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Pieter Stevens, "A tentação de Cristo", (c. 1594)Szépmûvészeti Múzeum, Budapest |
I Domingo da Quaresma – C
10 de Março de 2019
Deut 26, 4-10; Sal 90 (91), 1-2.
10-11. 12-13. 14-15; Rom 10, 8-13; Lc 4, 1-13
Como porta de
entrada na Quaresma, após o sinal das cinzas, a Igreja propõe-nos o relato
evangélico das tentações (neste ano, da autoria de são Lucas).
Imediatamente
após o Seu baptismo, o Espírito leva Jesus do Jordão para o deserto.
Geograficamente a distância é insignificante, tal como a distância que separa o
baptismo da luta quotidiana pela fidelidade a Deus e aos irmãos. Na verdade, a
primeira tentação consiste, sobretudo, em pôr em causa a dignidade baptismal de
Filho de Deus. Enquanto nos concentramos no desafio da transformação da pedra
em pão, esquecemos que a provocação começa de forma sinuosa: “Se és filho de
Deus…”. Não é pois na caricata sugestão de magia fácil que o Diabo
(literalmente, o “separador”, o “conflituoso” ou “quezilento”, o que gosta de
semear cizânia e confusão entre as pessoas) investe a sua inteligência, mas sim
na delicada insinuação de que Jesus não é, tal como Ele ouvira no Jordão, “o
meu Filho amado” (Lc 3,22). Quando se perde a consciência e dignidade de
Filho(s) de Deus, tudo é possível.
Muitas são as formas de esquecer e perder essa consciência e dignidade:
o pecado, em primeiro lugar; mas também a superficialidade – que não é
necessariamente um pecado – e, finalmente, o turbilhão dos pensamentos
negativos, deprimentes e autodestrutivos em que é possível afogar-se: “tu não
és boa pessoa, tu não vales nada, ninguém gosta de ti, Deus esqueceu-se de ti,
se tu fosses filho de Deus…”. Uma vez envolvidos por estes pensamentos a
tentação das pedras convertidas em pão, isto é, alimentar-se de detritos
humanos e espirituais, é irresistível.
É inegável a relação
profunda entre as tentações e a tentativa de minar a dignidade de Filho de
Deus. De facto, nas duas tentações (pão e circo/comportamentos de risco) em que
o contexto o permite, o Diabo refere-se à relação com Deus; apenas na tentação
sobre a idolatria que é abertamente contra essa mesma íntima relação Pai-Jesus,
o Diabo não questiona “Se és Filho de Deus…”.
A resposta de
Jesus consiste em apelar para a fonte fresca que nos restitui a dignidade
humano-divina recebida no Baptismo: a Palavra de Deus. “Nem só de pão vive o
homem…”. Lucas nem completa a citação de Dt 8,3, mas introduz claramente o seu
carácter inspirado com a fórmula “Está escrito”. Pela segunda vez, Jesus
defender-se-á da tentação da idolatria com a poderosa arma da Palavra de Deus:
“Está escrito: ‘só a Deus adorarás’ ” (Lc 4,8). É então que o Diabo, teólogo
inteligente e biblista refinado, utiliza a própria Palavra de Deus, condensada
na Sagrada Escritura, para tentar Jesus, não sem antes voltar à carga contra a
filiação divina de Cristo: “Se és filho de Deus, atira-te daqui abaixo, porque
está escrito ‘Ele dará ordens a seus anjos a teu respeito, para que Te guardem’
”. Por muito chocante que possa ser, a Palavra de Deus também poder ser usada
para fazer mal aos outros. A história do judaísmo e do cristianismo está cheia
de exemplos arrepiantes. Mas ainda hoje é possível utilizar a Palavra de Deus
para acabrunhar as pessoas com normas desalmadas e surreais; para promover uma
religiosidade rentável, mas balofa, cheia de promessas, festinhas e
sentimentalismo; para evitar que as pessoas descubram, apreciem e gozem a sua
enorme dignidade de Filhos de Deus, Filhos no Filho, que inevitavelmente leva à
conversão.
“A Palavra está
perto de ti, na tua boca e no teu coração”, afirma São Paulo (Rm 10,8),
enquanto cita o Deuteronómio (30,14). É esta Palavra que se faz próxima, que se
fez carne e habitou no meio de nós (Jo 1,14), que se encontra condensada na
Bíblia, que nos oferece um caminho de aproximação a Deus. Confessar com a boca
e acreditar com o coração em Jesus é o caminho para a salvação. Deus não está
longe nem se faz difícil, Ele deixa-se procurar e, ainda mais, encontrar. No
Deuteronómio, o povo de Israel confessa: “invocámos o Senhor, Ele ouviu a nossa
voz e viu a nossa miséria” (Dt 26,7). Por isso, também São Paulo afirma “todo
aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10,13).
P. Pablo Lima
In Notícias de Viana (1882), 07 de Março de 2019, p. 11
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