sexta-feira, 15 de março de 2019

Respirar fundo, orar e continuar o caminho para Jerusalém


II Domingo da Quaresma – C
17 de Março de 2019

Gen 15, 5-12. 17-18; Sal 26 (27), 1. 7-8. 9abc. 13-14; Filip 3, 17 – 4, 1; Lc 9, 28b-36

RAFFAELLO Sanzio, A Transfiguração (1518-20), Pinacoteca vaticana

Não admira que tenha sido o monte Tabor aquele que a tradição identificou como o lugar da Transfiguração. De facto, os evangelhos não referem o local preciso, mas quem subir a esta elevação com quase 600 mt de altura, a partir da qual é possível ver todo o fértil vale de Jezrael, celeiro do país e orgulho da Galileia, não consegue ficar indiferente à beleza e carácter telúrico do lugar. Quem sobe ao Tabor, por volta do meio-dia, ofuscado pela luz solar no seu zénite, instintivamente respira fundo, enche os pulmões de ar e os olhos de luz e percebe o que é uma epifania. E percebe porquê a Transfiguração de Jesus só pode ter sido lá.
A experiência vivida pelo trio dos amigos mais íntimos de Jesus – Pedro, João e Tiago – assemelha-se a estes dias de sol que vivemos no meio do nevoeiro e da morrinha do inverno. Recuperamos a força, sacudimos a disposição meio depressiva dos dias escuros e dizemos: “mais vale aproveitar hoje o sol, porque amanhã volta a chuva”. “Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas”…
O inverno para o qual Jesus preparava os seus discípulos mais próximos era o eclipse (Lc 23,45) de Deus no alto da Cruz. A Transfiguração foi uma experiência propedêutica, uma preparação imediata para o escândalo da Paixão. Foram estes mesmos três, Pedro, João e Tiago, que assistiram à prisão de Jesus, no horto das Oliveiras, quando Jesus os levou de novo consigo, não já para uma experiência de luz, mas de escuridão.
Todo este episódio – como aliás todo o evangelho lucano – desenvolve-se numa lógica orante. “Jesus (…) subiu ao monte para orar. Enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente…” (Lc 9,28-29). Foi também “enquanto orava” que, no Jordão, “o Céu rasgou-se e ouviu-se a voz: ‘Tu és o meu Filho…’ ” (3,21-22). E, finalmente, será em oração que entregará a vida ao Pai: “Nas tuas mãos…” (23,46). Como podemos reconhecer a presença de Deus, as suas epifanias e eclipses, a sua presença e o seu silêncio, sem viver em oração como o Filho?
A presença de Moisés (que representa a Lei) e Elias (em nome dos profetas) que “falavam com Ele” asseguram que toda a Antiga Aliança (AT) está em diálogo e ao serviço da Revelação de Jesus. Moisés e Elias prepararam o caminho do Senhor alimentando a esperança messiânica do povo santo de Israel. Ora vêem cumprida a sua missão e prestam testemunho ao Filho de Deus. O texto litúrgico diz que “falavam da morte de Jesus, que ia consumar-se em Jerusalém” (Lc 9,31). Porém, o texto grego não diz “morte”, mas e;xodoj, isto é, êxodo. (termo que só aparece outras 2x no NT: 2 Pd 1,15; Hb 11,22). A fraqueza desta tradução litúrgica (entretanto já superada na nova versão da CEP-2019) encontra-se no facto que “êxodo” não significa apenas a morte, mas todo o mistério pascal de Jesus: Paixão, Morte e Ressurreição. Desta forma e com este termo literal, coloca-se a Páscoa de Jesus em directa relação com o Êxodo do Povo de Israel que celebramos também na noite da Vigília pascal, na qual a leitura do Êxodo e o Salmo/Cântico da Passagem do Mar são a única leitura obrigatória do AT em todos os anos. De facto, nós, cristãos, vamos a Jerusalém cada ano na Vigília Pascal e, deste jeito, a Transfiguração é uma pausa no caminho.
A comunhão profunda com Deus não é sempre um encontro luminoso. Para Abraão, a proximidade de Deus foi precedida por “um sono profundo, um grande e escuro terror” (Gn 15,12); para os apóstolos, a entrada na nuvem fê-los ficar “cheios de medo” (Lc 9,34) e “mudos” (9,36). E até para Jesus, após a poderosa voz do Pai, impôs-se o silêncio: “Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho” (Lc 9,36). O Evangelho purifica progressivamente a nossa imagem infantil de Deus, de um deus à mão de semear, de um deus pronto-a-vestir. A vida não é sempre um mar de rosas e Deus não esconde o carácter trágico da existência. Sabemos sim que nos acompanha e que nos prepara para as noites da Páscoa, que são várias, não é só a noite do Aleluia.

P. Pablo Lima

In Notícias de Viana (1883), 14 de Março de 2019, p. 7.

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