sábado, 6 de abril de 2019

A Festa que só Deus sabe fazer


31 de Março de 2019

Jos 5, 9a. 10-12; Sal 33 (34), 2-3. 4-5. 6-7; 2 Cor 5, 17-21; Lc 15, 1-3. 11-32

H.V.R. Rembranndt (c.1669), O Regresso do Filho Pródigo, The Hermitage, St. Petersburg

 A Festa que só Deus sabe fazer

            Desde a publicação de “O Regresso do Filho Pródigo” de Henry Nouwen em 1992 (7ª edição portuguesa do Apostolado da Oração, 2005), é impossível separar mentalmente esta parábola da pintura homónima de Rembrandt (1663, Museu do Hermitage), onde o Pai parece ter uma mão masculina e outra feminina. Considero insuperada a interpretação, embora um pouco psicológica e subjectivista, que Nouwen faz da perícope evangélica e do itinerário espiritual cristão como uma assimilação dos sentimentos do coração do Pai. Não é o filho pródigo, e menos ainda o irmão mais velho, que nos deve inspirar e ao qual devemos imitar, mas sim o Pai, cheio de ternura e capaz de gestos escandalosamente amorosos. Bem escrevia Joaquim Jeremias, quem é pródigo é o pai, não o filho.
            Na época de Jesus, não existia a partilha da herança em vida. Existia distribuição de bens pelos filhos, mas nada que se pareça ao estatuto da divisão dos bens durante a vida do pai. Com os olhos postos nesta questão, compreendemos que o gesto do filho mais novo foi simultaneamente um parricídio simbólico e real. Qual Édipo Rei?! O filho faz o pai sentir-se morto quando ele está vivo e com saúde, e não o faz enganado ou sem conhecimento como no drama grego. O pecado corresponde mentalmente à atitude do filho da parábola, pretender que Deus não existe, agir etsi Deus non daretur, como se Deus não existisse. As consequências, obviamente, são sofridas pelo filho na carne, pelo pai no coração. Escreveu magistralmente São Bernardo Impassibilis est Deus, sed non incompassibilis; algo semelhante a “Deus não se magoa, mas não é insensível…”.
            O paradoxo do amor é desconsiderar a própria vida, para dar vida ao(s) outro(s). O Pai, considerado morto pelo filho, sabe bem que o seu benjamim tinha trocado a Festa pelas festas quando atravessou a soleira da porta e se afastou em direcção ao desconhecido. Fraca troca. É possível viver embriagados sem saborear o vinho. É possível viver embrutecidos em gargalhadas e festas permanentes, sem ter alegria. O Pai, sabe bem o que é uma Festa. Aliás, só o Pai, porque sabe amar e sabe o que é ter Vida e dar Vida, sabe organizar uma Festa e fazer da vida uma Festa «‘Comamos e festejemos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a festa (…) tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida» (Lc 15, 24.35). As festas fazem falta como o pão para a boca, mas aquilo que é mesmo bom, é ter a festa no coração. Como o Pai. Como o Filho do Pai.
Ps. Uma nota sobre a feliz iniciativa da CEP de publicar, em versão experimental, “Os Quatro Evangelhos e os Salmos”. Pessoalmente, na versão deste episódio, considero que seria teológica e filologicamente mais fiel a tradução “compadeceu-se entranhadamente”, em vez de “profundamente”. Este Pai do Evangelho, tem entranhas, é Mãe e Pai.
           
P. Pablo Lima

In Notícias de Viana (1885), 28 de Março de 2019, p. 7.

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