Solenidade
da Imaculada Conceição
08
de Dezembro de 2019
Is 2, 1-5; Sal
121; Rom 13, 11-14; Mt 24, 37-44
Arcabas (Jean-Marie Pirot), L’annonce faite à Marie
(Polyptico sobre a
Infância de Cristo), Palácio Episcopal de Malinas, Bruxelas
Nalgumas
regiões da Espanha, os crentes ainda se cumprimentam dizendo “Ave Maria
Puríssima” e, recebendo por resposta, “Sem pecado concebida”. É esta também a
saudação habitual que usam na confissão. Entre nós, até há poucos anos, o Dia
da Mãe era celebrado no 08 de Dezembro, mas a proximidade com a época de
prendas natalícias sugeriu que era mais rentável a sua transferência para o
primeiro Domingo de Maio…
A
Solenidade da Imaculada Conceição é muito mais do que uma festa dos privilégios
de Maria; é outrossim a celebração das maravilhas de Deus na história do Seu
povo que é a Igreja, ao qual Deus “deu início na Virgem Maria” a quem destinou
como “advogada de graça e modelo de santidade” (Prefácio da
Solenidade).
Assim,
em Maria, louvamos Deus Pai pelo dom do Seu Filho Jesus, através da Virgem
Maria a quem Deus “preservou de toda a mancha em atenção aos méritos futuros da
morte de Cristo” e, assim, “preparou para o Seu Filho uma digna morada” (Oração
Colecta). Este mistério da única criatura humana que não partilhou a nossa
condição pecadora desde a concepção é tão grande que muitos santos e
importantes teólogos não o consideravam aceitável, entre eles Santo Agostinho e
São Tomás de Aquino e, ainda, São Bernardo, o mesmo que disse “de Maria
nunquam satis”, isto é, “sobre Maria nunca [se dirá] suficiente”. A grande
dificuldade estava em considerar que a concepção imaculada colocava Maria fora
da necessidade de redenção operada por Cristo e, ainda, anulava a sua liberdade
e mérito na hora de aceitar o anúncio do Anjo. Mas a Imaculada Conceição de
Maria é já uma acção de Cristo em ordem à salvação da humanidade e a graça de
Deus, quando é dada ao ser humano, nunca o apaga, nunca o diminui, mas sim o
eleva, o realiza, o plenifica. A alternativa Deus ou o humano é
uma mentira; Deus e o humano é o verdadeiro sentido da
existência.
O relato
simbólico da queda de Eva (Gn 39-15.20) e o anúncio do Anjo a Maria (Lc
1,26-38) estão intimamente relacionados. Eva representa toda a humanidade na
sua negativa a Deus (“o homem deu à mulher o nome de “Eva” porque ela foi mãe
de todos os viventes”); Maria realiza e corrige a opção errada do passado com o
seu “faça-se em mim segundo a Tua Palavra”. Por isso, Santo Ireneu chama a
Maria “advogada de Eva”: “era justo e necessário que Eva fosse reconstituída em
Maria para que uma Virgem, convertida em advogada de uma [outra] virgem, apagasse
e anulasse a desobediência de uma virgem com a obediência de uma [outra]
Virgem»[1].
Uma das
versões latinas do hino Ave, Stella Maris[2]
(Ave, estela do mar), tem um lindíssimo e delicioso jogo de palavras que soa
assim: “Sumens
illud Ave / Gabrielis ore, / Funda nos in pace, /Mutans Hevae nomen”, isto é:
“Acolhendo o seu “Ave” / a palavra de Gabriel / confirma-nos na paz / mudando o
nome de Eva”. O que quer dizer? Que o gesto acolhedor e disponível de Maria, inverteu o
nome de Eva: E-V-A ® A-V-E…
“Mutans Hevae nomen” no min. 0:54
A Carta de São Paulo
aos Efésios (13-6.11-12) recorda-nos que a vocação à santidade é para todos:
“Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e
irrepreensíveis, em caridade, na sua presença”. Por isso, a qualquer cristão
que à pergunta “qual é a melhor devoção a Maria?”, lhe possa quase
instintivamente sair um “a recitação do terço”, convém recordar as palavras de São
Paulo VI, fundador da nossa diocese: “a melhor devoção à Virgem Santa Maria é a
imitação das suas virtudes”[3].
P. Pablo Lima
In Notícias de Viana (1918), 05 de Dezembro de 2019, p.
7.
[3] Exortação Apostólica Signum Magnum,
n.º 8; Lumen Gentium n.º 67; Tratado da verdadeira devoção à
Santíssima Virgem Maria e Glórias de Maria de São Luís Monfort
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