sexta-feira, 8 de março de 2019

“Está escrito…”. A poderosa ambivalência da Palavra de Deus

Pieter Stevens, "A tentação de Cristo", (c. 1594)Szépmûvészeti Múzeum, Budapest



I Domingo da Quaresma – C
10 de Março de 2019

Deut 26, 4-10; Sal 90 (91), 1-2. 10-11. 12-13. 14-15; Rom 10, 8-13; Lc 4, 1-13

Como porta de entrada na Quaresma, após o sinal das cinzas, a Igreja propõe-nos o relato evangélico das tentações (neste ano, da autoria de são Lucas).
Imediatamente após o Seu baptismo, o Espírito leva Jesus do Jordão para o deserto. Geograficamente a distância é insignificante, tal como a distância que separa o baptismo da luta quotidiana pela fidelidade a Deus e aos irmãos. Na verdade, a primeira tentação consiste, sobretudo, em pôr em causa a dignidade baptismal de Filho de Deus. Enquanto nos concentramos no desafio da transformação da pedra em pão, esquecemos que a provocação começa de forma sinuosa: “Se és filho de Deus…”. Não é pois na caricata sugestão de magia fácil que o Diabo (literalmente, o “separador”, o “conflituoso” ou “quezilento”, o que gosta de semear cizânia e confusão entre as pessoas) investe a sua inteligência, mas sim na delicada insinuação de que Jesus não é, tal como Ele ouvira no Jordão, “o meu Filho amado” (Lc 3,22). Quando se perde a consciência e dignidade de Filho(s) de Deus, tudo é possível.  Muitas são as formas de esquecer e perder essa consciência e dignidade: o pecado, em primeiro lugar; mas também a superficialidade – que não é necessariamente um pecado – e, finalmente, o turbilhão dos pensamentos negativos, deprimentes e autodestrutivos em que é possível afogar-se: “tu não és boa pessoa, tu não vales nada, ninguém gosta de ti, Deus esqueceu-se de ti, se tu fosses filho de Deus…”. Uma vez envolvidos por estes pensamentos a tentação das pedras convertidas em pão, isto é, alimentar-se de detritos humanos e espirituais, é irresistível.
É inegável a relação profunda entre as tentações e a tentativa de minar a dignidade de Filho de Deus. De facto, nas duas tentações (pão e circo/comportamentos de risco) em que o contexto o permite, o Diabo refere-se à relação com Deus; apenas na tentação sobre a idolatria que é abertamente contra essa mesma íntima relação Pai-Jesus, o Diabo não questiona “Se és Filho de Deus…”.
A resposta de Jesus consiste em apelar para a fonte fresca que nos restitui a dignidade humano-divina recebida no Baptismo: a Palavra de Deus. “Nem só de pão vive o homem…”. Lucas nem completa a citação de Dt 8,3, mas introduz claramente o seu carácter inspirado com a fórmula “Está escrito”. Pela segunda vez, Jesus defender-se-á da tentação da idolatria com a poderosa arma da Palavra de Deus: “Está escrito: ‘só a Deus adorarás’ ” (Lc 4,8). É então que o Diabo, teólogo inteligente e biblista refinado, utiliza a própria Palavra de Deus, condensada na Sagrada Escritura, para tentar Jesus, não sem antes voltar à carga contra a filiação divina de Cristo: “Se és filho de Deus, atira-te daqui abaixo, porque está escrito ‘Ele dará ordens a seus anjos a teu respeito, para que Te guardem’ ”. Por muito chocante que possa ser, a Palavra de Deus também poder ser usada para fazer mal aos outros. A história do judaísmo e do cristianismo está cheia de exemplos arrepiantes. Mas ainda hoje é possível utilizar a Palavra de Deus para acabrunhar as pessoas com normas desalmadas e surreais; para promover uma religiosidade rentável, mas balofa, cheia de promessas, festinhas e sentimentalismo; para evitar que as pessoas descubram, apreciem e gozem a sua enorme dignidade de Filhos de Deus, Filhos no Filho, que inevitavelmente leva à conversão.
“A Palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração”, afirma São Paulo (Rm 10,8), enquanto cita o Deuteronómio (30,14). É esta Palavra que se faz próxima, que se fez carne e habitou no meio de nós (Jo 1,14), que se encontra condensada na Bíblia, que nos oferece um caminho de aproximação a Deus. Confessar com a boca e acreditar com o coração em Jesus é o caminho para a salvação. Deus não está longe nem se faz difícil, Ele deixa-se procurar e, ainda mais, encontrar. No Deuteronómio, o povo de Israel confessa: “invocámos o Senhor, Ele ouviu a nossa voz e viu a nossa miséria” (Dt 26,7). Por isso, também São Paulo afirma “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10,13).

P. Pablo Lima

In Notícias de Viana (1882), 07 de Março de 2019, p. 11

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