria, louvamos Deus Pai pelo dom do Seu Filho Jesus, através da Virgem Maria a quem Deus “preservou de toda a mancha em atenção aos méritos futuros da morte de Cristo” e, assim, “preparou para o Seu Filho uma digna morada” (Oração Colecta). Este mistério da única criatura humana que não partilhou a nossa condição pecadora desde a concepção é tão grande que muitos santos e importantes teólogos não o consideravam aceitável, entre eles Santo Agostinho e São Tomás de Aquino e, ainda, São Bernardo, o mesmo que disse “de Maria nunquam satis”, isto é, “sobre Maria nunca [se dirá] suficiente”. A grande dificuldade estava em considerar que a concepção imaculada colocava Maria fora da necessidade de redenção operada por Cristo e, ainda, anulava a sua liberdade e mérito na hora de aceitar o anúncio do Anjo. Mas a Imaculada Conceição de Maria é já uma acção de Cristo em ordem à salvação da humanidade e a graça de Deus, quando é dada ao ser humano, nunca o apaga, nunca o diminui, mas sim o eleva, o realiza, o plenifica. A alternativa Deus ou o humano é uma mentira; Deus e o humano é o verdadeiro sentido da existência.
            O relato simbólico da queda de Eva (Gn 39-15.20) e o anúncio do Anjo a Maria (Lc 1,26-38) estão intimamente relacionados. Eva representa toda a humanidade na sua negativa a Deus (“o homem deu à mulher o nome de “Eva” porque ela foi mãe de todos os viventes”); Maria realiza e corrige a opção errada do passado com o seu “faça-se em mim segundo a Tua Palavra”. Por isso, Santo Ireneu chama a Maria “advogada de Eva”: “era justo e necessário que Eva fosse reconstituída em Maria para que uma Virgem, convertida em advogada de uma [outra] virgem, apagasse e anulasse a desobediência de uma virgem com a obediência de uma [outra] Virgem»[1].
            Uma das versões latinas do hino Ave, Stella Maris[2] (Ave, estela do mar), tem um lindíssimo e delicioso jogo de palavras que soa assim: “Sumens illud Ave / Gabrielis ore, / Funda nos in pace, /Mutans Hevae nomen”, isto é: “Acolhendo o seu “Ave” / a palavra de Gabriel / confirma-nos na paz / mudando o nome de Eva”. O que quer dizer? Que o gesto acolhedor e disponível de Maria, inverteu o nome de Eva: E-V-A ® A-V-E…

“Mutans Hevae nomen” no min. 0:54
A Carta de São Paulo aos Efésios (13-6.11-12) recorda-nos que a vocação à santidade é para todos: “Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença”. Por isso, a qualquer cristão que à pergunta “qual é a melhor devoção a Maria?”, lhe possa quase instintivamente sair um “a recitação do terço”, convém recordar as palavras de São Paulo VI, fundador da nossa diocese: “a melhor devoção à Virgem Santa Maria é a imitação das suas virtudes”[3].

P. Pablo Lima

In Notícias de Viana (1918), 05 de Dezembro de 2019, p. 7.


[1] PO 12 [1919], 685.772-773
[2] Lamentavelmente, não é a versão que aparece na Liturgia das Horas portuguesa que é mais breve.
[3] Exortação Apostólica Signum Magnum, n.º 8; Lumen Gentium n.º 67; Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem Maria e Glórias de Maria de São Luís Monfort 


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