31
de Março de 2019
Jos 5, 9a. 10-12; Sal 33 (34), 2-3. 4-5.
6-7; 2 Cor 5, 17-21; Lc 15, 1-3. 11-32
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H.V.R. Rembranndt (c.1669), O Regresso do Filho Pródigo, The Hermitage, St. Petersburg
A
Festa que só Deus sabe fazer
Desde
a publicação de “O Regresso do Filho Pródigo” de Henry Nouwen em 1992 (7ª
edição portuguesa do Apostolado da Oração, 2005), é impossível separar
mentalmente esta parábola da pintura homónima de Rembrandt (1663, Museu do
Hermitage), onde o Pai parece ter uma mão masculina e outra feminina. Considero
insuperada a interpretação, embora um pouco psicológica e subjectivista, que
Nouwen faz da perícope evangélica e do itinerário espiritual cristão como uma
assimilação dos sentimentos do coração do Pai. Não é o filho pródigo, e menos
ainda o irmão mais velho, que nos deve inspirar e ao qual devemos imitar, mas
sim o Pai, cheio de ternura e capaz de gestos escandalosamente amorosos. Bem
escrevia Joaquim Jeremias, quem é pródigo é o pai, não o filho.
Na
época de Jesus, não existia a partilha da herança em vida. Existia distribuição
de bens pelos filhos, mas nada que se pareça ao estatuto da divisão dos bens
durante a vida do pai. Com os olhos postos nesta questão, compreendemos que o
gesto do filho mais novo foi simultaneamente um parricídio simbólico e real.
Qual Édipo Rei?! O filho faz o pai sentir-se morto quando ele está vivo e com
saúde, e não o faz enganado ou sem conhecimento como no drama grego. O pecado
corresponde mentalmente à atitude do filho da parábola, pretender que Deus não
existe, agir etsi Deus non daretur, como
se Deus não existisse. As consequências, obviamente, são sofridas pelo filho na
carne, pelo pai no coração. Escreveu magistralmente São Bernardo Impassibilis est Deus, sed non
incompassibilis; algo semelhante a “Deus
não se magoa, mas não é insensível…”.
O
paradoxo do amor é desconsiderar a própria vida, para dar vida ao(s) outro(s).
O Pai, considerado morto pelo filho, sabe bem que o seu benjamim tinha trocado
a Festa pelas festas quando atravessou a soleira da porta e se afastou em
direcção ao desconhecido. Fraca troca. É possível viver embriagados sem
saborear o vinho. É possível viver embrutecidos em gargalhadas e festas
permanentes, sem ter alegria. O Pai, sabe bem o que é uma Festa. Aliás, só o
Pai, porque sabe amar e sabe o que é ter Vida e dar Vida, sabe organizar uma
Festa e fazer da vida uma Festa «‘Comamos e festejemos, porque este meu filho
estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a
festa (…) tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava
morto e voltou à vida» (Lc 15, 24.35). As festas fazem falta como o pão para a
boca, mas aquilo que é mesmo bom, é ter a festa no coração. Como o Pai. Como o
Filho do Pai.
Ps. Uma nota sobre a feliz
iniciativa da CEP de publicar, em versão experimental, “Os Quatro Evangelhos e
os Salmos”. Pessoalmente, na versão deste episódio, considero que seria teológica
e filologicamente mais fiel a tradução “compadeceu-se entranhadamente”,
em vez de “profundamente”. Este Pai do Evangelho, tem entranhas, é Mãe e Pai.
P. Pablo Lima
In Notícias de Viana (1885),
28 de Março de 2019, p. 7.
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