quarta-feira, 10 de julho de 2019

Uma Igreja enlameada como o Bom Samaritano

Vincent van Gogh
O Bom Samaritano (after Delacroix)
1890, Saint-Rémy
Óleo sobre tela, 73 x 60 cm
Rijksmuseum Kröller-Müller, Otterlo

Domingo XV do Tempo Comum
14 de Julho de 2019

Deut 30, 10-14; Sal 68 (69) ou Sal 18 B (19); Col 1, 15-20; Lc 10, 25-37

Uma Igreja enlameada como o Bom Samaritano

            Algumas das parábolas mais conhecidas de Jesus aparecem apenas no evangelho de São Lucas, por ex., o Filho Pródigo e o Bom Samaritano. São algumas das peças literárias e morais mais belas da história da humanidade e transcendem o âmbito da fé. “Bom samaritano” tornou-se uma expressão comum ou “laicizada” para referir-se a uma pessoa bondosa, compassiva, “altruísta” (outro termo laico que substitui a palavra “caridosa”).
            Jesus conta esta parábola para responder à pergunta “o que devo fazer para herdar a vida eterna”. É um facto curioso que a conversa, para explicar como chegar à vida eterna, dedique mais tempo ao amor fraterno do que ao amor divino… É a fundamentação da teologia ou da fé na ética. Para viver uma fé adulta e responsável, o primeiro campo de exercício não é a devoção, mas a práxis. Na tradição da Igreja foi sempre claro que é possível a salvação a quem não conhece Deus mas ama o próximo, mas aquele que “ama Deus” e “não conhece o próximo” não tem salvação possível.
            Curiosas são as atitudes do sacerdote e do levita, aliás justificadas pela Lei bíblica (Lv 21,11; Nm 19,11): o contacto com um cadáver torna a pessoa impura e, em consequência, inábil para o culto. Ora o homem ferido na estrada de Jericó, foi deixado “meio-morto”, isto é, aparentemente morto. Portanto, foi por “amor a Deus” ou, melhor, por “amor ao culto”, que o sacerdote e o levita deixaram o homem ferido à beira da estrada para lá morrer…
            São sempre as pessoas de quem menos se espera que cumprem os maiores actos de caridade. São aqueles que mais sofrem os preconceitos e críticas dos grandes moralistas do nosso tempo, crentes ou não, que se revelam os mais caridosos e misericordiosos. O samaritano era, por princípio na compreensão judaica, um idólatra e um pecador. Mas foi ele que se comportou verdadeiramente como ser humano e crente. O Samaritano da Parábola inspirou a expressão do Papa Francisco na EG 49: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos”.
            Foi Orígenes o primeiro que, na sua exegese alegórica, nos disse que o verdadeiro samaritano da humanidade é Jesus. É interessante o facto de que ele permanece até aos dias de hoje como o mais prolífico exegeta bíblico do Oriente nos dois mil anos da Igreja, ainda hoje excomungado por se ter auto-mutilado. Mas é ainda mais interessante que a interpretação deste excomungado permanece ainda hoje no Missal Romano, no Prefácio VIII do Tempo Comum que ouso sugerir para uso neste Domingo: “Cristo, vosso servo e nosso Redentor (…) ainda hoje, como bom samaritano, vem ao encontro de todos os homens atribulados no corpo ou no espírito e derrama sobre as suas feridas o óleo da consolação e o vinho da alegria”.

            P. Pablo Lima

       In Notícias de Viana (1900), 11 de Julho de 2019, p. 7. 


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