Festa do Baptismo do Senhor
12 de Janeiro de 2020
Is 42, 1-4. 6-7; Sal 28 (29); Act 10, 34-38 ou Is 55, 1-11; Sal Is 12; 1 Jo 5, 1-9; e Mt 3, 13-17
Trinta anos depois da visita dos Magos
Tinham passado trinta anos desde a partida dos magos, aquelas figuras misteriosas que irromperam no local do nascimento de Jesus e, para espanto de Maria e José, ofereceram dons preciosos e previram um futuro de realezapara o Menino. Esse foi, também, o primeiro e único facto extraordinário que Maria e José presenciaram em casal; até então, Maria e José tinham recebido as revelações angélicas por separado. Depois desse dia, nunca voltaram a ter umepisódio “miraculoso”, em família ou individualmente.
Com certeza, Maria tinha deixado adormecer no peito o medo de um dia ver Jesus atravessar o umbral da sua casa e partir para cumprir a sua missão e não mais voltar. Esse dia chegou. Entre a partida dos magos e essa hora tinha passado tempo no qual Jesus viveu normalmente. No entretanto, José morreu (assim nos permitem concluir os evangelhos pois, a este ponto, José não ocupa nem mais uma linha das suas páginas, a não ser como vaga referência… “o filho do carpinteiro”) e Jesus chorou-o como qualquer filho chora oseu pai.
O único motivo de receio era que João, primo de Jesus, tinha começado uma actividade de pregador e as gentes o comparavam com um dos “profetas de antigamente”, austero e forte. Mas de João não se poderia esperar outra coisa, era de casta sacerdotal, tinha sido educado e versado nas Escrituras e na precisão dos ritos judaicos. Jesus, não; era apenas um artesão.
É maravilhoso como os pais conseguem distinguir o seu filho no meio de uma multidão. Conhecem-lhe a silhueta, a pele, o aroma…; de olhos fechados, só com tocá-lo, senti-lo, cheirá-lo… reconhecê-lo-iam no meio de milhões. Não importa que o vejam de costas, de um lado ou de outro, ou mesmo de cima: a sua cabeça, o seu rosto, são únicos. Do alto dos céus (que são um conceito teológico e não umageografia qual coordenada de gps ou alvo de geocaching), o Pai distingue o Seu Filho, o Seu Primogénito, numa fila de pecadores com destino às águas do Jordão. Nesse pelotão de publicanos, prostitutas, pecadores públicos aos quais todos podem apontar o dedo pois conhecem-lhes bem o nome…, só há um que ninguém conhece. Perdão, só há um que apenas Um conhece, o Pai conhece-O, reconhece-O, apresenta-O. No evangelho de João (1,33), ficámos a saber que João apenas reconheceu Jesus e aceitou baptizá-lo porque Deus assim lhe ordena: “Eu não o conhecia, mas o que me mandou a baptizar com água, foi Ele que me disse: Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que baptiza com o Espírito Santo”.
Era mesmo assim que o Pai queria ver o seu Filho: “alinhado” com os pecadores. Não por necessidade d’Ele,mas nossa. São Paulo, quase escandalosamente, não hesita em explicar a sua solidariedade com os humanos dizendo que, por nós, «se fez pecado» (2 Cor 5,21). Por nossa salvação, Jesus enterra-se no lodo das margens do Jordão(esse rio que Eça de Queiroz diz ser muito inferior ao Rio Lima…), para nos ensinar o caminho das águas e nos garantir que partilha em tudo a nossa condição, “excepto no pecado” (Hb 4,5). Também a nós, lavados nas águas do Baptismo, o Pai diz-nos, continuamente: “Tu és o meu filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência” (Mc 1,11 e Lc 3,22; Mateus coloca a afirmação na terceira pessoa – provavelmente assumindo a perspectiva existencial de João Baptista - dirigindo assim a Palavra do Pai tanto aos presentes como aos leitores).
O Baptismo assinala uma nova etapa na vida de Jesus.Para trás fica a segurança do lar em Nazaré, a presença da Mãe, o ambiente conhecido dos amigos e parentes. Para frente fica a paixão do anúncio, a certeza do amor de Deus, o horizonte da dor e da entrega. O Baptismo é uma nova Epifania mas sem jóias; hoje volta a manifestar-se ao mundo e, desta vez, sem intervalos de silêncio e escondimento; agora está à vista até ao fim dos tempos. Também para nós o Baptismo assinala uma nova etapa, ainda não concluída, ainda não consumada, que se sustenta nas palavras do Pai: “Tu és…”
P. Pablo Lima
Sem comentários:
Enviar um comentário