07 de Abril de 2019
Is
43, 16-21; Sal 125 (126), 1-2ab. 2cd-3. 4-5. 6; Filip 3, 8-14; Jo 8, 1-11
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O escândalo da Misericórdia
O escândalo da Misericórdia
O texto evangélico de hoje (Jo 8,1-11)
foi considerado chocante por alguns cristãos dos primeiros séculos. De facto,
foi mesmo suprimido em vários manuscritos antigos ou empurrado para o fim do
pergaminho. Até ao século IV, em muitas Igrejas, não era proclamado nem
conhecido. As razões foram muitas: a crítica implícita à lei de Moisés, a
liberalidade de Jesus e, sobretudo, o escândalo da misericórdia. Vamos por
partes.
Para o povo de Israel, manter a
fidelidade do matrimónio era uma questão de sobrevivência nacional. Depois do
exílio e da diminuição numérica que tal provocou, o povo não se podia dar ao
luxo de ter famílias destruídas se queria subsistir: não era só o medo da
infidelidade matrimonial, mas sobretudo das relações com estrangeiros. No
entanto, a Lei de Moisés era muito clara: não era só a mulher que devia ser
apedrejada, mas também o homem e o acento de culpabilidade era posto nele e não
nela. Por isto, o uso do argumento bíblico no acórdão de um juiz para
justificar a violência doméstica é repugnante… Lê-se em Dt 22,22: “quando um
homem for surpreendido a dormir com uma mulher casada, ambos deverão morrer; o
homem que dormiu com a mulher e também a mulher. Assim extirparás o mal de
Israel”. Ora como é que os doutores da lei e fariseus trouxeram a Jesus uma
mulher “apanhada em flagrante adultério” e o companheiro não foi apanhado?! A
lei mosaica obrigava também à lapidação dele… Por acaso, não estaria ele também
entre os que agarraram a mulher e a trouxeram até Jesus para ser “justiçada”? A
hipocrisia e a perversidade têm dessas coisas. Ora se a Lei de Moisés não era
cumprida na sua radicalidade e servia a interesses machistas e dominadores, restava
nela ainda algum rasgo de justiça?
Jesus demonstra uma grande
superioridade humana e espiritual na forma como reage à provocação
mal-intencionada dos seus adversários. João diz mesmo «fizeram-lhe a pergunta
para o fazerem cair numa armadilha e terem de que o acusar» (8,6). Mas Jesus,
simplesmente, ignora-os. Senhor de si (e de todos), inclina-se e começa a
escrever com o dedo no chão. Este gesto recorda o acto de Deus no Sinai que
escreve as tábuas da Lei com o seu dedo (Ex 31,18): é como se Jesus começasse a
reescrever (porque porventura mal copiada) ou reinterpretar, correctamente, a
Lei. Em todo caso, com o gesto de quem se inclina, Jesus vira as costas aos
acusadores e nem sequer olha para eles. Certamente o seu rosto terá ficado à
altura do rosto da mulher…, atirada ao chão por aqueles que se consideravam
“puros”.
Finalmente, o gesto inusitado de
misericórdia por parte de Jesus roça os limites do escândalo. Nós, mesquinhos
como somos, queremos que Deus seja mais activo e menos misericordioso. Chegamos
a sentir-nos ofendidos pelo perdão oferecido a outros. Assim disse Bento XVI na
sua primeira homilia: «Quantas vezes desejaríamos que Deus se
mostrasse mais forte. Que atingisse duramente, vencesse o mal e criasse um
mundo melhor. Nós sofremos pela paciência de Deus. Porém, o Deus, que se tornou
cordeiro, diz-nos que o mundo é salvo pelo Crucificado e não por quem
crucifica. O mundo é redimido pela plenitude de Deus e destruído pela
impaciência dos homens». E, no seu primeiro Angelus, o Papa Francisco disse:
«Deus nunca se cansa de perdoar. Nunca! Nunca! Nós é que nos cansamos de pedir
perdão. Não nos cansemos! Nunca! Nunca!».
A palavra misericórdia é uma palavra composta de duas raízes:
miser (pobre, pobreza) e cor (coração). Misericórdia é meter o pobre e a sua
desgraça no próprio coração. No seu jeito lapidar de escrever e nos seus
infinitos jogos de palavras, Santo Agostinho deixou-nos um lindíssimo sermão
sobre o evangelho de hoje (Sermo 13,5). Comentando o versículo nono («por fim,
ficou só Jesus e a mulher»), diz: «após a partida dos escribas e fariseus
ficaram apenas a pecadora e o Redentor, a doente e o médico, a mísera… e a
misericórdia».
P. Pablo Lima
In Notícias de Viana (1886), 07 de Abril de 2019, p. 7.
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