quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Tratar o Rei pelo nome


Domingo XXXIV do Tempo Comum
Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo 
24de Novembro de 2019

2 Sam 5, 1-3; Sal 121 (122); Col 1, 12-20; Lc 23, 35-43

Tratar o Rei pelo nome

A monarquia de Israel não foi propriamente uma realidade edificante. Não foi nem sequer um facto unânime: o próprio profeta Samuel, que unge o primeiro rei, Saúl, era contrário à monarquia. Contudo, David – que não foi propriamente um poço de virtudes – tornou-se o símbolo d’Aquele verdadeiro Rei que havia de vir, o seu verdadeiro descendente que, como o provou a sua vida tão desregrada ainda que muito sábia, não podia ter sido Salomão. A grande riqueza da monarquia – tal como nos é apresentada pelo Antigo Testamento e, particularmente, pela primeira leitura de hoje em 2 Sm 5,1-3 – é que o Rei era um misto de pessoa eleita por Deus e “sancionada” pelo povo. Como aliás, em qualquer circunstância através dos tempos, o verdadeiro exercício de governo é aquele que aceite a partir de dentro, do coração, quando a hetero-nomia é, voluntariamente, transformada em auto-nomia, isto é, comportamento aceite e praticado em primeira pessoa. Só assim David é um símbolo, frágil, do verdadeiro rei que é Jesus. Aquele foi rei de Israel; Este é Rei do Universo, mas é chamado “filho de David”. A fórmula retórica com que os “anciãos do povo de Israel” aceitam e pedem a David que reine sobre eles é muito eloquente: “somos dos teus ossos e da tua carne”. E os cristãos, no gesto eucarístico de comunhão, tornamo-nos consanguíneos de Jesus.

O título de Cristo como “rei” é paradoxal. Que rei é este que não tem poder, não tem exército, não impõe a lei, usa a cruz como trono e a coroa é feita de espinhos que não são banhados a ouro mas com o próprio sangue? Que rei é este que não tem um ceptro nas mãos porque as tem pregadas a uma cruz? Um antigo hino cristão reza assim: “Regnavit a ligno Deus”, isto é, Deus reina desde o madeiro. Precisamente porque não respondeu à provocação desesperada do ladrão “salva-Te a Ti mesmo e a nós também”, é que nos salvou. Porque a sua vitória é a do amor que não desiste, que não desce da cruz, que permanece sempre.

A arte e a piedade popular intuíram de forma sublime este mistério do “rei crucificado”, o “divino omni/im/potente”. As cruzes de Páscoa, feitas de metais nobres, adornadas de flores, são sinais dessa compreensão interior de um mistério que está para além da lógica humana. Talvez a imagem “portuguesa” mais representativa desta realidade é o “Senhor Santo Cristo dos Milagres”, nos Açores. A imagem do séc. XVI, de autor desconhecido, é um busto de Cristo sofredor, o “Ecce Homo” ou “Senhor da cana verde” como Lhe chama a tradição do Alto Minho, mas este Cristo apenas flagelado e escarnecido, de mãos atadas, tem um rosto sereno e ostenta uma vara-ceptro dourada, uma auréola e um manto preciosos (estreando um novo a cada ano ou cada dois): é um Cristo rei, ainda não sobre a cruz, mas já em glória.

            Surpreende-nos a familiaridade com que o “bom ladrão”, o “Longinos” da tradição apócrifa, trata a Jesus. Apenas no evangelho de Lucas (e duas vezes no de Marcos), temos personagens que chamam Jesus pelo nome. No caso de Lucas, ocorre em cinco lugares: o grupo de leprosos (17,13), o cego de Jericó (18,38), o possesso de Cafarnaum e o possesso de Gerasa (Lc 4,34 «Mc 1,24; 8,28 «Mc 5,7) e, finalmente, o criminoso na cruz (23,42). Em Mateus e João, nunca ninguém chama Jesus pelo nome mas sempre por “Rabbi” (mestre) ou “Kyrie” (Senhor), nem sequer os discípulos e apóstolos! Certamente o título de “mestre” era o mais comum e razoável, o de “Senhor” é talvez uma interpretação pós-pascal dos evangelistas (particularmente porque este é a palavra usada na versão grega do Antigo Testamento -LXX-para traduzir o tetragrama ou nome “hebraico” de Deus). Assim, estando Ele na cruz, além da sua mãe alguém o pôde chamar pelo seu próprio nome, o maior sinal de intimidade. Donde conheceria aquele condenado a Jesus? Tê-lo-ia seguido algumas vezes? Seja quais forem os momentos que ele partilhou antes com Jesus, neste, que era o último, teve as palavras certas: “Jesus…, lembra-te de mim quando vieres com a tua realeza”. E melhor resposta não podia ter ouvido: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”.

P. Pablo Lima

In Notícias de Viana (1916), 21 de Novembro de 2019, p. 7.

Sem comentários:

Enviar um comentário