sábado, 23 de março de 2019

Quem deu o nome a Deus?


24 de Março de 2019

Ex 3, 1-8a. 13-15; Sal 102 (103), 1-2. 3-4. 6-7. 8 e 11; 1 Cor 10, 1-6. 10-12; Lc 13, 1-9

Quem deu o nome a Deus?


            Dar ou impôr o nome é um acto de poder. São os pais ou os avôs – outrora os padrinhos ou o santo do dia, o onomástico – que podem exercer essa autoridade sobre as crianças. Tempos houve em que se pensava que só o bispo podia mudar o nome imposto no baptismo. Mesmo quando alguém dá uma alcunha (agradável ou desagradável) a outra pessoa, está a exercer poder sobre ela, para seu benefício ou prejuízo. Pensemos ainda, como nas relações humanas de maior proximidade (paternal, filial, fraternal, esponsal, amical, etc), ocorre com frequência que as pessoas trocam entre si nomes e palavras de carinho que não utilizam em público; são nomes secretos. No mundo antigo, sobretudo no Médio Oriente, os governantes e figuras públicas usavam pseudónimos para que os seus inimigos não conhecessem o seu verdadeiro nome, temendo que, através de algum acto de magia (tecnicamente chamado “ritual de execração”), pudessem fazer cair sobre eles uma maldição. O nome condensa e representa a pessoa; de facto, em termos jurídicos, diz-se que alguém age “em nome de” quando tem uma procuração que o autoriza a fazer actos que só o próprio poderia ou deveria fazer em circunstâncias normais. Finalmente, o nome tem o poder de invocação, isto é, através do nome chamamos os outros e colocamo-nos ou colocam-se na nossa presença. Reparemos no curioso facto que é começar a liturgia dizendo “Em nome do…”, sem, no entanto, referir o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
            A Deus nunca ninguém deu nem poderá dar nome. “Eu sou o que Sou; Eu sou; JHWH, Deus dos vossos pais” (Ex 3,14.16) não é um nome próprio, mas precisamente o contrário. É a afirmação de que Deus não pode ter um nome à maneira humana, Deus é inominável. Deus é eterno, sem princípio nem fim, quem poderá dar-lhe o nome? E mesmo que alguém pudesse dar-lhe o nome… quem o poderia pronunciar? O povo hebraico que nos transmitiu o tetragrama “JHWH” que alguns grupos traduzem abusiva e desrespeitosamente por “Jeová” (e, noutros tempos e ainda hoje em certos contextos, alguns católicos traduzem como “Javé”), nunca pronunciava este termo e dizia sempre “Adonai”, isto é, “Senhor”, em seu lugar. Deus é sempre Deus “para nós”, Emanu-El, Deus “dos vossos pais”, dos nossos pais, da nossa vida, da nossa história. Cada um/a há-de descobrir o nome filial, amoroso e terno com que chama a Deus na sua intimidade, na sua oração. Pergunte-se cada um/a como chama a Deus no santuário da sua consciência; aí onde mais ninguém entra e ninguém ouve, a não ser Ele.
            Tal como é possível identificar um pintor ou um artista pelos seus traços inconfundíveis (como as gravuras semanais do padre Christopher Sousa neste espaço ou a sua bd no Diário do Minho) e até mesmo saber, se o conhecermos bem, em que fase da sua vida fez determinada obra, assim também re-conhecemos a Deus pelas suas obras, na humanidade, no povo de Israel, na nossa vida. A sua obra é misericórdia, que Ele derrama infinitamente, num esbanjamento de bondade e ternura, sobre toda a criação, homens e animais, como cantamos no salmo 103. Misericórdia que Ele revela ao não castigar o pecador, tal como sempre pensa e deseja a nossa mesquinha imaginação. Jesus é claro no Evangelho quando corta radicalmente com a ideia das catástrofes ou violências sofridas pelos homens como punição divina. Bendito vinhateiro que o Pai nos enviou em Jesus Cristo, que intercede por nós; que diz ao Pai a nosso propósito “talvez venha a dar fruto…”, quando já todos teriam perdido a esperança a nosso respeito. Naquele “se não der”, esconde-se toda a magnanimidade de Cristo que espera sempre por nós, que não se cansa nem desiste de nós, que pensa sempre bem de nós, que nos convida à urgente conversão.
            Ele é o rosto e o nome de Deus para nós. “Debaixo dos céus, não há outro nome dado aos homens – senão Jesus Cristo, o Nazareno – pelo qual possamos ser salvos” (Act 4,10.12)
  
P. Pablo Lima

In Notícias de Viana (1884), 21 de Março de 2019, p. 7.

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