Vincent van Gogh
O Bom Samaritano (after Delacroix) 1890, Saint-Rémy Óleo sobre tela, 73 x 60 cm Rijksmuseum Kröller-Müller, Otterlo |
Domingo XV do Tempo Comum
14 de Julho de 2019
Deut 30, 10-14;
Sal 68 (69) ou Sal 18 B (19); Col 1, 15-20; Lc 10, 25-37
Uma Igreja enlameada como o Bom Samaritano
Algumas das parábolas
mais conhecidas de Jesus aparecem apenas no evangelho de São Lucas, por ex., o Filho Pródigo e o Bom Samaritano. São algumas das peças literárias e morais mais
belas da história da humanidade e transcendem o âmbito da fé. “Bom samaritano”
tornou-se uma expressão comum ou “laicizada” para referir-se a uma pessoa
bondosa, compassiva, “altruísta” (outro termo laico que substitui a palavra
“caridosa”).
Jesus conta esta
parábola para responder à pergunta “o que devo fazer para herdar a vida
eterna”. É um facto curioso que a conversa, para explicar como chegar à vida
eterna, dedique mais tempo ao amor fraterno do que ao amor divino… É a
fundamentação da teologia ou da fé na ética. Para viver uma fé adulta e
responsável, o primeiro campo de exercício não é a devoção, mas a práxis. Na
tradição da Igreja foi sempre claro que é possível a salvação a quem não
conhece Deus mas ama o próximo, mas aquele que “ama Deus” e “não conhece o
próximo” não tem salvação possível.
Curiosas são as atitudes
do sacerdote e do levita, aliás justificadas pela Lei bíblica (Lv 21,11; Nm
19,11): o contacto com um cadáver torna a pessoa impura e, em consequência,
inábil para o culto. Ora o homem ferido na estrada de Jericó, foi deixado
“meio-morto”, isto é, aparentemente morto. Portanto, foi por “amor a Deus” ou,
melhor, por “amor ao culto”, que o sacerdote e o levita deixaram o homem ferido
à beira da estrada para lá morrer…
São sempre as pessoas de
quem menos se espera que cumprem os maiores actos de caridade. São aqueles que
mais sofrem os preconceitos e críticas dos grandes moralistas do nosso tempo,
crentes ou não, que se revelam os mais caridosos e misericordiosos. O
samaritano era, por princípio na compreensão judaica, um idólatra e um pecador.
Mas foi ele que se comportou verdadeiramente como ser humano e crente. O
Samaritano da Parábola inspirou a expressão do Papa Francisco na EG 49:
“Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas
estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às
próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que
acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos”.
Foi Orígenes o primeiro
que, na sua exegese alegórica, nos disse que o verdadeiro samaritano da
humanidade é Jesus. É interessante o facto de que ele permanece até aos dias de
hoje como o mais prolífico exegeta bíblico do Oriente nos dois mil anos da
Igreja, ainda hoje excomungado por se ter auto-mutilado. Mas é ainda mais
interessante que a interpretação deste excomungado permanece ainda hoje no
Missal Romano, no Prefácio VIII do Tempo Comum que ouso sugerir para uso neste
Domingo: “Cristo, vosso servo e nosso Redentor (…) ainda hoje, como bom
samaritano, vem ao encontro de todos os homens atribulados no corpo ou no
espírito e derrama sobre as suas feridas o óleo da consolação e o vinho da
alegria”.
P. Pablo Lima
In Notícias de Viana
(1900), 11 de Julho de 2019, p. 7.
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