sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Estafetas do Evangelho


III Domingo Comum – Ano A
26 de Janeiro de 2020
Is 8,23b–9,3; Sal 26 (27); 1 Cor 1, 10-13.17; Mt 4, 12-23


            Quando em 732 a.C. o rei da Assíria Tiglat-Pileser III arrasou o reino de Israel, a sua acção foi tão devastadora que, ainda hoje, passados mais de 2700 anos, em cidades como Tel-Hazor (declarada Património Mundial pela Unesco), vários centímetros de cinzas permitiram aos arqueólogos reconstruir uma parte dos eventos aí ocorridos. Quase toda a região do Norte de Israel ficou deserta, a população foi deportada e, na linha do horizonte, colunas de fumo subiam dos lugares onde outrora se erguiam férteis aldeias e populosas cidades. É a esse contexto que se refere a profecia de Isaías 9,1-4: “o povo que andava nas trevas, para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz se levantou”.

Para Mateus, a transferência de Jesus de Nazaré para Cafarnaum, que ele nomeia com os mesmos termos “terra de Zabulão e de Neftali, caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios” (cfr. Is 8,23; Mt 4,12), é precisamente o cumprimento da profecia de Isaías: “o povo viu uma grande luz”. Na verdade, Cafarnaum será a nova morada e “comando central” de Jesus e dos doze, o seu lar de eleição. Jesus vai habitar para uma região com má fama, longe de Jerusalém. Aliás, todo o evangelho de Mateus refere-se sempre em forma controversa à cidade santa e às suas autoridades. Jesus foge dos lugares de importância, dos centros de decisão, da companhia dos poderosos, dos influentes, dos cultos. A sua companhia, convenhamos, não era gente que se recomendasse. Há nele uma marginalidade por opção.

Ainda mais curioso é o contexto em que Jesus se transfere para Cafarnaum: “quando Jesus ouviu dizer que João Baptista fora preso, retirou-se…”. Parece uma demissão ou mesmo uma fuga. Nada mais longe da verdade. Jesus faz de estafeta ao anúncio do Evangelho e, para dizer a verdade, será ele quem levará a tocha até a meta, para acender a chama e incendiar o mundo. Jesus começa, precisamente, a partir do ponto onde João acaba, tanto na hora como nas palavras. Mateus coloca na boca de Jesus este anúncio: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus” (4,17). Essas exactas palavras são aquelas com que João começou o seu anúncio (Mt 3,2). Apesar de que a prisão do Baptista foi uma advertência, Jesus não teme. Desengane-se Herodes a pensar que, acabado João, ficou resolvido o problema. Pelo contrário, a verdadeira revolta está ainda por começar…

O Evangelho não vive do passado, a Igreja não vive do passado. Escreveu o grande patriarca de Constantinopla, Atenágoras, “a única nostalgia que a Igreja tem é a nostalgia do futuro”. Cada tempo reserva uma nova oportunidade e demonstra uma nova urgência para o anúncio do Evangelho. Haja estafetas. Como escreveu João Paulo II, “o anúncio do Evangelho ainda está no início” (Redemptoris Missio, 30).

Ps. Celebra-se este ano, pela primeira vez, o “Domingo da Bíblia”, instituído pelo Papa Francisco, “para que seja dedicado à celebração, reflexão e divulgação da Palavra de Deus. Colocar-se-á, assim, num momento propício daquele período do ano em que somos convidados a reforçar os laços com os judeus e a rezar pela unidade dos cristãos (…) É profundo o vínculo entre a Sagrada Escritura e a fé dos crentes. Sabendo que a fé vem da escuta, e a escuta centra-se na Palavra de Cristo (cf. Rm 10, 17), vê-se a urgência e a importância que os crentes devem dar à escuta da Palavra do Senhor, tanto na ação litúrgica, como na oração e reflexão pessoais”. Mas advertiu o Papa: “O dia dedicado à Bíblia pretende ser, não ‘uma vez no ano’, mas uma vez por todo o ano, porque temos urgente necessidade de nos tornar familiares e íntimos da Sagrada Escritura e do Ressuscitado”. Procuremos, pois, amar e conhecer, rezar e estudar a Bíblia, na formação pessoal e comunitária.

P. Pablo Lima

In Notícias de Viana (1923), 23 de Janeiro de 2020, p. 7.

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