24
de Março de 2019
Ex 3, 1-8a. 13-15; Sal 102 (103), 1-2. 3-4.
6-7. 8 e 11; 1 Cor 10, 1-6. 10-12; Lc 13, 1-9
Quem
deu o nome a Deus?
Dar
ou impôr o nome é um acto de poder. São os pais ou os avôs – outrora os
padrinhos ou o santo do dia, o onomástico – que podem exercer essa autoridade
sobre as crianças. Tempos houve em que se pensava que só o bispo podia mudar o
nome imposto no baptismo. Mesmo quando alguém dá uma alcunha (agradável ou
desagradável) a outra pessoa, está a exercer poder sobre ela, para seu
benefício ou prejuízo. Pensemos ainda, como nas relações humanas de maior
proximidade (paternal, filial, fraternal, esponsal, amical, etc), ocorre com
frequência que as pessoas trocam entre si nomes e palavras de carinho que não
utilizam em público; são nomes secretos. No mundo antigo, sobretudo no Médio
Oriente, os governantes e figuras públicas usavam pseudónimos para que os seus
inimigos não conhecessem o seu verdadeiro nome, temendo que, através de algum
acto de magia (tecnicamente chamado “ritual de execração”), pudessem fazer cair
sobre eles uma maldição. O nome condensa e representa a pessoa; de facto, em
termos jurídicos, diz-se que alguém age “em nome de” quando tem uma procuração
que o autoriza a fazer actos que só o próprio poderia ou deveria fazer em
circunstâncias normais. Finalmente, o nome tem o poder de invocação, isto é,
através do nome chamamos os outros e colocamo-nos ou colocam-se na nossa
presença. Reparemos no curioso facto que é começar a liturgia dizendo “Em nome
do…”, sem, no entanto, referir o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
A
Deus nunca ninguém deu nem poderá dar nome. “Eu sou o que Sou; Eu sou; JHWH,
Deus dos vossos pais” (Ex 3,14.16) não é um nome próprio, mas precisamente o
contrário. É a afirmação de que Deus não pode ter um nome à maneira humana,
Deus é inominável. Deus é eterno, sem princípio nem fim, quem poderá dar-lhe o
nome? E mesmo que alguém pudesse dar-lhe o nome… quem o poderia pronunciar? O
povo hebraico que nos transmitiu o tetragrama “JHWH” que alguns grupos traduzem
abusiva e desrespeitosamente por “Jeová” (e, noutros tempos e ainda hoje em
certos contextos, alguns católicos traduzem como “Javé”), nunca pronunciava
este termo e dizia sempre “Adonai”, isto é, “Senhor”, em seu lugar. Deus é
sempre Deus “para nós”, Emanu-El, Deus “dos vossos pais”, dos nossos pais, da
nossa vida, da nossa história. Cada um/a há-de descobrir o nome filial, amoroso
e terno com que chama a Deus na sua intimidade, na sua oração. Pergunte-se cada
um/a como chama a Deus no santuário da sua consciência; aí onde mais ninguém
entra e ninguém ouve, a não ser Ele.
Tal
como é possível identificar um pintor ou um artista pelos seus traços
inconfundíveis (como as gravuras semanais do padre Christopher Sousa neste
espaço ou a sua bd no Diário do Minho) e até mesmo saber, se o conhecermos bem,
em que fase da sua vida fez determinada obra, assim também re-conhecemos a Deus
pelas suas obras, na humanidade, no povo de Israel, na nossa vida. A sua obra é
misericórdia, que Ele derrama infinitamente, num esbanjamento de bondade e
ternura, sobre toda a criação, homens e animais, como cantamos no salmo 103.
Misericórdia que Ele revela ao não castigar o pecador, tal como sempre pensa e
deseja a nossa mesquinha imaginação. Jesus é claro no Evangelho quando corta
radicalmente com a ideia das catástrofes ou violências sofridas pelos homens
como punição divina. Bendito vinhateiro que o Pai nos enviou em Jesus Cristo,
que intercede por nós; que diz ao Pai a nosso propósito “talvez venha a dar
fruto…”, quando já todos teriam perdido a esperança a nosso respeito. Naquele
“se não der”, esconde-se toda a magnanimidade de Cristo que espera sempre por nós,
que não se cansa nem desiste de nós, que pensa sempre bem de nós, que nos
convida à urgente conversão.
Ele
é o rosto e o nome de Deus para nós. “Debaixo dos céus, não há outro nome dado
aos homens – senão Jesus Cristo, o Nazareno – pelo qual possamos ser salvos”
(Act 4,10.12)
P. Pablo Lima
In Notícias de Viana (1884),
21 de Março de 2019, p. 7.
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