sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

José, protagonista do Natal


IV Domingo do Advento

22 de Dezembro de 2019

Is 7, 10-14; Sal 23 (24); Rom 1, 1-7; Mt 1, 18-24



George de la Tour, O Sonho de José, 1640.



            Com palavras muito sintéticas e intencionalmente chocantes (para nós não é tão evidente porque já conhecemos a história e recordamos imediatamente a anunciação de Lucas que este evangelista não conta), Mateus diz-nos que “Maria, noiva de José, antes de terem vivido em comum encontrara-se grávida” e acrescenta imediatamente “por virtude do Espírito Santo” (Mt 1,18-24). Mais para o fim, cita Isaías (7,10-14) como chave de interpretação: “tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do profeta que diz: ‘A virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado Emanuel’ ”.

            O drama escondido nestas breves linhas cai todo sobre as costas de José. Em Mateus, o verdadeiro protagonista do anúncio do nascimento é José e não Maria (como em Lucas). A calamidade, humanamente falando, com que José se depara dá-lhe a oportunidade de expressar o que de mais nobre traz no coração. É nas horas dramáticas que a humanidade manifesta o que tem de melhor e pior. José tinha um coração de ouro. “Não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo”. Se a tivesse desprezado e renegado publicamente pela sua traição (até este momento, José não podia pensar doutra forma), teria destruído a sua reputação e o seu futuro e, in extremis, teria posto a sua vida em risco de morte por apedrejamento (Lv 20,10; Dt 22,23-24), sob queixa de adultério (se bem que a lei pudesse ter uma leitura mais benevolente em casos de esponsais ainda sem coabitação). José prefere sofrer em silêncio, retardar o desfecho público da história e, a longo prazo, arcar com a desonra de uma prometida grávida, abandonada pelo noivo-esposo. José é um ser humano, muito humano.

É então que Deus entra na vida de José, como entrara já na vida de Maria. O Anjo aparece-lhe em sonhos e concede a José a condição de pai, mesmo sem intervenção física. Era o pai quem impunha o nome, essa autoridade só a ele competia, e o Anjo entrega-a a José por mandato de Deus: “tu pôr-lhe-ás o nome de Jesus”. Sobre esta terra, só José exercerá autoridade sobre Jesus: é, com todos os direitos e deveres, seu pai. Com palavras secas, Mateus remata a história: “Quando despertou do sono, José fez como o Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa”. Agora José é a antítese do rei Acaz que não acreditou na palavra do profeta Isaías. Acaz é o modelo do descrente, José é o modelo do crente. Maria reparou o mal de Eva, José reparou o mal de Acaz.

Tal como explica o Anjo, Jesus significa literalmente “Deus é salvador”. O seu nome contém tudo a Seu propósito. Isaías tinha dito ainda: “Será chamado ‘Emanu-El’, que quer dizer, ‘Deus connosco’ ”. De facto, em Jesus, Deus salvador, fez-se próximo de nós. “Emanu” significa “connosco”, assim, em Jesus, o Deus Altíssimo, fez-se pequeníssimo. “El” significa Deus, em hebraico: não é apenas um homem, é mesmo Deus. No ventre de Maria, foi gerado pelo Espírito Santo, só o Pai no-lo poderia dar. Se não fosse homem, permaneceria longe; se não fosse Deus, não nos poderia salvar.
Para terminar, convido-vos à contemplação da obra “O Sonho de José” de Georges de la Tour, pintada aprox. em 1640 e conservada no Museu de Belas Artes de Nantes. A cena representa um José idoso (esta é uma forma clássica da iconografia cristã para indicar que não é o pai físico de Jesus) a quem o Anjo inspira e toca delicadamente. O seu gesto é de quem adormeceu a pensar num assunto que o preocupa profundamente e ao qual dedica todas as suas forças para compreendê-lo. Nas suas mãos, sustenta o livro das Escrituras onde estão a profecia de Isaías e tantas outras. Mas a luz da obra e de José não provém exclusivamente do Livro. Com esta característica genial e constante das suas obras, de la Tour esconde a chama da vela com o braço do Anjo. Assim concentra toda o seu reflexo e a sua força no rosto do mensageiro divino: a resposta última para José, a resposta última para nós vem do Alto.
 

P. Pablo Lima

 

In Notícias de Viana (1920), 19 de Dezembro de 2019, p. 7.

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