XXII Comum – C
28 de Agosto de 2016
A liturgia de
hoje começa com um texto da sabedoria do Antigo Testamento que nos fala da humildade…
“filho, em todas as tuas obras procede com humildade […] Quanto mais importante
fores, mais deves humilhar-te” (Eclo 3,19-20).
Mas o que é a
humildade? Não é o sentir-se ou dizer-se um “coitadinho”, não é o “eu não valho
nada”, não é falsa modéstia que deseja o reconhecimento alheio. A Humildade,
nas palavras de sta. Teresa, é a Verdade. É reconhecer que
temos virtudes e defeitos, mas, acima de tudo, somos frágeis e devedores a
Outro e a outros e, por isso, não há motivo para vaidades, arrogância ou
superioridade. Humildade vem de humus, terra, isto é, ser humilde é
reconhecer que somos terra, somos pó, somos frágeis. A humildade é a verdade
de reconhecer que os nossos dons e qualidades nos foram dados: em primeiro
lugar, por Deus, e, depois, pelas outras pessoas com quem (con)vivemos e
aprendemos… Diz S. Paulo aos Coríntios (1 Cor 4,7): “Quem te faz diferente? E
que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias,
como se não o tivesses recebido?”. Tudo aquilo que somos, recebemo-lo: a vida,
os dons, a saúde, a família… etc e foi através destes dons primeiros que
pudemos ter condições para trabalhar e pôr em prática, pôr a render o que
recebemos. Por isso, a humildade é a verdade.
Em segundo lugar, a humildade é –
segundo os santos – a virtude que mais nos torna semelhantes a Deus (e “é o fundameno
de todas as virtudes”, diz S. Tomás, Summa II-II, q. 161, art. 5º). De facto,
ouvimos no versículo do Aleluia: “aprendei de Mim que sou manso e humilde de
coração” (Mt 11,29b). Nós rezamos no Credo: “só Vós sois o Santo, só Vós sois o
Senhor, só Vós sois o Altíssimo, Jesus Cristo”. Pois bem, o Altíssimo fez-se
por nós o baixíssimo ao ponto de se fazer homem em Belém e morrer por nós no
Calvário: Escreve S. Paulo: “Cristo Jesus que era de condição divina não se
valeu da sua igualdade com Deus mas aniquilou-se a si próprio, assumindo a
condição de servo, tornou-se semelhante aos homens; aparecendo como homem,
humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de Cruz. Por isso, Deus
O exaltou” (Flp 2,6-9). Ora a leitura que escutamos aconselhava-nos isso mesmo:
“Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te” (Eclo 3,19-20), a
exemplo de Jesus. Porque quanto mais “importante”, isto é, mais responsável,
significa que mais deves a outras pessoas… Por isso, a humildade é a verdade e
é
a virtude que mais nos faz semelhantes a Deus. Por isso, faz-nos bem
rezar muitas vezes o salmo 130: “Senhor, não se eleva soberbo o meu coração,
nem se levantam altivos os meus olhos. Não ambiciono grandezas nem coisas
superiores a mim. Antes fico sossegado e tranquilo como criança ao colo da mãe.
Espera Israel no Senhor, agora e para sempre”. Lembrai-vos, voltai a rezá-lo em
casa: Salmo 130.
Finalmente, a humildade permite-nos
receber a gratidão de Deus. Reparemos no Evangelho (Lc 14,1.7-14). Uma leitura
desatenta pode fazer pensar que Jesus nos está a ensinar a ser manhosos: “não te
sentes à frente para não ser humilhado; senta-te no fundo para ser honrado”…
Mas não. É preciso lembrar que, nos evangelhos de Lucas e João, as bodas são sinal
do Reino de Deus, da presença de Deus, da acção e do encontro com Jesus. Por
isso, quando Jesus diz “quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes
o primeiro lugar”, está a falar do banquete nupcial do Reino, isto é, está a
falar da vida de cada dia e não só das festas de casamento (nas quais não faltam
vaidades, todos o sabemos…). Portanto, quer dizer, em toda a tua vida, não corras
atrás dos lugares de importância, não tomes o primeiro lugar, senta-te no teu
posto com simplicidade, com humildade. Não procures aparecer. Porque o Anfitrião,
o Dono da festa que te convidou – e quem é que nos convida para o banquete do
Reino senão o Pai do Céu? – irá chamar-te lá do fundo e dir-te-á: “amigo, sobe
mais para cima”. É esse o desfecho no fim da vida para quem procurou viver na
humildade, na simplicidade. Um dia, o Divino Anfitrião lhe dirá: “Amigo, sobe
mais para cima”, vem para junto de Mim, senta-te ao meu lado. Portanto, a
humildade é a verdade, torna-nos semelhantes a Deus e alcança-nos a proximidade
e amizade com Deus, já nesta vida e sobretudo na vida eterna.
Para terminar, conto-vos uma história da
grande mulher do século XX que o Papa Francisco irá canonizar, isto é,
inscrever na lista (cânone) dos santos no próximo Domingo 4 de Setembro: Madre
Teresa de Calcutá. Quando recebeu o Nobel da Paz em 1979, foi entrevistada por
alguém que lhe perguntou: “Madre, o que sentiu ao receber o prémio e tantos
aplausos?”. “Senti-me como no Domingo de Ramos” – disse ela. “Madre, como é
possível ser tão vaidosa. Sentiu-se como Jesus ao entrar em Jerusalém?!”. “Não,
senti-me como o burrico no qual Jesus entrou em Jerusalém; ouvia as palmas, mas
sabia que são para Jesus, não para mim. Eu sou apenas o lápis com que Deus
escreve”. A humildade é a verdade…
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