II Domingo Comum – Ano A
19 de Janeiro de 2020
19 de Janeiro de 2020
Is 49, 3. 5-6; Sal 39; 1 Cor 1, 1-3; Jo 1, 29-34
Cordeiro Místico ou Cordeiro
Pascal, Josefa d'Óbidos, 1660-1670
[1] A imagem que hoje vos apresentamos é de Josefa d’Óbidos,
pintora portuguesa do século XVII, inspirada em obra homónima do espanhol
Francisco de Zurbarán (aprox. 1635). À volta do cordeiro, atado e pronto para o
sacrifício, deposto sobre uma bandeja e com uma auréola sobre a cabeça,
encontra-se uma coroa de flores e símbolos pascais e eucarísticos. Existe uma
segunda versão simplificada desta obra, no Palácio dos Duques de Bragança, em
Guimarães, atribuída à mesma Josefa de Óbidos. Lamentavelmente encontra-se
colocada numa sala e lugar que a desfavorece, passa quase despercebida e está
tão longe do olhar que não permite a sua justa fruição. Também na Colecção Privada da Basílica dos Congregados, em Braga, existe um exemplar josefiano do mesmo tema.
No Domingo passado, foi o Pai Celeste quem nos
apresentou Jesus; hoje ouvimos no Evangelho o primeiro testemunho humano sobre Jesus,
o do Baptista, narrado pelo evangelista são João. Jesus é definido por seu
primo como “o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Esta
imagem do cordeiro tinha já uma longa história no Antigo Testamento e tê-la-á,
ainda mais, no Novo Testamento e, precisamente, nos escritos joaninos (no
Evangelho e no Apocalipse, não nas Cartas e não exactamente com os mesmos
termos gregos). Ninguém escreveu tanto sobre o cordeiro como São João.
O cordeiro era o animal sacrificado e partilhado
em refeição na noite de Páscoa; com o seu sangue, os judeus marcaram os dintéis
das portas no Egipto para salvar da morte os primogénitos (Ex 12,5-7): Posteriormente,
o “servo do Senhor”, essa figura misteriosa, pessoal e colectiva, da qual fala
Isaías na leitura de hoje (49, 3-6) foi também definido, na sua entrega pelos
homens e por Israel, com estas palavras: “maltratado, humilhou-se e não abriu a
boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro” (53,5; aliás, em aramaico,
língua usada por João Baptista, a palavra talya pode significar servo ou
cordeiro). Esta profecia inspirou a releitura evangélica da Paixão do Senhor. Nalguns
casos, o sacrifício de um cordeiro serviu como gesto de intercessão (1 Sm
7,8-9). No Templo de Jerusalém, no tempo de Jesus, todos os dias eram
sacrificados um cordeiro de manhã e outro à tarde (Ex 29,38-46). Precisamente,
no evangelho de João, a paixão de Jesus é um sacrifício que realiza e anula
para sempre os sacrifícios antigos: ele é crucificado à mesma hora em que os
cordeiros eram sacrificados (Jo 19,12), é atravessado com a lança como
profetizara Zacarias (12,10) e, enquanto aos outros crucificados partiram-lhes
as pernas, não fizeram assim com Jesus porque, mesmo sem saberem, estava
prescrito que, ao cordeiro pascal, “não lhe partireis nenhum osso” (Ex 12,46;
Sl 34,21). Finalmente, São Paulo escreverá “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado”
(2 Cor 5,7) e, no livro do Apocalipse, Jesus é representado na forma do
“Cordeiro que está de pé mas que foi imolado”, que “está no trono” (5,6), que
recebe e abre o livro selado (5,8; 6,1) e que “convida para o seu banquete de
núpcias” com a nova Jerusalém (19,9; 21,9).
O facto inédito que se encerra na apresentação do
Baptista “este é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” é que nunca o
cordeiro serviu como sacrifício de expiação ou reconciliação. Era um sacrifício
de protecção e de comunhão, não de perdão. Existia sim a figura do “bode
expiatório” sobre o qual o sumo sacerdote impunha as mãos num gesto quase
mágico de transferência das iniquidades e que era conduzido ao deserto para aí
morrer, só, e com ele, desaparecem os pecados do povo (Lv 16,21-22). Mas nunca
o cordeiro servira para “tirar os pecados do mundo”. Jesus é, assim, um
cordeiro diferente, que protege da morte, realiza a comunhão com Deus e com os
outros e purifica dos pecados que carrega e expia sobre si mesmo.
O primeiro cordeiro que encontramos na Bíblia é
aquele que substituiu Isaac na hora do sacrifício no alto do monte Moriá. À
pergunta que Isaac fez: “meu pai, temos o fogo e a lenha, mas onde está o
cordeiro?”, na verdade, Abraão nunca respondeu completamente, apenas sugeriu:
“Deus mesmo proverá o cordeiro para o sacrifício, meu filho” (Gn 22,7-8). É
sabido que, no hebraico antigo, não existiam sinais de pontuação e aqueles que
agora temos são da época medieval. Por isso, muitos comentadores notam que,
justamente, a resposta de Abraão também foi: “Deus mesmo proverá o cordeiro:
meu filho”. Quando Abraão levantou o cutelo, um anjo impediu-o e mostrou-lhe um
cordeiro preso entre os arbustos (22,13). A resposta para Isaac, porém, ficou muitos
séculos à espera de ser proferida. Quando João Baptista apresentou Jesus,
dizendo “Eis o cordeiro”, respondia a uma pergunta antiga e nova, de
Isaac e nossa, de ontem e de hoje. Onde está o cordeiro? Eis Jesus, eis o
cordeiro.
Na liturgia bizantina, há
duas porções de pão, uma destinada a uma simples bênção para ser distribuída no
fim da celebração a todos, adultos e crianças, crentes e mesmo não crentes,
para consumir aí ou levar para casa, como sinal de amizade e fraternidade
cristãs. Chama-se a essa porção o antidóron (“substituto da oferta”). A
outra parte, destinada à consagração e à Eucaristia, é chamada, precisamente, amnós,
“o cordeiro”. O mesmo acontece na liturgia romana pois, mesmo antes da
comunhão, o presbítero diz: “Eis o cordeiro de Deus que tira…”. No início de um
novo ano, é bom recordarmos donde vêm essas palavras e o que elas significam,
para não as convertermos numa rotina sem sabor.
P. Pablo Lima
O texto integral desta reflexão pode ser lido em: http://a-biblica-quadratura-do-circulo.blogspot.com/
In Notícias de Viana (1921), 09 de Janeiro de 2020, p.
7.
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